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Quando o Papa decidiu acabar com 10 dias num ano em Portugal — e ninguém reparou

Em 1582, o Rei Filipe I seguiu as indicações do Vaticano e fez desaparecer vários dias do calendário. Em troca, não cobrou impostos.
O calendário tem muita história.

Entre 5 e 14 de outubro 1582 nada aconteceu. Não, isto não é um twist mal amanhado inspirado em “Lost” ou num dos seus derivados. Simplesmente não existiram, porque assim ditou o Papa.

Naqueles dez dias, continuou a anoitecer e a amanhecer, com os dias a sucederem-se, cumprindo a sua parte do acordo. Mas havia correções a fazer no calendário gregoriano, razão pela qual o Papa Gregório XIII ditou que a solução mais fácil seria simplesmente acabar com este período.

Claro que a vida prosseguiu mas para as contas oficiais ninguém nasceu, nem ninguém morreu. Santa Teresa de Jesus, por exemplo, conhecida por fundar a Ordem das Carmelitas Descalças, morreu na quinta-feira, 4 de outubro de 1582, no mosteiro de Alba de Tormes, em Espanha. Foi enterrada logo no dia seguinte, sexta-feira, 15 de outubro — e essa ficaria a sua data oficial da morte.

A situação não foi assim em todo o mundo mas aconteceu em outubro em Portugal e noutros países católicos, como Espanha, Itália e Polónia, onde a realeza cumpriu as ordens da figura de proa da Igreja Católica. Em dezembro do mesmo ano, França seguiu o exemplo, eliminando das contas os dez dias que se seguiram a 9 de dezembro de 1582.

Na altura, Portugal era governando há bem pouco tempo por D. Filipe I (II em Espanha). Dez anos antes, tinha sido impresso pela primeira vez em Lisboa “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões. O ainda jovem D. Sebastião partira para África inspirado nas Cruzadas e nos feitos de portugueses relatados em “Os Lusíadas” e desaparecia em 1578, na batalha de Alcácer-Quibir. Sem sucessores diretos, abriu caminho a uma crise na monarquia lusa e o País perdeu mesmo a soberania para os castelhanos em 1580.

O papa que deu a ordem.

Quando chegou a ordem do Papa sobre o calendário, já Filipe I tinha sido legitimado nas Cortes de Tomar. Documentos históricos de que o “Expresso” deu conta, deixavam expressa a ordem dada então por Filipe I: “Passados os primeiros quatro dias do dito mês [de outubro] se começasse logo a contar dos quinze dias e daí por diante até aos trinta e um, e os mais meses corressem pela conta antiga que até agora tiveram”.

Os dias até aconteceram mas para as contas do reino foram tempos de poupança. Como os dez dias desapareciam do calendário, “não se devem nem é justo que se paguem” impostos, ordenava o rei em finais de setembro, preparando a mudança.

O calendário gregoriano veio substituir em definitivo a contagem dos dias que se fazia desde os tempos de Júlio César. Fora implantado 46 anos A.C., ainda antes da contagem católica ter colocado o calendário a zeros.

O problema é que havia um desfasamento entre o ano solar marcado (isto é, o tempo que a Terra leva para dar uma volta ao redor do Sol) pelo calendário juliano e o do novo calendário. Uma diferença de 11 minutos entre os dois calendários, para sermos mais precisos. O ano solar atual é de 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos.

Ao perceber que a Páscoa, aos poucos, com o passar dos anos, seria celebrada cada vez mais tarde, Gregório XIII optou por dar a ordem, mas não sem antes terem decorridos cinco anos de estudos e contas levados a cabo por um grupo de figuras próximas do Papa.

Depois da primeira leva de países, onde Portugal se incluía, aceitar o novo calendário, nos séculos seguintes outras nações aderiram a estas contas. Foi o caso da Alemanha e da Grã-Bretanha, ambos no século XVIII, uma aceitação que demorou mais tempo por causa das correntes protestantes no seio do cristianismo. No século XX, outros países assumiram o calendário gregoriano, inclusive a China, em 1912, embora culturalmente continuem a celebrar o seu próprio calendário (que vai no ano 1718, já agora).

Até que todos acertassem o compasso, não deixou de haver confusões em registos históricos. Foi o que aconteceu com os confrontos do início do século XVII entre rebeldes irlandeses, tendencialmente católicos, e ingleses.

A Batalha de Kinsale, para os ingleses, foi combatida na véspera de Natal de 1601. Para os irlandeses, porém, a batalha aconteceu já em janeiro do ano seguinte. Conta-se que se os ingleses na altura quisessem descobrir se um irlandês se opunha ao domínio inglês, bastava perguntar-lhe a data em que estavam.

A próxima quarta-feira, 14 de outubro, marca o último destes dez dias desaparecidos há 438 anos. Para os apoiantes do antigo imperador romano e do seu calendário, porém, outubro ainda está só a começar.

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