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“Maus”, a banda-desenhada que fez história — e que está a ser banida nos EUA

Removida do currículo escolar no Tennessee, a decisão está agora a levantar uma onda de apoio à obra que marcou o género.
O livro ganhou um Pulitzer em 1992

Art Spiegelman nasceu depois do final da Segunda Guerra Mundial, mas sentiu na pele os efeitos de uma das maiores tragédias da história moderna. O ilustrador e cartoonista tinha apenas 24 anos quando, num trabalho, decidiu espelhar as vivências dos pais no Holocausto.

O suicídio da mãe, um colapso nervoso e uma relação atribulada com o pai não o impediram de tentar passar para o papel toda a história. A pequena banda-desenhada de três páginas retratava os judeus como ratos, perseguidos pelos gatos, que eram os nazis. Chamou-lhe “Maus”.

A primeira tentativa falhou mas, anos mais tarde, decidiu reencontrar-se com o pai para gravar e reavivar as suas memórias do conflito. “Fui visitá-lo com um gravador na mão e pensei que poderia ser o início de algo.” E foi.

As entrevistas ao pai deram origem a um novo “Maus”, em formato de livro de banda-desenhada, que começou a ser publicado em 1980. Sem que nada o fizesse prever, a obra tornou-se num ícone que elevou a arte da banda-desenhada a um novo patamar.

Tornou-se na primeira obra do género a conquistar um Prémio Pulitzer e, pelo caminho, desmanchou a ideia de que as bandas-desenhadas eram uma coisa para crianças e adolescentes.

“Maus” está de volta às notícias depois de ter sido banida da lista do currículo de leitura dos alunos do oitavo ano no estado norte-americano do Tennessee. A decisão estadual provocou impacto a nível nacional e internacional e já foi apelidade de Orwelliana pelo próprio autor.

“Estou estupefacto com tudo isto”, revelou Spiegelman à “CNBC”. Para o autor de 73 anos e ao contrário do que defende a comissão que toma este tipo de decisões, a remoção de “Maus” terá acontecido menos por causa dos palavrões e mais pelo tema que aborda.

“Conheci tantos jovens que aprenderam coisas com o meu livro”, nota. “O que percebo é que está tudo demente no Tennessee. Algo de muito errado se passa lá.”

Faz parte do Plano Nacional de Leitura

Segundo o Comité de Educação, o livro foi “retirado por causa do uso desnecessário de palavrões nudez, bem como a representação de violência e de suicídio”. “Vista como um todo, o comité sentiu que esta obra era demasiado orientada para adultos, para ser usada nas nossas escolas.”

“Maus” não é apenas uma banda-desenhada, é também uma memória dramática do Holocausto e das vivência do pai de Spiegelman, um polaco judeu que sobreviveu a Auschwitz. Mas fá-lo de uma forma inusitada.

Na metáfora imaginada por Spiegelman, os judeus são representados como os ratos, os alemães como gatos, os polacos como porcos, os franceses são sapos e os americanos são cães. A história envolve os relatos da vida familiar dos pais de Spiegelman nos anos que antecederam a guerra e a invasão alemã, a fuga e a prisão em Auschwitz, bem como o salvamento e a chegada aos Estados Unidos.

O drama familiar teria outro episódio negro, com o suicídio da mãe, quando Art tinha apenas 20 anos. Outro trauma familiar teve origem no Holocausto: a perda do primeiro filho do casal Spiegelman, Rysio, que foi deixado a cargo de uma tia para o tentar livrar do perigo nazi.

Em 1943, a tia terá cometido suicídio e dado veneno a Rysio e a duas crianças a seu cargo. Assim que o conflito terminou, o casal recusou reconhecer a morte do filho e procurou-o em centenas de orfanatos. O trauma permaneceu vivo até ao fim das suas vidas.

A explosão de “Maus” deu-se com uma crítica brilhante publicada no “The New York Times”. “1986 foi um ano exemplar, com os jornais a quererem escrever e saber tudo sobre banda-desenhada. Mas quase todos tinham a mesma manchete, ‘POW, BAM, ZAP, a banda-desenhada já não é só para miúdos’. E isso acontecia porque no mesmo ano foi publicado ‘Watchmen’ e ‘The Dark Knight Returns’”, conta em entrevista à “Penguin”

“Desde o seu início que existia essa ideia de que era um género de super-heróis e de repente surjo eu, fora desse grupo, vindo de outro sítio qualquer. De repente havia espaço para todos os géneros.”

Durante todos esses anos, Spiegelman continuou a escrever e publicar a história de “Maus”, até que em 1992, o reconhecimento chegou de forma inesperada: em formato de Pulitzer. “Na altura pensei que era mentira”.

Em Portugal, “Maus” faz parte da lista de livros recomendados pelo Plano Nacional de Leitura, para os estudantes do terceiro ciclo, do sétimo até ao nono ano.

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