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Poeta da Cidade: o português que se tornou um fenómeno no TikTok a dizer poesia

Com 24 anos, Pedro Freitas lançou este ano o primeiro livro, inspirado na sua antiga relação. Está a ser um sucesso.
Pedro Freitas tem 24 anos.

Chama-se Pedro Freitas, mas nas redes sociais é mais conhecido como o Poeta da Cidade. O escritor e diseur de poesia de apenas 24 anos é um fenómeno digital. Tem mais de 130 mil seguidores no TikTok, e outros tantos noutras plataformas. Partilha poemas, escritos e ditos, incentivando à literatura. Este ano lançou o seu primeiro livro, “Ela – Metafisicamente d’outro Mundo”, que tem sido um sucesso de vendas. Mas já lá vamos.

Para Pedro Freitas, tudo começou quando uma prima lhe ofereceu o álbum “Pratica(mente)”, de Sam The Kid, quando estava no quarto ou quinto ano de escola. Os textos poéticos recitados no disco pelo pai do rapper, Napoleão Mira, fizeram com que aliasse o gosto pela escrita (que já tinha, uma vez que escrevia versos para a mãe ou namoradas da altura) ao da palavra dita.

“Esse álbum foi o ponto de viragem para aquilo que hoje se passa na minha vida, e principalmente o facto de eu ter seguido o ‘dizer poesia’. As faixas que o Napoleão Mira tem nesse álbum influenciaram-me e motivaram-me muito. A partir daí comecei a colocar mais esforço e dedicação na escrita e no dizer poesia”, explica Pedro Freitas à NiT.

Natural de Lisboa, cresceu em Loures. A mãe é educadora de infância, o pai polícia. Sempre tiveram hábitos de leitura normais, não sendo leitores ávidos mas também não completos desinteressados. Tal como a maioria dos amigos de Pedro, preferiam ler romances. Pedro sempre optou pelos poemas.

Em 2014, aos 16 anos, dá o seu primeiro passo mais à séria. Após ver um cartaz na escola, decide inscrever-se no concurso de leitura Dá Voz à Letra, da Fundação Calouste Gulbenkian. Participa, chega à final e, embora não vença, conhece a vice-diretora do programa de línguas da fundação, que o convida para outros eventos idênticos nos tempos que se seguem. “Motivaram muito a minha profissionalização do dizer poesia”, explica. Em 2016, já era pago para atuar.

Começou por recitar poemas de outros autores, mas não demorou muito até apresentar os próprios textos. Já em 2017, participou no “Got Talent Portugal” a dizer poesia, conquistando alguma visibilidade. Passou na audição e chegou às galas ao vivo. No mesmo ano, começou a apostar nas redes sociais.

@poetadacidade

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♬ som original – Pedro Freitas

A plataforma onde encontrou mais sucesso foi mesmo no TikTok. Iniciou-se a dizer poemas em vídeos curtos em janeiro de 2020. Logo a seguir começou a pandemia e, com grande parte do mundo fechada em casa, a rede social beneficiou de um enorme crescimento no número de utilizadores. 

Desde então, o Poeta da Cidade tem acumulado fãs de forma gradual — sem haver nenhum vídeo específico que se tenha tornado viral e catapultado a sua conta. “É uma daquelas coisas que uma pessoa não sabe muito bem explicar. Os astros alinharam-se e a verdade é que o pessoal começou a aderir. Tenho sido muito feliz aí.”

Em paralelo, desde 2014 que começou a escrever os poemas que haviam de resultar no seu livro. Foi com essa idade que começou uma relação amorosa que iria inspirar os seus textos. “Na altura, tinha prometido à pessoa em questão que lhe escreveria um livro. E o livro que publiquei em janeiro deste ano foi exatamente essa viagem desde 2014 a 2021, essa visão do amor à medida que o ia sentindo ao longo dos anos. Portanto, é um livro que podemos dizer que encapsula uma aprendizagem e um crescimento de seis anos. E são dos mais fulcrais na vida de qualquer pessoa, que é a adolescência e o início da vida adulta.”

Sempre teve a ideia de escrever um livro ao compilar estes poemas. Mas pensava que seria um objeto íntimo e pessoal. “O livro esteve sempre na minha cabeça, mas não na perspetiva de vender. Até porque eu tinha feito, em 2015 ou 2016, um pequeno protótipo, um livro mais pequeno, exatamente com este mesmo título, só para ver como é que as coisas estavam. E, portanto, ao longo destes seis anos, nunca pensei que eventualmente quando acabasse o livro ia pô-lo à venda. Foi sempre uma questão de ‘eu hei-de acabar o livro, sim, e vou oferecê-lo à pessoa em questão e vou ficar com uma cópia para mim’, mas nunca houve esse fim de ‘estou a fazer isto porque quero vender, porque quero ter um livro e que as pessoas me leiam’. Nunca foi esse o verdadeiro motivo que me levou a escrever.”

Contudo, acabou por mudar de ideias e determinou-se a publicar “Ela — Metafisicamente d’outro Mundo”. “Eventualmente a relação acabou e eu finalizei o livro uns meses depois. E quando tinha o documento feito, apercebi-me de que aquilo poderia ter valor para outras pessoas. Acreditava, e acredito, que a minha visão, e o exercício escrito que tentei que fosse o livro, fosse a articulação de um amor que sempre senti ser maior do que eu próprio. Senti que esse esforço estava bem espelhado naquilo que tinha escrito e que podia ser de valor para quem me achasse digno de ser lido.”

Começou então a pensar na edição. Já tinha tido alguns contactos com editoras no passado, com quem tinha falado na altura de “Got Talent”, mas Pedro Freitas conhece o mercado editorial e sabia que não seria fácil ter uma oportunidade para um livro de poesia. “O que me disseram foi o que todas as editoras dizem: que a poesia não compensa monetariamente para uma editora. Que as tiragens são pequenas, o livro de poesia dá prestígio mas não é necessariamente um fim monetário para a editora…”

Acabou por fazer tudo de forma independente. “Também queria provar que conseguia vender sem a máquina toda de uma editora por trás. Queria talvez algo mais orgânico e menos institucional.” Apesar de não ter dados oficiais, é bem possível que “Ela — Metafisicamente d’outro Mundo” seja o livro de poesia português mais vendido do ano. 

Pedro Freitas já fez duas edições e prepara uma terceira. No total, vendeu quase 1600 cópias, sem contar com os eBooks, o que são números grandes para uma edição de poesia em Portugal — que costuma ter uma tiragem bastante menor quando enquadrada numa editora. Ainda existem alguns exemplares à venda por 17,95€.

Perguntamos-lhe se estava à espera deste impacto. “Sinceramente, não posso dizer que não estava. Não a este ponto dos 1600 livros vendidos, mas sabia bem o trabalho que tinha vindo a fazer ao longo destes anos. A marca que tinha andado a criar desde 2017 como um diseur de poesia, um escritor, alguém que se interessa por cultura e pela literatura e que tentou levar-se a sério nesse mundo…”. Afinal, o Poeta da Cidade já tinha bastantes seguidores.

“Quando decidi fazer a pré-venda do livro em dezembro de 2021, perguntei a meia dúzia de amigos quantos livros ia vender nas primeiras 24 horas. E todos me disseram ‘uns 10 ou 15’. ‘Mas com família conta? Ah, uns 20’. E eu pensei: ‘acho que preciso de amigos novos’ [risos], porque se só vendesse isso ia ficar muito triste. E nas primeiras 24 horas vendi 100 e tal livros. Continuei essa pré-venda durante um mês e tal, o que me possibilitou o financiamento da impressão, que é a parte mais cara de todo o processo. E depois foi uma bola de neve até àquilo que tenho hoje.”

A partir do livro, construiu uma performance em registo de spoken-word. Até agora só foi apresentada uma vez, no festival Poesia à Mesa, em São João da Madeira, onde conseguiu esgotar uma sala de 100 pessoas. “É um espetáculo poético-musical em que tento sair um pouco daquilo que as pessoas estão habituadas quando vão ver um espetáculo de poesia — aquela coisa de o performer ter os textos à frente e os ler, com ou sem música. Tentei adaptar isso a uma realidade quase de concerto, no sentido em que decorei os poemas, portanto podemos chamá-lo de concerto… Eu não canto, mas é um conjunto de ambiências sonoras produzidas pelo Cláudio Martins, o [compositor] Wake Up Sleep.”

Neste momento, está a tentar fechar mais datas para organizar uma pequena tour. O espetáculo será produzido pela associação A Palavra, onde Pedro Freitas trabalha como produtor cultural, em eventos relacionadas com a palavra dita. Organizam em Oeiras o MAP — Mostra de Artes da Palavra. No âmbito da iniciativa, o Poeta da Cidade criou o primeiro concurso de eloquência e oratória em Portugal, chamado Voz – O Poder da Palavra. 

Nas redes sociais, é seguido por muitos jovens. Entre os comentários e reações que mais recebe encontram-se frases como “de repente gosto de poesia”, “foi o primeiro livro de poesia que comprei”, “pedi aos meus pais o teu livro de poesia” ou “quem me dera que os áudios das aulas de português fossem com a tua voz”.

@poetadacidade

Um poema do meu livro de poesia “Ela, Metafisicamente d’outro mundo” ♥️ #ceoofvoice #elalivro #livrodepoesia #poetadacidade #portugal

♬ som original – Pedro Freitas

“Tenho pais a pararem-me na rua, a agradecerem-me pelo trabalho que tenho feito, por perceberem que os filhos lhes pedem um livro de poesia e estão interessados na literatura. Também já fui convidado para algumas escolas, por professoras cujos alunos perguntam se há possibilidade de convidarem o Poeta da Cidade para ir lá apresentar o livro, falar sobre literatura, ler alguns poemas também. Tem sido uma aceitação muito transversal, tem-me enchido o coração. Disso não posso dizer que estava à espera e tem sido a parte mais recompensadora de todo o processo.”

Quanto aos seus próprios pais, não hesita em dizer que são os seus “melhores fãs”. “Principalmente o meu pai, que é um relações públicas, fala de mim e do meu livro a toda a gente que conhece… Ele quase que vende mais o meu livro do que eu [risos]. Mas também quero pensar que é algo de que eles já estariam à espera. Desde pequeno que escrevo, sentem que existe esta pretensão artística da minha parte, acho que eles também achavam que era uma questão de tempo até as coisas se materializarem nisto que está a acontecer hoje.”

Ao longo dos anos tem-se falado bastante da falta de hábitos de leitura em Portugal, da fraca ligação entre os portugueses e a literatura. Pedro Freitas está, à sua maneira, a contribuir para inverter essa tendência, especialmente junto dos mais jovens.

“Tenho tentado, até porque no caso das camadas mais jovens, não saí assim há tanto tempo do secundário… Sei bem aquilo que os programas educativos de Português fazem. Uma vez, o poeta Fernando Pinto do Amaral disse-me que o maior problema dos programas educativos de Português no caso dos poetas — como Cesário Verde e Fernando Pessoa — é esta coisa de os institucionalizar.”

E acrescenta: “Extraímos toda a nuance e a beleza que eventualmente um texto pode ter para os esmiuçarmos e categorizarmos tudo. Isso desvirtua por completo a poesia e faz o caminho inverso… Em vez de motivar os jovens para a leitura e para a eventual descoberta dessas mesmas categorias, desses aspetos fulcrais da poesia de cada poeta, afasta-os. Porque é um peso muito grande pedir a um jovem que decore mil e uma coisas sobre um poeta só para depois as largar numa folha de exame. A poesia não pode ser isso. A poesia não pode ser institucionalizada, tem de ser dada como uma benção de cultura e arte. Sinto-me na obrigação de mostrar que a poesia não é algo a temer, mas uma arte que pode e tem de ser nutrida e tida com calma e amor”.

Apesar de ter adorado a disciplina de Português quando era aluno, sempre se considerou “mediano”. A tendência para escrever de forma mais poética e metafórica atrapalhavam-no nos textos de prosa mais argumentativos, por exemplo. Neste momento, encontra-se a terminar o curso de Ciências da Linguagem na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. “Olhar para a língua como uma ciência é fascinante. E tem sido uma das áreas que mais me tem motivado. O de olhar para a língua não como arte, mas como algo exato e metódico.” Tem ainda o podcast “Dizer”.

Por fim, perguntamos-lhe qual a sua maior ambição com a poesia. “É ser inevitável. No sentido de me tornar uma figura tão ou mais importante e relevante como os grandes, como um João Villaret, um Mário Viegas, um Ary dos Santos. Ser impossível falar-se de poesia ou de dizer poesia sem se falar no meu nome. Inevitável.”

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