Mário Zambujal, jornalista veterano e escritor que elevou o humor à categoria de arte literária, morreu esta quinta-feira, 12 de março, poucos dias após ter celebrado o seu 90.º aniversário. A notícia, avançada pela RTP, marca o fim de uma era na cultura e no jornalismo em Portugal. Até ao momento, não foram divulgados detalhes sobre a causa do óbito.
Conhecido pela sua bonomia e por um domínio exímio da língua portuguesa, Zambujal deixa um legado indelével marcado pelo humor fino, pela bonomia e por uma capacidade única de observar o que o rodeava.
Nascido em Moura, distrito de Beja, em 1936, Zambujal iniciou o seu percurso na escrita muito cedo; com a publicação do seu primeiro conto aos 15 anos no semanário “Os Ridículos”. Durante a sua carreira no jornalismo, passou por redações como “A Bola”, “Diário de Lisboa” e “Record”. Foi chefe de redação dos jornais “O Século” e “Diário de Notícias”, além de ter dirigido títulos como o “Mundo Desportivo”, “Tal & Qual” e a revista “Se7e”.
Na televisão, tornou-se um rosto familiar dos portugueses através da RTP, onde apresentou o programa “Grande Encontro” e foi subdiretor do Canal 2. Na Rádio Comercial, a sua voz fez-se ouvir em formatos históricos como o “Pão com Manteiga”, considerado um dos marcos do humor radiofónico em Portugal.
Embora fosse um jornalista de renome, foi a literatura que o imortalizou junto do grande público. Em 1980, publicou ”Crónica dos Bons Malandros”, um romance policial humorístico que detalha o plano audacioso de uma quadrilha para assaltar o Museu Gulbenkian. Os meliantes, “cansados de pequenos golpes”, planeiam o “roubo do século” para mudar de vida.
O livro que deu a conhecer ”o submundo de Lisboa com ironia e ternura” foi um sucesso estrondoso e a história saltou das páginas para o cinema (pela mão de Fernando Lopes, em 1984) e, mais recentemente, para a televisão.
A série da RTP1 estreou em dezembro de 2020 e continua disponível na plataforma de streaming RTP Play. Composta por 8 episódios, conta com realização de Jorge Paixão da Costa e um elenco de luxo, com nomes como Marco Delgado (que dá vida a Renato, o líder da quadrilha), Maria João Bastos (Marlene), Rui Unas (Arnaldo Figueiredo, o “Doutor”), José Raposo (Bala), Isabel Ruth (Lina), Manuel Marques (Pirata), Adriano Carvalho (Flávio) e Joana Pais de Brito (Adelaide).
Zambujal era frequentemente descrito como um “gentleman das letras”. A sua escrita evitava o sarcasmo gratuito, recorrendo ao humor baseado na observação que celebrava as idiossincrasias dos portugueses. Como o próprio dizia, a sua “craveira” (palavra que gostava de usar para definir a qualidade de alguém) era medida pela capacidade de arrancar um sorriso sem nunca perder a elegância.
Autor prolífico, além dos “Bons Malandros” publicou mais de uma dezena de livros, incluindo “Histórias do Fim da Rua” (1983), “À Noite Logo se Vê” (2010), “Dano Próprio“ (2011), “Serpentes e Lagartos“ (2012), “Tal Pai, Tal Nó” (2014), “Rodamoinho” (2016), “A Cavalo Dado“ (2018) ou ”Longe do Mar” (2019), mantendo-se ativo e lúcido até ao final da vida. A sua obra mais recente, “O Último a Sair”, foi lançada em dezembro de 2025, prova que o seu entusiasmo pela ficção permanecia intacto, mesmo perto dos 90 anos.
“Escrevo para as pessoas se divertirem, mas levo o divertimento muito a sério”, era a máxima que gostava de usar para resumir a sua dedicação ao “ofício de entreter com inteligência”.

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