Livros

“The Millennium Wolves”: a saga de lobisomens que quer ser o próximo “Crepúsculo”

Escrita aos 19 anos por uma jovem israelita, já foi lida mais de 125 milhões de vezes na aplicação de leitura imersiva onde está publicada.
Tem lobisomens, romance e muito sexo

Quando E.L. James começou a escrever as primeiras páginas de “As 50 Sombras de Grey”, estava longe de imaginar o sucesso que o romance de ficção inspirado na saga “Crepúsculo” teria. Publicadas inicialmente online, a fan fiction ganhou vida própria e transformou-se num fenómeno mundial com milhões de vendas e até adaptações ao cinema. A história de Sapir Englard parece ser em tudo semelhante.

Ao estilo de “Crepúsculo”, a jovem israelita imaginou um mundo habitado por lobisomens e emprestou-lhe os traços habituais dos romances juvenis. “Sienna é uma jovem lobisomem de 19 anos que esconde um segredo: é virgem. A única virgem da matilha”, revela a sinopse do primeiro livro que lançou nas plataformas abertas online sob o título “The Millennium Wolves”.

“Decidida a resistir ao Haze [a época de acasalamento] e aos seus instintos mais primitivos, liberta-se do seu autocontrolo quando conhece Aiden, o macho alfa”, revela a autora de 26 anos. Inesperadamente, a história paranormal foi um sucesso, sobretudo numa app chamada Galatea, que publica romances imersivos, adaptados à leitura em smartphones — e com direito a banda sonora própria.

Apenas dez meses após o lançamento, a startup alemã revelava que “The Millennium Wolves acumulou mais de um milhão de euros em vendas. No final de 2020, já tinha ultrapassado a barreira dos cinco milhões. Hoje, com mais de sete livros publicados na app, a história já foi lida mais de 125 milhões de vezes, revela a Galatea.

Entre as criaturas fantásticas ao estilo de “Crepúsculo” e as cenas de sexo explícitas a fazer lembrar “As 50 Sombras de Grey”, a obra de Englard parece ter encontrado a fórmula certa que tornou cada uma dessas sagas num sucesso mundial. E sim, as histórias são aconselhadas apenas para maiores de 18.

Curiosamente, o mundo de “The Millennium Wolves” foi criado por Englard quando ainda era uma adolescente. “Tive a ideia quando ainda estava na escola secundária”, conta a jovem que devorava toda a literatura pop baseada em criaturas fantásticas, de vampiros a lobisomens, sobretudo as obras de Nalini Singh. “Escrevi o meu primeiro livro nessa altura como uma experiência. Não era um bom livro, mas foi a minha primeira tentativa de escrever em inglês.”

Sapir Englard escreveu o romance aos 19 anos

Terminados os estudos, teve que cumprir o serviço militar obrigatório, tal como a maioria dos seus colegas israelitas. Ficou encarregue da vigilância de câmaras de segurança. A pacatez da zona que lhe foi atribuída significava que não teria muito trabalho. E foi nos turnos noturnos que, para passar o tempo, começou a dedicar-se à escrita.

O seu primeiro grande romance foi escrito na clandestinidade, entre as horas de trabalho e às escondidas dos pais, sobretudo por causa do material explícito que as páginas continham. Assim que concluiu a história, partilhou-a na Internet, em várias plataformas abertas a novos autores. Foi quando encontrou a Inkitt, editora digital que faz pré-publicação de romances e que usa o poder dos algoritmos para antecipar potenciais sucessos.

“Com base na nossa tecnologia patenteada, que analisa os dados das histórias publicadas na nossa comunidade — e que inclui o comportamento dos leitores, a frequência e a taxa de conclusão da leitura —, conseguimos ver sinais positivos de que ‘The Millennium Wolves’ estava a ser muito lida”, explica Ali Albazaz, o criador da Inkitt. Englard foi contactada por Albazaz e convidada a editar o romance em papel, mas outra oportunidade surgiu.

A Inkitt estava a preparar o lançamento da Galatea, uma nova aplicação de leitura imersiva, e chegaram à conclusão de que seria essa a plataforma ideal para publicar o livro. “Assim que publicámos o livro na Galatea, percebemos que ao fim de alguns meses, ‘The Millennium Wolves’ estava a vender mais do que o Harry Potter no mesmo período temporal”, nota Albazaz.

Do primeiro livro nasceriam outros seis capítulos — ou “temporadas”, como lhes chamam os responsáveis da aplicação —, estes escritos pela equipa de autores da Galatea, com a supervisão e input de Englard. Uma decisão editorial que poderá desagradar a potenciais autores.

“Ninguém questiona o porquê das suas sitcoms e dramas favoritos serem delineados numa sala por vários escritores”, nota Albazaz. “É um conceito que copiámos da televisão. E obviamente que temos que o explicar aos nossos autores. Fazer com que percebam que continuam a ter poder de veto e total controlo criativo sobre as suas histórias.”

Sapir Englard, no entanto, decidiu seguir outra paixão. Inscreveu-se numa escola de música israelita e hoje vive em Boston, onde estuda produção de música eletrónica no Berklee College of Music, inserida num programa de intercâmbio. Ao contrário da maioria dos colegas, a israelita vive confortavelmente com o salário mensal que advém dos direitos de publicação de “The Millenium Wolves”. Chegou a receber mais de 15 mil euros por mês.

Continua a ser a mais bem-sucedida autora da aplicação, onde tem um total de 14 títulos, entre romances mais longos e algumas histórias curtas — assinados por si, mas desenvolvidos pela equipa da Galatea.

“É muito gratificante receber dinheiro por algo que escrevi quando tinha 19 anos. Estava apenas a deixar a minha imaginação fluir — a diferença é que passei tudo para o papel”, diz. “Nunca pensei na escrita como uma potencial carreira. Toda a experiência tem sido do outro mundo. Ainda estou em choque.”

Apesar de já ter recebido vários convites para publicar noutros meios, continua a dar preferência à aplicação de leitura imersiva. “Conheço as pessoas, sei que recebo dinheiro por isso. Sobretudo no género em que escrevo, é o que faz mais sentido e funciona.”

Continua a estudar e a manter a ambição de criar música e bandas sonoras de filmes e séries. E sonha um dia poder criar os temas para eventuais adaptações de “The Millennium Wolves” à televisão ou cinema. “É esse o meu sonho.”

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT