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New Talent: Ana Cláudia Santos, a jovem poetisa que quer dar palco aos poetas

Apaixonada por Mário de Sá-Carneiro, a jovem de 25 anos quer mudar o mundo aos bocadinhos e em cada estrofe.
Mário de Sá-Carneiro é uma das suas inspirações (Foto: David Sineiro)

Chegou a Lisboa com poemas nos bolsos e vontade de declamá-los para quem os quisesse ouvir. Encontrou apenas rejeição. “Diziam para ir noutro dia. Outros que não fazia sentido. Pediam que enviasse textos e depois nunca dava.” Ana Cláudia Santos fartou-se e criou a L.U.A., um projeto que organiza sessões de poesia, música e exposições de arte.

Tudo começou em Benavente, onde nasceu há 25 anos e começou por se apaixonar pela escrita. Primeiro através dos livros de “Harry Potter”, depois mais a sério entre as palavras das suas duas maiores influências, Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro.

Hoje é uma das finalistas da terceira edição do New Talent, o concurso promovido pela NiT, TVI e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que elege os melhores jovens talentos de Portugal na área do lifestyle — e cujo vencedor irá receber 10 mil euros para desenvolver um projeto pessoal ao longo do próximo ano.

Além de viver numa cidade pequena, Ana assume que sempre foi “muito tímida”, o que a levava a passar demasiado tempo sozinha. Foi nesses espaços de silêncio que começou a escrever. “Passava muito tempo a pensar sobre o que é a vida, Deus, tudo. Escrever levou-me a exteriorizar esses pensamentos”, conta à NiT.

Foram também esses temas que a levaram, quando tinha 16 anos, a apaixonar-se pela obra de Mário de Sá-Carneiro, um dos nomes fortes da geração de Orpheu. “Ele fala muito sobre o mistério, o mistério da vida. Essa sensação de descoberta, de procura da verdade, foi o que me influenciou a escrever os meus poemas”, nota. “Há até quem diga que tenho muito de Sá-Carneiro e de Pessoa nos meus poemas, mas é normal porque foram eles que me influenciaram.

Os primeiros poemas foram escritos quando tinha apenas 14 anos. Foi nela que percebeu que era a melhor forma de se expressar. Até porque, sublinha, nunca teve grandes notas a gramática. “Na poesia sou livre (…) o fluxo de pensamentos traduz-se de uma forma mais poética do que no estilo mais perfeito e certinho da narrativa. Acho que o processo de passagem foi natural”, explica.

Criou um projeto que organiza sessões de poesia (Foto: Poemacto)

Quando todos esperavam que fosse médica, engenheira ou enfermeira, Ana contrariou as opiniões à sua volta. E frisou que nunca pensara em nada que não estivesse ligado à literatura. Foi aliás com o apoio da professora de português do 12.º ano que cimentou a certeza do que queria seguir no ensino superior.

“Dediquei-lhe o meu primeiro livro porque acreditava em mim. Dizia-me sempre que eu ia conseguir. E quando isso acontece, começamos também a acreditar em nós próprios.”

Viajou para Lisboa e inscreveu-se no curso de Escrita Literária, altura em que também começou a organizar as sessões de poesia L.U.A.. A primeira aconteceu em 2017 no Eka Palace e Ana era a única com subida garantida ao palco. “Foi um tiro no escuro”, recorda.

Apesar do temor, outros arriscaram declamar poesia. E houve também espaço para música e uma exposição de arte. Desde então organizou mais seis eventos do género, sempre em locais diferentes, das Caldas da Rainha a Coimbra.

A aventura nas sessões de poesia fizeram-na perceber que era esse o caminho que queria seguir. Para estar mais bem preparada, tirou um curso de Promoção e Marketing de Eventos.

“Trabalhei em algumas livrarias, gostei muito, mas passava muito pelo atendimento ao cliente. Eu queria ter experiências literárias, queria organizar eventos, queria viver da poesia.”

O projeto não é apenas uma forma de mostrar a sua poesia aos outros. É também o princípio de um formato que torne tudo mais justo. “Quero poder criar uma equipa, pagar às pessoas, pagar aos poetas. Quero mudar isso. A imagem que há é a de que o poeta declama e não recebe nada por isso. Isso tem que mudar porque o poeta também é um profissional.”

Tem 25 anos e é de Benavente (Foto: Joana César)

Quando lança os seus poemas, em livro ou em audiobooks, sai-lhe tudo do bolso. Um custo que suporta com a sua outra paixão e “pequeno negócio”. “Comecei a ler tarot há sete anos por brincadeira. Achei engraçado e aquilo batia quase sempre certo. Nos últimos quatro anos tenho feito disto um pequeno negócio e tem corrido bem”, conta.

No que toca a livros, 2018 foi o ano de estreia com o Poemas Místicos, lançado em formato digital. Foi uma forma de testar as águas para o que aí vem. Em 2020 começou a escrever Meia-Vida, uma edição independente que vai ser apresentada na Ler Devagar, na LX Factory, a 22 de janeiro. E claro, não seria uma apresentação sua sem uma sessão de poesia da L.U.A.. Como é habitual, Ana faz-se sempre acompanhar do músico e amigo Diogo Lourenço, que dá som de fundo aos poemas, com recurso a um sintetizador e uma guitarra.

Pelo caminho, ainda há uma votação e um concurso para ganhar. E caso seja a grande vencedora do New Talent, já tem destino marcado para os 10 mil euros de prémio.

“Quero desenvolver o projeto L.U.A. Porque temos cada vez mais poetas que merecem ser ouvidos. Como dinheiro poderia alugar um espaço, pagar aos poetas e investir em marketing e publicidade dos eventos”, conclui. “E também ajudar-me a pagar os custos, que fazer livros por conta própria é muito dispendioso.”

Veja o vídeo realizado por Ana Cláudia Santos para explicar porque é que merece vencer o concurso New Talent deste ano. A partir do dia 3 de dezembro já vai poder votar no seu finalista favorito.

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