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Nuno Maulide: o super cientista sorridente que está a apaixonar os portugueses

Filho de dois médicos, um moçambicano e uma são tomense que fizeram de Portugal a sua casa, transformou-se numa estrela na Áustria. Leia a entrevista da NiT.
Nuno Maulide é uma das mentes mais brilhantes da ciência portuguesa

Nuno Maulide é um homem de opostos. É, ao mesmo tempo, uma das mentes brilhantes capazes de navegar pela complexidade da química orgânica e dono de uma simplicidade e eloquência desarmante. Talvez por isso, em 2019, foi eleito por um painel de jornalistas como o Cientista do Ano na Áustria, país onde vive há quase uma década.

O prémio, mais do que uma distinção pelos conhecimentos, é uma forma de reconhecer os méritos na comunicação entre investigadores e o público. E se há quem tenha capacidade de reduzir a distância que separa a complexa máquina científica e o interesse da sociedade, essa pessoa é Nuno Maulide.

Filho de dois médicos, um moçambicano e uma são tomense que fizeram de Portugal a sua casa, foi sempre um aluno brilhante sem necessitar de “castigos ou recompensas”. Foi essa a lição que recebeu dos pais: dar o seu melhor é a única coisa certa a fazer. E assim o faz há 42 anos.

Formou-se em Química no Instituto Superior Técnico, fez o doutoramento em Leuven, um pós-doutoramento em Stanford, na Califórnia; e passou pelo prestigiado Instituto Max Planck, antes de ser consagrado como professor catedrático na Universidade de Viena com apenas 33 anos, onde hoje lidera o seu próprio grupo de investigação. Entre prémios e distinções, continua a frisar que não é isso que o move, mas apenas a possibilidade de poder escolher fazer a investigação de que mais gosta.

Hoje vive na capital austríaca com a mulher farmacêutica e mantém alguns escapes, caso do piano, uma paixão antiga que teve que deixar para trás para poder perseguir a ciência. Não sem antes provocar algum medo nos pais, que já o imaginavam como “pianista de cabarés”.

A independência, o brilhantismo e a rebeldia fazem parte do seu ADN. Partilha o nome com um familiar conhecido, o seu tio já falecido Nuno Xavier Dias, o homem que declarou a independência de São Tomé e Príncipe e foi presidente da sua primeira assembleia constituinte. E tal como os seus pais, deixou a casa para trás para cumprir as suas ambições.

Nuno quer simplificar e descomplicar a química

Assume também o gosto e a queda para o ensino, para simplificar aquilo que pode ser, à primeira vista, altamente complexo. Fá-lo da mesma forma entre os alunos de doutoramento e as pessoas comuns que possam pegar no seu primeiro livro, “Como Se Transforma Ar em Pão”, lançado em dezembro pela editora Planeta.

O livro, que vai para a terceira edição, tem sido um sucesso, sobretudo entre os professores de química, que têm enchido a caixa de correio de Nuno Maulide com agradecimentos. Isto depois de conseguir outro feito raro em Portugal: ser entrevistado por quase toda a imprensa, um destaque raramente dado a cientistas e investigadores.

É também esse o seu grande objetivo, convencer a sociedade a dar valor ao trabalho científico. Algo no qual, diz o próprio, Portugal é um caso de estudo, contrariamente ao que se possa pensar.

A sua história de vida tem muito do percurso dos seus pais, um moçambicano e uma são tomense que se mudaram para Portugal para tirarem o curso de medicina. Eles partilharam essa história consigo?
Vieram no final dos anos 50, início dos anos 60, para estudarem em Coimbra. Era hábito na altura, apesar de não fazer sentido nenhum. Eles contavam-me que quem fazia o ensino secundário, podia ficar nas colónias com um emprego bastante razoável. Era quase um preciosismo ir para a universidade, sobretudo quem vinha de famílias com recursos modestos como eles. Tiveram que juntar cada cêntimo para financiar a estadia destes dois overachievers, que o eram, simplesmente porque não tinham necessidade de irem para a faculdade para terem uma vida confortável.

De que forma é que a história dos seus pais, do seu percurso, também influenciou a sua?
É um paralelismo fácil de fazer. [O que eles fizeram] mostrou-me que a porta estava sempre aberta, mas também é mais fácil fazer algo que os nossos pais já fizeram do que ser completamente pioneiro. O meu nome é também uma homenagem ao meu tio Nuno Xavier [Dias, primeiro presidente da assembleia constituinte de São Tomé e Príncipe], que morreu antes de nascer. A minha mãe dava-se muito bem com ele, contava-me muitas histórias — aliás, foi ele que proclamou a independência do país. Lembro-me de irmos lá em viagem e de as pessoas sussurrarem porque eu tinha o mesmo nome, era como se fosse um fantasma.

É uma figura na qual se revê, apesar de nunca o ter conhecido?
A minha mãe contava-me histórias de ele ser uma pessoa muito para a frente, tinha uma solução para tudo. Uma pessoa cresce com estas histórias e imagina-se também protagonista de um filme. Acho que todos nós vivemos a nossa vida como um filme épico. E na minha cabeça, estava sempre tudo em aberto. Não havia nada que me prendesse em Portugal, tal como não há nada hoje que me prenda à Áustria.

Sente que há um filão de independência e rebeldia que percorre a família?
(risos) É bem possível que sim.

Essa busca pela excelência era imposta pelos seus pais? Ou era algo que se impunha a si próprio?
Acho que vem dos dois lados. Sem serem demasiado exigentes, lembro-me que o meu pai fazia os trabalhos de casa connosco [Nuno e os dois irmãos], pelo menos até ao oitavo ano. Ele estimulava a ideia de sermos o melhor possível, de termos a melhor nota possível, sem nunca nos castigar se correr mal, mas sem nunca dar prémio só porque temos um 100 por cento. Nunca funcionou numa ótica de recompensa ou de penalização. Era assim porque era a coisa certa a fazer. Tinha dois pais que sabiam que estavam disponíveis, que tinham a ideia do valor da educação superior e que queriam incutir-nos algo importante.

“Nunca fui recompensado ou penalizado pelas boas notas. Era assim porque era a coisa certa a fazer”

Nunca conseguiu ter uma recompensa?
A única que tive, estava já no [Instituto Superior] Técnico, foi espremida à minha mãe, que me dava 20 euros por cada 20 que tivesse. Tive um 19 a Química Orgânica 1 — uma nota miserável (risos) — e consegui finalmente o 20 na Química Orgânica 2. Cheguei a casa feliz porque podia pedir-lhe para pagar. Tinha conseguido finalmente um 20, algo que não é fácil em nenhuma faculdade, muito menos no IST. Já ao jantar, falava todo contente sobre a revisão de prova e mencionei que era um 19,5, foi rés vés porque se fosse menos, não daria o 20 [na pauta]. E a minha mãe deu conta: “O que é isso? Eu disse que dava o dinheiro a um 20, não a um 19,5, devolve o dinheiro.” (risos)

Também foi assim com os seus irmãos?
Sim. O mais velho estudou Matemática Aplicada e trabalha na IBM. A minha irmã tirou Relações Internacionais e depois Direito, trabalha no Parlamento. Safaram-se lindamente, mas ficaram ambos em Portugal. Eu fui o único a sair, mas quando se é mais novo é mais fácil fazer o que os outros não fizeram. Fui muito beneficiado e estimulado por eles. Aliás, agora que tenho dado estas entrevistas todas, há muita gente que me vê e liga para o meu irmão. Ele diz sempre: “Fomos nós que lhe ensinámos tudo”. (risos) E foram mesmo.

“No último ano [de curso] era monitor, dava aulas de química orgânica, mais a ginástica, mais o curso, mais as aulas de piano. Não me sobrava tempo para nada”

De que forma?
Lembro-me de crescer e brincar com eles. É muito bom para uma criança ser estimulada por crianças maiores, com mais dois e cinco anos de idade. Cresce-se de maneira diferente. Lembro-me de levar grandes abadas a jogar xadrez com o meu irmão, fazia cheque-mate em três jogadas. Depois comecei… como diz o outro? A necessidade é a mãe da invenção? Comecei a ler livros de xadrez, a aprender umas coisas, até que consegui fazer eu um cheque-mate. Ele disse logo que não jogava mais (risos).

Comentou em diversas ocasiões que, para chegar onde chegou com apenas 33 anos, teve que deixar de fazer muita coisa para ficar agarrado aos livros. Foi sempre assim?
Desde cedo que os meus pais nos puseram a todos na ginástica, talvez por serem sócios do Sporting. A minha irmã ainda hoje é ginasta lá, eu tive quase 20 anos de prática consecutiva. Houve até a possibilidade de entrar na competição, mas o meu pai disse que não, porque ia ocupar-me os dias todos. Ia sobrepor-se à escola e aos estudos. Olhando para trás, ele tinha razão. Não me sobrava muito tempo porque tinha sempre muitas atividades. Depois entrei no Instituto Gregoriano e com tantas atividades, o meu dia começava às oito da manhã e terminava às oito da noite.

E nunca abrandou?
Acabaria por aprender piano, mas deixei o curso para ir para a faculdade. Mas gostava tanto do piano que quis compensar o ter deixado a música e comecei a dar aulas no Sagrado Coração de Maria, do outro lado da rua do Técnico. Tinha perto de vinte alunos com aulas individuais, vinte aulas por semana. No último ano [de curso] era monitor, dava aulas de química orgânica, mais a ginástica, mais o curso, mais as aulas de piano. Não me sobrava tempo para nada. Só quando fui para o estrangeiro é que me senti realmente livre, foi uma das melhores sensações da minha vida.

O piano continua a ser um hobby

Teve finalmente o tempo livre que não sabia que queria ter?
Era triste não ter os meus alunos de piano, mas de repente tens todas estas horas disponíveis. Foi quando me vinguei um bocadinho e comecei a explorar outras partes da vida. Comecei a sair, a conviver, mas depois rapidamente acabei por substituir todas as horas de aulas com horas passadas no laboratório, assim que percebi que era uma coisa tão apaixonante. O doutoramento na Bélgica foi um dos momentos mais apaixonantes da minha vida.

Porquê?
Se fosse preciso, passava um sábado inteiro, de manhã à noite, no laboratório. Às 22 horas de um sábado ainda estava lá fechado. Na sexta seguinte, podia estar na borga mais profunda até às quatro da madrugada. Havia um equilíbrio, fazia muito daquilo de que gostava, mas sabia sempre qual era a altura certa para abrir a válvula de escape para não fritar o cérebro.

Há algo de que se arrependa de não ter feito?
Não. Nunca houve a sensação de me estar a privar de alguma coisa. Era sempre uma escolha minha. E a maior riqueza de qualquer ser humano hoje em dia é o poder dispor do seu tempo de forma completamente autónoma.

E hoje tem isso?
Confesso que a última vez que pude fazer isso foi nessa fase do doutoramento e em parte no pós-doutoramento. Estava em Stanford, na Califórnia, era pico do verão e como não tinham ar condicionado nos laboratórios, dei por mim a acordar às quatro da madrugada para ir trabalhar enquanto estava fresco. Chegava às cinco e às três ou quatro da tarde já tinha feito o equivalente a dois dias de trabalho, sobretudo porque o laboratório não estava cheio de gente a fazer-me perder tempo. Nesse bloco entre as cinco e as dez da manhã não estava lá ninguém, estudava com uma eficiência enorme. Os americanos viam-me sair a essa hora e olhavam para mim como se fosse maluco, um preguiçoso.

“Nos EUA ia para o laboratório às 5 da manhã. Às 15 ou 16 horas já tinha feito o equivalente a dois dias de trabalho”

Era estranho para eles?
Eles têm aquela ética, almoçam à frente do computador, ficam lá ate as dez da noite para mostrarem que trabalham muito. Isso sempre me fez muita confusão e ainda hoje digo aos meus alunos: cada um trabalha as horas que quer para ser eficiente. Se não forem eficientes, eu digo-lhes logo. Se forem, é me indiferente a hora a que vão para casa. [Em Stanford] toda a gente ia para o laboratório ao sábado só porque o chefe aparecia. Eu dizia que não. Já fazia o suficiente durante a semana, não precisava de ir ao sábado. Quando muito ia ao domingo à tarde. Isto fazia confusão a muitas pessoas.

Diria que se agarra às paixões de forma obsessiva?
Nunca vi nada como uma obsessão porque eu só fazia o que gostava de fazer. Mesmo no Técnico só ia a aulas de que gostava. Havia algumas em que nem punha os pés nas aulas. Uma delas foi Análise Matemática 3, devo ter ido a uma ou duas aulas. Achava aquilo complicado, o professor percebeu e cheguei a pegar-me com ele. Disse-lhe que aquilo não tinha interesse nenhum. Não voltei lá.

E a nota?
Fiz o exame. Tive 18. Fui à revisão de prova, ia sempre às revisões porque gostava de ver o que tinha feito mal, e o professor diz-me: “Ah, veio à revisão. Lembro-me bem de si”. Depois pegou no exame e o sangue esvaiu-se-lhe da cara. “Mas você teve um 18… Foi o melhor exame desta chamada…” (risos) E eu disse-lhe “pois pois, sabe, eu afinal mando umas quantas para a caixa”, e vim-me embora antes que ele mudasse de ideias. Sempre fiz o que gosto, só que quando gosto das coisas, gosto a sério, aplico-me e nem vejo o tempo a passar. Não sei se será uma obsessão. Também há coisas que faço mal, é natural que as pessoas se foquem no que faço bem, nos talentos, mas posso fazer uma longa lista de coisas que faço mal. Sou um ser humano como outro qualquer.

“Um caso extremo de sucesso, seja no futebol, música ou ciência, envolve muita sorte. E dizer isto não é pejorativo”

Houve uma obsessão que ficou por cumprir, o piano. É pianista amador, mas passou ao lado de uma carreira, não foi? Lembra-se como tudo aconteceu?
Lembro-me bem das aulas de música na escola primária. Tive uma sorte imensa. Estou a ler um livro que fala sobre isso, temos o hábito de olhar para casos extremos de sucesso e insucesso e procurar tirar deles lições. E e óbvio, para quem quer que pare para pensar, que um caso extremo de sucesso, seja ele no futebol, na música ou na ciência, que há ali muita sorte. E dizer isto não é pejorativo. É óbvio que o Cristiano Ronaldo trabalhou que se fartou, tem um talento enorme, mas também teve muita sorte.

Como assim?
O livro fala do Bill Gates. O Bill Gates é o Bill Gates, mas ele estudou na única escola nos EUA que tinha um computador. Por acaso do destino, naquela escola umas senhoras fizeram uma vaquinha com rifas e alguém decidiu que comprar um computador era uma boa ideia. Portanto, na única escola com acesso a um computador, estava lá o Bill Gates. Não é que o homem não seja um génio, mas as circunstâncias das vidas também explicam muita coisa. A sorte está sempre à volta de todos nós e algumas pessoas têm a sorte de a agarrar no momento certo.

Isso aconteceu consigo?
Se não tivesse a sorte de estudar nesta escola primária, porque é que os meus pais me poriam numa escola de música? Nunca o fariam, até porque fomos todos para a ginástica. Tive a sorte de encontrar a professora Lídia Penha Fortuna, que nos deu aulas de música de forma inovadora.

Que forma era essa?
Nunca nos disseram que íamos ter uma aula de música. Fomos para o recreio e quando voltámos à sala, no quadro estavam umas sequências de números. E eu, Nuno Maulide, armado em esperto, vi que os setes não tinham o risquinho habitual. Então peguei no giz, fui ao quadro e pus os traços em cada um. Fui sentar-me feliz da vida, porque alguém tinha que corrigir aquilo. Quando ela chegou, perguntou quem foi e eu levantei o braço. “No nosso método, os setes não têm tracinhos porque representam coisas adicionais. Levante-se e apague os tracinhos.” Se não fosse ela, nunca saberia que tinha aptidão para a música e nunca teria o percurso que tive.

Nuno Maulide tem 42 anos. É professor catedrático há nove

Hoje ainda toca, apesar de ter desistido do curso profissional.
Sim, ficou como hobby e dá-me muito prazer. Os meus pais tinham medo que eu seguisse a carreira e acabasse a tocar em cabarés (risos). Houve alguma tensão. Continuo a tocar, mas como amador.

Mas chegou a fazer parte do curso e a competir em concursos, anos mais tarde.
Sim. Estive na Escola Superior de Música, onde conheci a Tania Achot, pianista que faleceu esta semana. Tinha uma técnica implacável e uma exigência enorme, tão grande que transmitia uma imagem muito dura. Parecia que nos ia comer ao pequeno-almoço (risos). Lembro-me de fazer o último exame do primeiro ano, já estava numa de me ir embora. Fui à secretaria apresentar o pedido. Horas depois ligou-me a Tania Achot, a perguntar o que tinha acontecido e disse-me para ir a casa dela. Estive lá três ou quatro horas, tentou demover-me porque achava que eu tinha muito talento, que podia fazer carreira. Mas eu sou teimoso e quando tomo uma decisão, já não há volta a dar. Disse que ia pensar nisso para me libertar da situação. Vim embora e não voltei a falar com ela, até 16 anos mais tarde, quando quis competir num concurso de amadores de piano em Paris.

O que aconteceu?
Estava a preparar o reportório e percebi que me faltava algo. Lembrei-me de a contactar para ela me ouvir e dar umas dicas. Com o mesmo receio que tinha em 1997, e eu já era um homem de 33 anos, liguei-lhe e fui ter com ela ao estúdio. Toquei, deu-me imensos conselhos e confessei que tinha entrado com receio, pensei que a tinha desiludido ao desistir do curso. “O Nuno escolheu ser cientista profissional e pianista amador. O contrário não teria sido possível, por isso fez uma escolha muito boa”, respondeu-me. Era uma pessoa muito pragmática. Não voltei a falar com ela. No concurso fiquei em quarto lugar, mas acho que nunca lhe cheguei a dizer ou a agradecer.

“Ter objetivos fixos como quem quer ganhar o prémio Nobel..,.. E depois de o ganhar? O que é que acontece? Deve ser um vazio que não quero imaginar”

É nessa altura que, aos 33 anos, se consagra com professor catedrático da Universidade de Viena. Era uma coisa que idealizava há vários anos?
Vou ser muito sincero: é muito bom ganhar prémios, toda a gente gosta de tê-los, de ser reconhecido pelos pares. São uma consequência muito boa porque mostram que estamos no caminho certo, mas não podem ser um fim em si mesmo, porque se o forem… É um bocadinho como quem quer ganhar o prémio Nobel. E depois de o ganhar? O que é que acontece? Não é fácil ter objetivos fixos para uma carreira inteira e ter a sorte de os atingir. E depois? Deve ser um vazio que não quero imaginar.

Ou ter os objetivos e nunca os atingir…
Isso ainda é pior, a frustração… O que eu queria mesmo era poder fazer a investigação de que gosto com boas condições. Se isso implicava ser professor disto ou daquilo, diretor disto ou daquilo, isso era tudo secundário.

Faz investigação académica mas também tem projetos mais concretos de aplicação da química à vida real. Era o equilíbrio que queria?
Sinceramente, faço uma investigação por navegação à vista. Há pessoas que orientam as carreiras de investigação para resolver uma questão específica. Eu faço navegação à vista, investigo o que acho interessante e por isso não sei dizer onde é que estaremos daqui a cinco ou dez anos. De repente damos por nós a fazer coisas com mais aplicações práticas porque me fascina a ideia de como se desenvolve uma reação e como ela pode funcionar na escala de uma tonelada — ao contrário do que acontece no laboratório, onde fazemos à escala de gramas.

Fala muito do dever de devolver à sociedade o que a sociedade lhe dá em forma de fundos para as investigações. A melhor forma de o fazer é transportando as experiências de laboratório para o mundo real?
A melhor forma de devolver à sociedade não é necessariamente ir à procura das coisas práticas, mas mais a comunicação da ciência. Acho que aí há mais a ganhar. Claro que posso criar um processo que gere muito dinheiro e riqueza, criar uma empresa que crie postos de trabalho, mas se puder estimular uma pequena parte que seja da sociedade na apreciação pela ciência, pela química, pelo seu valor, se calhar até tem um alcance mais profundo do que trabalhar nas questões práticas.

O livro quer tornar a química mais acessível e divertida

Quem trabalha essa comunicação, trabalha para garantir que existe mais investimento e condições de trabalho para os cientistas e, no final de contas, para criar uma sociedade melhor?
É isso. E sobretudo para criar nos cidadãos que amanhã vão ter que tomar decisões, uma apreciação pelo valor do conhecimento científico no auxílio dessas decisões. Vemos isso hoje na questão das vacinas. Nas sociedades onde há uma apreciação grande pela ciência, há também uma grande taxa de vacinação. O nosso País é um exemplo lapidar que até deveria ser estudado mais em detalhe.

Porquê?
Saltámos do último lugar nos barómetros europeus de ciência, em 2010, para o primeiro lugar em 2020. Isto deveria ser alvo de um estudo aprofundado, porque nem de propósito, qual é o país com maior taxa de vacinação contra a covid? Nós. Acho que [a comunicação da ciência] é um tipo de serviço que não vale apenas pelo financiamento e investimento, mas por esta apreciação que as pessoas devem ter. Se eu perceber como funciona a ciência, olho para as coisas que saem dela de uma forma diferente. É um trabalho que nunca acaba e que pode dar muitos frutos.

Foi por isso que decidiu fazer o livro “Como se Transforma Ar em Pão”?
O livro surge depois de ter sido nomeado Cientista do Ano, que conduziu a várias entrevistas. Há uma que acontece no próprio dia, ao vivo e em direto na televisão nacional austríaca. Em alemão. Eles foram simpáticos e puseram legendas, porque o meu alemão está cheio de problemas gramaticais. O vídeo da entrevista teve 600 mil visualizações.

Porquê?
Porque eu entro no estúdio, converso com a senhora, mostro uns modelos moleculares e ela diz: “Você toca piano, nós temos aqui um piano.” E pede-me para tocar algo. Eu vou, sento-me ao piano e dou uma espécie de aula. “Vou vos tocar isto, vou vos explicar porque é que vou tocar isto, como tudo funciona. Tenho esta coisa na mão direita, outra na mão esquerda e tudo junto funciona assim, a lógica é assim e isto tem uma analogia interessante com a investigação.” E isto pelos vistos partiu a Internet e deu-me uma visibilidade enorme. Foi também dessa visibilidade que nasceu o convite para fazer o livro. Eu achava que não tinha nada a dizer, para escrever. Depois uma pessoa começa a falar e percebe que tem muito para dizer. Acho que temos todos muito para dizer e tínhamos muito a ganhar em darmos voz a mais pessoas. Foi o que aconteceu comigo. Este livro deu-me voz para falar do que acho que é a química e por que é que ela é tão fixe. “Vocês não sabem, mas isto da química é mesmo giro”, a mensagem do livro é essa.

Fá-lo através de analogias criativas, linguagem simples, algo que é uma raridade no habitual discurso científico, mais fechado, mais complexo. Tem um talento especial para simplificar as coisas?
Isso vem da minha enorme apetência para o ensino, seja para dar aulas de piano a crianças de cinco anos, a dar aulas de química orgânica a alunos de 20 ou a dar uma aula de doutoramento. Sem esta capacidade de encontrar analogias, o ensino é muito seco, árido. Uso as mesmas analogias no livro que uso nas minhas aulas na universidade. Há que manter as pessoas cativadas. É uma performance.

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