Passaram quatro anos a trabalhar lado a lado numa grande editora, ambos como assistentes editoriais. Henrique Fernandes e Beatriz Morais iniciaram funções ao mesmo tempo e, ironicamente, também saíram em simultâneo: foram despedidos no mesmo dia devido a “problemas internos da empresa”, explica Henrique, de 33 anos, à NiT.
O choque foi grande, mas a frustração com o mercado editorial não era nova. “Sentíamo-nos cansados do mundo editorial no geral. Queríamos voltar a fazer livros que fossem nossos, do início ao fim, e recuperar o prazer de os fazer.” Foi dessa vontade de recomeçar que nasceu a Crosta, nova editora portuguesa, oficialmente registada desde fevereiro e com estreia a 27 de novembro.
O nome reflete o propósito. “É uma palavra com dupla valência”, sublinha Henrique. “Por um lado, é a superfície do planeta que habitamos e remete para a responsabilidade que sentimos em relação ao mundo. Por outro, é aquilo que surge numa hemorragia para tapar a ferida.”
A Crosta arrancou com um único título publicado, “O Cogumelo no Fim do Mundo”, da antropóloga norte-americana Anna Lowenhaupt Tsing. A escolha é tudo menos aleatória e resume bem a linha editorial da nova marca: “ciência que se lê como narrativa, investigação que cruza fronteiras disciplinares e ideias que mexem com o leitor”. “É uma antropóloga que trabalha de forma muito multidisciplinar. Lê-se como se fosse uma história, mas ela está a fazer ciência”, explica.
A obra nasce no matsutake, um cogumelo valioso que não pode ser cultivado em escala industrial e que apenas cresce em florestas devastadas. A autora transforma esse fenómeno numa reflexão mais ampla sobre as possibilidades de vida num mundo em colapso.
A linha editorial da Crosta foca-se em dois grandes eixos, a teoria contemporânea da ecologia e da estética. Embora a estética já esteja representada noutros grupos editoriais, Henrique acredita que a ecologia “ainda tem muito por dizer”.
O objetivo passa por introduzir em Portugal autores inéditos, considerados fundamentais para o contexto atual. Cada livro será tratado como um objeto artístico. A editora quer criar um catálogo visualmente coerente, com capas distintas e um designer diferente para cada título, em sintonia com os temas.
O livro inaugural está à venda no Instagram da Crosta e já chegou a várias livrarias independentes, com um preço de 22€. Para 2026, a editora tem mais três obras confirmadas. Os nomes e temas ainda não podem ser divulgados, mas Henrique garante que manterão e reforçarão a identidade da marca. “Queremos ter uma presença distinta no mercado editorial, com textos frescos, autores novos e uma imagem reconhecível e marcante”, afirma.

LET'S ROCK







