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As melhores piadas e histórias do novo (e hilariante) livro de Jerry Seinfeld

"Isto tem piada?" é uma viagem pelas tiradas mais espetaculares do génio da comédia.
Todo o humor, agora em livro.

Eram dois génios com uma missão. Um, Jerry Seinfeld, mais afável, o outro, Larry David, mais ácido. Juntos criaram esse monumento à comédia de televisão que é “Seinfeld”. Foram nove temporadas que chegaram ao fim com um duplo episódio que ainda hoje impressiona pelos números: mais de 76 milhões de americanos viram o final da série. Estávamos em 1998.

Mais de 20 anos depois, Seinfeld é um tipo com mais tempo livre, mas nem por isso está parado. O seu humor que atravessa décadas chegou agora em versão escrita a Portugal com “Isto Tem Piada?”, uma edição da editora Vogais.

Não é a primeira vez que ouvimos a pergunta: “Isto tem piada?”. Ouvimos a questão sair da boca do próprio comediante em espectáculos seus, num daqueles momentos curiosos de ligação com o público. Ouvimo-la também num daqueles (muitos) momentos que deixam o neurótico George Costanza (Jason Alexander) aos berros.

Seinfeld, o comediante, não precisa de apresentações. É nome de topo no já rico panorama de stand-up norte-americano. É protagonista da maior sitcom de sempre. É até o apresentador do programa que migrou para a Netflix, “Comedians in Cars Getting Coffe”. E que é só isso mesmo: comediantes no carro à conversa que vão juntos tomar um café. E funciona porque se o juntarmos a um Ricky Gervais ou a um John Oliver, café e um bom carro da coleção privada de Seinfeld, a coisa tem mesmo de ter piada.

O livro propriamente dito divide-se por décadas, com cada uma a abrir com uma fotografia do comediante. Na dos anos 90, naturalmente, surge ao lado do co-criador de “Seinfeld”.

“Lembro-me bem de ter estado sentado ao lado do Larry David na reunião em que fizemos o pitch da série ‘Seinfeld’ à NBC”, conta no livro. “E recordo-me de ter dito: ‘queremos que o programa seja sobre a forma como os humoristas obtém material’. Enquanto dizia isto, pensava: ‘Que disparate tão grande. Haverá alguém suficientemente estúpido para acreditar no que estou a dizer? Mas não soa nada mal. Talvez o propósito da reunião seja este, de dizer coisas que soem bem’”.

A reunião prosseguiu e Seinfeld conta uma piada sobre empregadas de café que andavam de um lado para o outro à procura de pessoas que já tinham bebido café, só para lhes oferecer mais café. “Riram-se. E em menos de nada deram-me um programa de televisão”.

A série ganhou ali vida e Seinfeld explicou a estupidez do que tinha dito. “A forma como os humoristas obtém material. Por favor. Se pudéssemos viajar no tempo ninguém ia querer ver o Van Gogh a comprar tinta. Que raio de coisa. Viajávamos para o poder ver a pintar. É isso que se vê num set de stand-up”.

Foi, na verdade, também isso que víamos em “Seinfeld”: o humorista em palco a discorrer sobre o seu dia a dia, antes de nos juntarmos ao leque de personagens únicas, que incluía as entradas de rompante de Kramer (Michael Richards) e a melhor-pior dança da história da televisão, cortesia de Elaine (Julia Louis-Dreyfus).

Há mesmo uma fatia considerável do humor de Seinfeld que passa simplesmente por admirar um outro olhar sobre as coisas mais banais do dia a dia. Eis uma das piadas do livro que é toda uma análise: “Há dois tipos de favor. Os grandes e os pequenos. Dá para medir o tamanho do favor pelo tamanho da pausa que a pessoa faz depois de o pedir. Se não houver pausa, é pequeno (…). Quanto mais levarem a pedi-lo, mais nos custará a fazê-lo”.

São mais de 40 anos de piadas que podem ser revisitadas ao longo do livro. Algumas são peças vintage de época, como quando fala de um teleférico construído em Nova Iorque com a autarquia na bancarrota. “Um dia destes há-de haver uma montanha no South Bronx”, então um dos bairros com mais criminalidade da cidade. “Vai ser a primeira montanha-russa em que as pessoas gritam na parte plana, quando chegam ao nível do chão”.

Outras são um olhar curioso sobre a mente do comediante. Como quando estava a crescer e tentava explicar aos pais, ambos órfãos, que queria ir à Disney. Ele tinha cama, uma casa, de que mais precisava? Nem o deixavam terminar a palavra. “Disn…”. Ou quando Seinfeld recorda a primeira vez que pôde pagar para ter uma empregada doméstica. Ela estava a trabalhar e ele atrás dela atrapalhado, “Não sei por que motivo não apanhei isso do chão”. O que o levou a concluir que se fosse ela a empregada doméstica, andaria pela casa a julgar a pessoa. “Presumo que não tenha tido tempo para fazer isto. Não, não, deixe-se estar aí sentado. Você enoja-me”.

Seinfeld
O primeiro livro em duas décadas.

Há ainda piadas antigas que são simples dúvidas, daquelas que atravessam gerações: como é que uns óculos chegam para o Super-Homem não ser reconhecido como Clark Kent? O Daily Planet, jornal fictício onde o super-herói trabalha, deve ser o pior jornal do mundo. “Só lá trabalham três jornalistas” e dois deles estã sempre em apuros, a precisarem de ser salvos pelo Super-Homem.

“Isto Tem Piada?” é um daqueles casos em que podemos ter o livro à mesa de cabeceira e espreitar um pouco à sorte. Tanto nos podemos deparar com piadas cuidadosamente preparadas ou tiradas simples. Como esta: “Tudo se resume a ouvir. Muitas mulheres casadas queixam-se de que os maridos não as ouvem… Nunca ouvi a minha mulher dizer isso. Talvez já o tenha dito. Não faço ideia”.

É o lado acessível, natural e arguto do comediante. Ele que nos habituou a guardar alguma complexidade até dentro das coisas mais simples, como quando recorda em palco como era a sua vida no pós-Seinfeld.

“Então, Jerry, já não tens o teu programa. O que fazes agora? Vou dizer-vos: nada. Sei que devem estar a pensar: ‘olha, parece-me bem, acho que também gostava’. Mas uma pessoa não fazer nada não é tão simples quanto parece. Uma pessoa pode ficar muito ocupada a não fazer nada. Porque, quando não fazemos nada, ficamos livres para fazer o que quer que seja. O que pode levar facilmente a que façamos alguma coisa. O que põe fim ao meu não fazer nada e me obriga a parar tudo”.

Seinfeld, hoje com 66 anos, tinha apenas 21 anos quando começou a fazer stand-up. Ao longo dos anos continuou a escrever o seu material e a explorar a sua voz em palco. É essa voz que podemos agora ler, entre 512 páginas que nos dão não só humor mas também nos mostram a evolução de Seinfeld. O livro já está à venda.

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