Livros

Os livros proibidos pela ditadura portuguesa estão expostos na Alemanha

As obras de vários autores nacionais foram colocados numa estrutura semelhante a uma cabine telefónica.
Estão aqui reunidos os livros que foram vítimas da censura.

A 10 de maio de 1933, os nazis queimaram mais de 20 mil livros na praça de Bebelplatz, em Berlim, a capital alemã. Agora, e até ao final de junho, poderá ver em Leipzig títulos de escritores portugueses censurados pela ditadura de Salazar e obras proibidas e queimadas pelo regime nazi.

Os livros proibidos de ambos os países estão expostos numa estrutura semelhante a uma cabine telefónica, acompanhada pela célebre frase de Heinrich Heine, poeta que também foi proibido durante a ditadura alemã: “Isto foi apenas um prelúdio — onde se queimam livros, acabarão por se queimar também pessoas.” E tinha razão. Durante o regime nazi, milhões de judeus, ciganos, eslavos, portadores de deficiência e opositores políticos foram assassinados.

Na praça de Bebelplatz, a “cabine” ficou mesmo ao pé de uma estrutura também com bastante valor simbólico na literatura: o memorial do artista israelita Micha Ulman. Inaugurado em 1995, consiste numa biblioteca subterrânea, cujas estantes vazias se podem ver através de um vidro sob o chão da Bebelplatz.

Perto deste poeta na exposição, podemos encontrar também Nelly Sachs — uma poetisa judia que recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1966 —; Alfred Döblin, que escreveu o romance “Berlin Alexanderplatz”, que foi adaptado aos cinemas em 2020; Bertolt Brecht, dramaturgo e poeta; a ficcionista judia Anna Seghers; Erich Kästner, autor do famoso livro infanto-juvenil “Emílio e os Detectives”, entre muitos outros autores alemães ostracizados pelo regime de Hitler.

Da literatura portuguesa estão expostas obras de autores como Vergílio Ferreira, Natália Correia, Judith Teixeira, José Cardoso Pires, Herberto Helder e as “três Marias” — Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno —, autoras das “Novas Cartas Portuguesas”.

Originalmente, esta mostra iria acompanhar a Feira do Livro de Leipzig, que acabou por ser adiada para 2022. Foi agora inaugurada no contexto da programação cultural da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia. Após a sua passagem pela praça de Bebelplatz, a instalação, co-promovida pela Embaixada de Portugal na Alemanha e pelo Instituto Camões em Berlim, vai ter uma nova casa no pátio exterior da biblioteca nacional alemã, em Leipzig, até 30 de junho.

O Instituto Camões em Berlim diz que a iniciativa convoca “dois momentos do século XX, da história da Alemanha e da história de Portugal”. Enquanto na Alemanha se queimavam livros, em Portugal instaurava-se o Estado Novo, graças à Constituição de 1933, dando início à censura que se viveu depois no País.

Embora a Feira do Livro de Leipzig não tenha acontecido em 2021, no próximo ano, Portugal marcará presença no evento cujo mote é “O Encontro Inesperado do Diverso”. O comunicado do Instituto Camões em Berlim destaca ainda o papel da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol, que como o seu livro “Lisboaleipzig” estabeleceu uma ligação entre os dois países, ao mesmo tempo que uniu Fernando Pessoa e o compositor Johann Bach.

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