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“Pra Cima de Puta”: há centenas de insultos a Cristina Ferreira no seu novo livro

É um trabalho que reflete sobre o ódio nas redes sociais, apontando para o caso da apresentadora nos últimos meses, desde que regressou à TVI.
Cristina Ferreira voltou à TVI em setembro.

“PEIXEIRA, vigarista emganadora, vendida”. “Vira casacas vais para um sitio que te escurrassou sejas muito feliz mas mim perdeste o valor todo”. “Falta se edudaçao. Nada k umas palmadas ha 40 a atraz nao resolvessem.” “Puta cabra de merda tu nem um homem consegues arranjar para te foder a cona. Puta cabra de merda.”

São centenas e centenas de ofensas e insultos gratuitos que estão citados — assim mesmo, com erros ortográficos — no novo livro de Cristina Ferreira, “Pra Cima de Puta”, editado pela Contraponto a 20 de novembro — e cujos resultados têm sido tão bons que já vai na segunda edição. Tem 152 páginas e está disponível por 12,40€.

O título foi polémico. Cristina Ferreira assumiu desde o início a provocação que queria fazer. Mas basta perceber o conteúdo desta terceira obra escrita da apresentadora de televisão (e atual diretora de Entretenimento e Ficção da TVI) para que o título passe despercebido, tendo em conta o conteúdo inflamado dos muitos comentários referenciados — que facilmente podem ser encontrados online.

Acima de tudo, este é um livro sobre as ofensas nas redes sociais. São pessoas que não conhecem Cristina Ferreira, que nunca lhe diriam coisas destas se passassem por ela na rua (como a apresentadora afirma no livro), mas que atrás de um ecrã de um telemóvel ou computador descarregam estes insultos compulsivos. 

Cristina Ferreira diz em “Pra Cima de Puta” que quis abrir a discussão sobre o tema. Explica que, obviamente, não é a única figura pública a sofrer com isto, e que existem sempre mais comentários positivos do que negativos nas suas redes — ainda que estes também sejam abundantes.

A apresentadora sentiu particularmente estes ataques online quando, neste verão, anunciou que ia regressar à TVI, a “casa mãe”, dois anos depois de ter saído para a SIC. Muitas pessoas comuns nas redes sociais acusaram-na de ser uma “vira casacas” ou de não ter princípios.

Ao mesmo tempo, são evocados outros motivos para insultarem Cristina Ferreira — e o próprio livro está dividido por temas. “Exibicionista”, “gananciosa”, “falsa”, “manipuladora”, “convencida”, “vergonhosa”, “traidora” são alguns dos insultos “temáticos” habitualmente dirigidos à autora.

Enquanto profissional da área da comunicação, Cristina Ferreira assume que não é especialista sobre o assunto, mas reflete sobre a forma como isto pode impactar a vida das pessoas, sobre as gerações mais novas que crescem nesta era e diz que quer deixar um testemunho de como eram as redes sociais no início, muitas vezes carregadas de ódio, para alguém que leia este livro daqui a muitos anos.

A apresentadora diz que os comentários insultuosos lhe são indiferentes, que não afetam a sua vida, mas que já teve fases em que se deixava influenciar por este tipo de opiniões — falando ainda brevemente do caso dos sites ou revistas que já publicaram mentiras sobre si, e como já teve de agir judicialmente quando uma publicação afirmou que Cristina Ferreira estava com cancro.

Cristina Ferreira defende também que as pessoas deviam ser responsabilizadas por aquilo que dizem nas redes sociais. Para este livro, foram ocultadas as imagens de perfil e os apelidos das centenas de pessoas que enviaram mensagens ou escreveram comentários insultuosos nas suas redes sociais.

cristina ferreira
Tem mais de 150 páginas carregadas de insultos.

Só foram mantidos os primeiros nomes, até para se perceber se se trata de uma mulher ou de um homem. A apresentadora diz que é sobretudo atacada por mulheres, muitas das quais com uma linha de pensamento machista, que a acusam, entre outras coisas, de só ter tido determinado sucesso em troca de favores sexuais, por exemplo.

Cristina Ferreira explica que, obviamente, é um preço a pagar por ser uma figura pública de grande notoriedade — ainda que faça questão de manter a privacidade da sua casa e da sua família próxima, que nunca são mostrados publicamente.

“Pra Cima de Puta” tem um prefácio escrito pelo autor Valter Hugo Mãe — e a parte final do livro conta com testemunhos de especialistas sobre este tema, que foram convidados por Cristina Ferreira para ajudarem a contextualizar o fenómeno e trazerem informações valiosas para a discussão que pretende abrir.

É o caso da jurista Dulce Rocha, da filósofa Joana Rita Sousa, do psiquiatra Júlio Machado Vaz, da socióloga Maria José da Silveira Núncio e do médico pedopsiquiatra Pedro Stretcht.

A mensagem insultuosa que abre o livro foi-lhe enviada na manhã do seu aniversário deste ano, em setembro. Cristina Ferreira diz que a leu para os amigos e familiares mais próximos no almoço de anos, enquanto se ria, mesmo que alguns deles tenham ficado incomodados com o teor do que foi dito. Esta foi a mensagem:

“És uma grande vaca! Achaste tão importante que de importante não tens nada! És uma supérflua! O dinheiro subiu te à cabeça grande cabra????! Agora tomaras tu o Rúben!!! Não passas de uma velha frustrada, cheia de celulite nessas banhas. Tens umas ancas tão grandes que quase viras o iate! Vai mas é para casa tomar conta do seu filho, aprenda a cozinhar e passar a ferro, sua vaca presunçosa. Já não suporto ouvir falar de ti, a tua voz é de uma bimba peixeira, metes nojo ao mundo!”

“O riso é uma ferramenta de sobrevivência? Não. É saber que posso estar descansada, as agressões são gratuitas e não se encaixam em mim. Resvalam. Caem ao chão. Tempos houve em que me deixei perturbar. Sentia-me injustiçada. Hoje sinto-me exposta e consciente da minha liberdade. Este livro é para isto. Para sermos todos confrontados com a impunidade de agredir nas redes sociais, não interessa quem, sem que esse gesto tenha consequências. Importa refletir, perceber este fenómeno. É urgente legislar. Muitos considerarão que este livro é mais uma provocação. É verdade, é uma provocação. Sou eu a dizer-vos que estas coisas me são dirigidas, diariamente, e que ainda assim continuo em busca dos meus sonhos. Não me desmoralizam. Não me esmorecem”, escreve Cristina Ferreira na introdução de “Pra Cima de Puta”, logo a seguir desta mensagem que recebeu no dia de anos.

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