Livros

“Nem nos meus sonhos mais loucos imaginei que o livro tivesse este impacto”

Entrevistámos Irene Vallejo, autora de “O Infinito num Junco”, que se tornou um bestseller durante a pandemia.
Irene Vallejo na Fundação José Saramago.

Durante muitos anos, Irene Vallejo foi uma desconhecia para a maior parte dos espanhóis. A autora natural de Saragoça era apenas conhecida num determinado circuito académico, pelos artigos que publicava em jornais e por alguns leitores que compravam os seus livros de ficção. 

Tudo mudou, inesperadamente, com “O Infinito num Junco”. Editado no nosso País em outubro de 2020, foi o livro mais vendido em Espanha durante a pandemia. Foi reeditado múltiplas vezes, ganhou prémios importantes, foi elogiado por escritores conceituados e por críticos literários.

“O Infinito num Junco”, que em Portugal foi lançado pela Bertrand (está à venda por 19,90€), é uma obra experimental. É uma história sobre a origem dos livros, sobre a mitologia em torno da escrita e da literatura, é um ensaio. A grande diferença em relação a outros trabalhos que se debruçaram sobre este tema não está no conteúdo, mas na forma.

O volume foi escrito com recurso a técnicas cativantes de ficção. Irene Vallejo pegou no conhecimento que acumulou na investigação académica, simplificou-o e embelezou-o. Mas também o embrulhou noutros elementos. O resultado é uma prosa que cruza mitos e personagens históricas, literatura e memórias pessoais da autora, pequenas narrativas que contam uma grande história. 

O sucesso de “O Infinito num Junco” mudou completamente a vida de Vallejo, que aos 42 anos é agora uma autora consagrada e requisitada para inúmeros projetos. Exemplo disso é que a NiT se encontrou com a escritora espanhola em Lisboa, na Fundação José Saramago, a propósito do início das celebrações do centenário do único português que foi Prémio Nobel da Literatura. 

Enquanto leitora, qual é a sua relação com José Saramago?
Li Saramago ao longo dos anos e o primeiro foi “História do Cerco de Lisboa”, que me impressionou muito. Mais do que a história, é uma reflexão sobre a enorme diferença entre escolher uma palavra ou outra. Pareceu-me uma metáfora bonita para o meu próprio trabalho, sobre as palavras, a literatura, a linguagem. Depois li muitos outros. O último foi “As Pequenas Memórias”. Emocionou-me porque descobri que Saramago não estava realmente destinado a ser escritor. Nem sequer leitor. Em sua casa não havia livros, pertencia a uma família muito humilde. A sua história fala do poder transformador das palavras. A literatura transformou a vida do José e ele transformou a vida de todos nós. Enquanto apaixonada pelo mundo clássico e pela mitologia, creio que Saramago conseguiu criar mitos e alegorias muito poderosas no mundo contemporâneo. Têm capacidade de explicar o mundo e vão continuar a fazê-lo, vão perdurar. O poder do mito é precisamente o de não estar ligado ao momento. Explica a realidade, reflete-a de uma maneira verdadeira, para sempre. Os livros dele explicam e exploram o nosso mundo de uma maneira essencial, simbólica e emocionante. Além disso, para a minha geração, Saramago foi uma referência moral. Olhou para a globalização e para a realidade em que vivemos com um ponto de vista preciso. É um dos intelectuais comprometidos com o mundo, a sociedade, a pobreza, as desigualdades. E não mudou ao longo de todo o seu trajeto.

Tem um livro favorito de José Saramago?
É difícil escolher [risos]. Mas talvez “História do Cerco de Lisboa”, que até me foi recomendado por uma pessoa muito próxima. Mas são tantos, tantos. Escreveu muitos grandes livros. Não há muitos escritores que o tenham feito.

Em que fase da sua vida leu “História do Cerco de Lisboa”?
Coincidiu com a altura em que estava a começar a escrever o meu primeiro livro, sentia todas as inseguranças do início. E essa obra tem esperança. O protagonista é muito humilde, sem pretensões. Parece dizer-nos que todos temos uma narrativa. Que as pessoas mais anónimas e inesperadas têm uma história. E isso, enquanto escritora, deu-me alento.

Irene Vallejo, de 42 anos, na livraria Bertrand do Chiado.

Falando do seu livro “O Infinito num Junco”: pensou escrevê-lo tal como foi publicado, desde o início?
Ao longo dos anos, tinha investigado — quando trabalhei na universidade e fiz o doutoramento — sobre a história dos livros. Porque sempre me intrigou como tinha sido o início. Os primeiros livros. A transição da oralidade para a escrita. Como transformou a maneira de falar, de pensar, de transmitir o conhecimento. Como transformou o mundo inteiro. E quando começaram as mulheres a escrever? Em sociedades que eram muito hostis à criação e à palavra feminina. Tudo isso já tinha sido objeto de estudo. Mas estava escrito num estilo académico, que era o exigido pela universidade. Depois, passei pelo jornalismo, onde aprendi imenso.  Aí o objetivo é explicar ideias muito complexas a todos os tipos de público.

É estilo de escrita bastante diferente do que se lê nos textos académicos.
Tens que te esforçar para tornar a informação clara. Na universidade escreves para outros especialistas. Num jornal ou revista escreves para todos. E és tu que tens de deixar o público interessado. Aprendi sobre muitos assuntos, a entrevistar pessoas, a preparar-me sobre temas que não domino. Esses anos serviram-me de formação. Depois, comecei a escrever ficção, literatura infantil e juvenil. Queria fazer um livro que condensasse tudo o que tinha aprendido em cada uma dessas etapas. Juntar o que tinha estudado na universidade com o que tinha aprendido no jornalismo — e que pudesse interessar a um público amplo. Queria usar algumas ferramentas da ficção — as descrições de paisagem, o suspense, a ideia de que há muitas narrativas nesta história, jogos, transições entre registos… “O Infinito num Junco” é experimental. Contar o que aprendi como investigadora de forma literária para que todo o tipo de público sinta curiosidade para saber conhecer o passado destes objetos que hoje nos parecem quotidianos e normais, mas que na realidade são o resultado de uma larguíssima história de descobrimentos, aventura, perigos, censura, perseguições, invenções, transformações… Parecia-me que se podia contar isto num grande relato narrativo, um ensaio de aventuras.

Foi fácil pensar nos limites da experimentação?
Esse era o desafio: jogar com esses limites, explorá-los e ver até onde podia ir. O livro tem muitos ingredientes. Há partes autobiográficas, memórias da minha vida relacionadas com a literatura. Ou com a oralidade da minha mãe. Tem viagens. Aventuras, personagens. O objetivo a que me propus foi contar a história do livro como se fossem “As Mil e Uma Noites”. Um relato que se intersecta com outro, que entra, que sai, que interrompe… O mais difícil foi a estrutura. Também me interessava explorar as filósofas, poetas e escritoras na antiguidade. Porque quando estudei filologia clássica as autoras não estavam em lado nenhum. Safo era a exceção. E perguntava-me: o que lhes acontecia? Estavam realmente fechadas e não podiam [escrever]? Quando percebi que havia mulheres filósofas, que escreviam discursos políticos, que o primeiro texto assinado da história foi escrito por uma mulher, pensei: isto são dados interessantes para um grande público. Podem mudar a nossa imagem do passado, e reivindicar a transmissão do conhecimento, a memória e a criação artística do género feminino. 

Esperava que o livro fosse tão bem recebido?
Absolutamente não — pensei que iria ter um grupo de leitores reduzido. Diz-se sempre que o público de um ensaio é pequeno mas fiel. Esperava chegar a esse conjunto, mas não supus que o livro pudesse interessar a tanta gente. Muitas pessoas disseram-me que foi a primeira obra deste tipo que leram na vida. O que é muito emocionante, porque significa que alguém lhes disse: este é diferente, mais cativante — não tenhas medo. Às vezes parece que o ensaio intimida. E se não houvesse muita gente a recomendá-lo, isto não tinha acontecido. Este livro encontrou leitores muito generosos, isso foi o mais assombroso [risos].

“O Infinito num Junco” tem mais de 450 páginas.

Aconteceu de forma muito orgânica.
Sim. Em Espanha foi editado por uma editora independente, que não tinha capacidade para uma grande campanha de marketing. Não esperava esta reação. Surpreendeu-nos a todos: a mim, à minha família e amigos. Não me passava pela cabeça, nem nos meus sonhos mais loucos [risos]. Trabalhava numa esfera muito pequena e local, não tinha ligações ao mundo literário espanhol. Passei anos a meter livros no porta-bagagens do carro e ir a bibliotecas rurais, institutos e clubes de leitura para vender as minhas publicações às pessoas. Era como se fosse uma escritora ambulante, um bardo, a vender a minha mercadoria — que são palavras. Nos primeiros meses, não parecia que fosse ter muito impacto. E quando chegou a pandemia, pensámos que estava tudo acabado. As livrarias tinham encerrado. Mas, surpreendentemente, foi mesmo durante os confinamentos…

A pandemia acabou por estimular a leitura?
Possivelmente porque as pessoas tinham mais tempo para ler. Discutiam o livro nas redes sociais, as livrarias organizaram-se para o ir entregar em casa… Foi um fenómeno muito espontâneo. E muito generoso. Não tinham nenhuma razão imediata para escolher este trabalho [e não outro]. Quase que criou uma comunidade de leitores que adoram a palavra escrita, os livros, as humanidades. Escrevi-o num momento muito difícil, com um filho internado no hospital e a passar muito tempo ao seu lado. Escrevi porque pensava que era, de alguma maneira, o meu adeus à literatura. Com um miúdo doente, não ia conseguir escrever durante muito mais tempo. Pense: se é o meu último livro, quero que seja um agradecimento a tudo o que recebi da literatura. E, curiosamente, muitas pessoas o leram em situações parecidas: internados, ou com medo, preocupados com os entes queridos. Não sei se isso tem alguma relação. Se se relacionaram com aquelas emoções, que não estão descritas no livro, mas de alguma forma podem ter-se feito sentir. 

Com o sucesso do livro, sente que reforçou o interesse pela antiguidade clássica e pela literatura?
Far-me-ia muito feliz… Se fomentasse o interesse e respeito pelas disciplinas humanísticas, pela filosofia, história, literatura, o latim. Quando era miúda, o meu pai contava-me os mitos da Grécia antes de ir dormir — apaixonei-me por esse mundo antigo e pela cultura europeia. Sempre me perguntaram: porque estudas latim e grego? Isso não serve para nada, não vais conseguir trabalhar, não irás a lado nenhum. Ouvi essa mensagem constantemente, martirizavam-me com essa ameaça. E o que se passou foi uma das ironias da vida: a coisa mais incrível que me aconteceu foi graças a ter estudado latim e grego.  Penso que isto tem uma ligação a José Saramago. Ao facto de ser importante pensarmos no presente, de não nos deixarmos enganar pelos slogans, pelas ideias simplificadas e olhar o mundo com uma consciência ética. Que, no fundo, é filosofia. A filosofia de cada um nas nossas vidas. 

Que planeia escrever depois de “O Infinito num Junco”?
A verdade é que a promoção do livro está a ser tão exigente… Surgiram muitas traduções, na Europa e fora, e vão nascer 30 edições noutros idiomas. Vou ter viagens, entrevistas, conferências, feiras do livro, clubes de leitura… E também tenho muitas colaborações com jornais. Isso mantém-me muito ocupada, esta presença pública que antes não tinha. Agora muita gente me considera porta-voz das humanidades. Isso tem-me absorvido imenso. Tenho ideias, gostava de escrever ficção e ensaios, não ter que escolher. Tenho uma ideia para uma coisa e outra para outra. Estou a tomar notas, a ler, e a ver qual das duas se apodera de mim e se converte no meu próximo projeto. Mas esta parte internacional é tão bonita, inesperada e emocionante. Poder encontrar-me com leitores de todo o mundo graças ao prodígio que é a tradução. É algo a que nunca me tinha atrevido a imaginar. E sinto que tenho obrigação de desfrutar das coisas e aproveitar o máximo possível.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT