Livros

Miúdo português publica o primeiro livro com apenas 9 anos

Dinis Capela escreveu uma história durante a pandemia, quando ainda tinha 8 anos, que foi agora editada.

Nos Estados Unidos da América, uma história sobre literatura e miúdos encantou o país no início deste mês de fevereiro. Um rapaz de oito anos criou um livro (com texto e ilustrações) e, numa visita à biblioteca local com a avó, escondeu a cópia numa estante. De repente, tornou-se um fenómeno: os bibliotecários catalogaram o livro, a história chegou à comunicação social, e até houve ofertas de editoras para publicarem a obra à séria.

Em Portugal, aconteceu uma história semelhante mas que já deu frutos editoriais. Um miúdo de dez anos — que celebra o seu aniversário precisamente esta segunda-feira, 14 de fevereiro — acaba de ver o seu primeiro livro publicado. Dinis Capela, de Barcelos, é o autor de “Ataque Eletrofantaz – e a Pedra do Poder”, que foi editado pela Flamingo. Está disponível por 10€ e pode ser comprado online.

Ilustrada por Tatiana Dolgova, esta história infanto-juvenil centra-se numa aventura de três amigos — Dinis, Pedro e Ângelo — que têm de enfrentar os Eletrofantaz. São “seres vindos da Internet, que eram apenas uma brincadeira, mas tornam-se reais atacando tudo e todos”, pode perceber-se pela sinopse divulgada.

“A ideia veio de brincadeiras minhas e dos meus amigos. Antigamente era um ataque de zombies, mas mudámos para ataque de Eletrofantaz. Anotava todas as brincadeiras num caderninho. Depois, na quarentena, os meus pais ensinaram-me a utilizar o computador e escrevi todos os textos do caderno no computador”, explica Dinis à NiT. Na altura, estava no segundo ano e tinha apenas oito anos.

O pai, João Capela, acrescenta que foi na altura que Dinis tinha aulas através do computador que “começou a desenvolver as pequenas historinhas que já tinha escrito à mão”. “Ficava ali uma ou duas horas a escrever e foi daí que surgiram estas aventuras.”

A ideia de tornar o que ia escrevendo em algo mais sério partiu do próprio Dinis. “Em janeiro de 2021, perguntou-nos: pai, como é que se pega nestas histórias e se transforma num livro verdadeiro? Expliquei que era através de uma editora. Passado uns minutos já tinha pesquisado no Google e encontrado a Flamingo. Ele que é que fez tudo — essa é a parte mais fascinante. O mais engraçado é que no site da Flamingo dizia que era preciso enviar o trabalho e uma autobiografia. E vem ele ter comigo: pai, o que é isto da autobiografia? Explicámos e passados 20 minutos tinha a autobiografia escrita, que é até a que aparece no livro. Enviámos o livro, sem acreditarmos muito e sem grandes expetativas, expliquei-lhe que seria pouco provável. Mas o que é certo é que passado algum tempo recebemos a resposta a dizer que queriam editar. Ficámos todos contentes.”

João Capela foi o primeiro da família a saber, uma vez que tinha sido ele a enviar o livro à editora por email. Uma ou duas semanas depois, chegou a resposta. “Contactei logo a minha esposa e disse: não vais acreditar, o Dinis conseguiu [risos]. E, depois, à noite [quando lhe contei], ficou todo emocionado. Ficámos todos.” Dinis confirma: “Fiquei muito feliz. Não estava à espera, mas acreditava que podia acontecer.”

“Ataque Eletrofantaz – e a Pedra do Poder” foi editado em meados de dezembro, quando Dinis tinha nove anos, mas a família Capela passou os últimos dois meses em sucessivos isolamentos provocados pela pandemia. Portanto, só agora estão a divulgar que o livro, que já está disponível para ser comprado. 

“Há pessoas que já nos perguntaram: mas foram vocês que escreveram? Não, foi mesmo o Dinis que escreveu a história toda. Fizemos algumas correções gramaticais, mas a história é 100 por cento dele. A editora também fez a sua revisão, mas foi tudo à base de erros gramaticais e de semântica. Veio mesmo tudo da cabeça dele”, explica João Capela.

Quanto ao processo criativo, Dinis diz que apenas tornou as brincadeiras com os amigos em histórias escritas. “Primeiro eram fantasmas laranjas. Depois dei-lhes o nome de Eletrofantaz, ou seja, fantasmas eletrónicos. Vêm da Internet e atacam através das televisões.”

O livro termina com um resumo da próxima aventura. Ou seja, Dinis nunca parou de escrever e tem já várias sequelas guardadas no computador dos pais. “A próxima história é sobre um homem que é do lado dos Eletrofantaz e que tenta matar pessoas”, adianta o autor. O pai explica que a editora ainda não está propriamente a par destas sequelas, por isso não está confirmado se também poderão ser editadas.

Certo é que já se começa a criar um culto à volta da saga. João Capela garante que todos os amigos de Dinis, desde a escola à catequese, passando pelo clube de futebol — Dinis joga nas camadas jovens do Gil Vicente —, ficaram extasiados.

“Um amigo, o Pedro, até já disse à mãe dele que também quer escrever um livro. Ele acaba por inspirar e é engraçado ver todos os amigos da escola, os colegas de futebol, da catequese, todos contentes a dar-lhe os parabéns. Há realmente um orgulho da parte dos amigos do Dinis. São pequeninos, até podiam não ligar muito, mas estão todos contentes.”

Os pais, claro, também não conseguem conter a emoção. João Capela tem uma escola de dança em Barcelos e a mãe de Dinis é enfermeira. “Sempre gostámos de ler, mas é realmente uma paixão do próprio Dinis, que nasceu com ele. Além de escrever gosta muito de ler. É um orgulho que não temos palavras para o conseguir descrever. É um feito que nem a maior parte dos adultos faz. Nós praticamente não acreditávamos: não lhe dizíamos que não, mas na realidade não acreditávamos que fosse possível, que uma editora fosse aceitar. Ele acreditava, escrevia e estava sempre a falar de ‘fazer em livro’, como ele dizia. É uma lição para todos nós: é possível seguirmos os nossos sonhos.”

Quanto ao futuro, Dinis Capela parece estar comprometido com a continuação da saga de “Eletrofantaz”, independentemente de os próximos capítulos serem ou não editados. E já sabe muito bem o que quer ser quando for grande: “escritor, ator, realizador, duplo e futebolista”. 

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