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Quase três anos após a morte de Phillip Roth, regressam as acusações contra o escritor

Duas novas biografias prometem reatar discussão sobre vida pessoal do escritor.
Duas novas biografias do escritor.

Foi um dos grandes nomes da literatura norte-americana do século XX, com obras adaptadas ao cinema e televisão e múltiplos prémios, entre os quais apenas lhe terá ficado a faltar um Nobel da Literatura. Em breve, o passado do escritor promete voltar a ser assunto.

Há duas novas biografias a caminho onde a vida pessoal de Phillip Roth, em particular a sexual, voltam a fazer assunto. Ao longo da carreira, o escritor nunca deixou de ser tema de debate, fosse pelo retrato de algumas personagens suas judias (apesar de ele próprio ser judeu), fosse pela forma como temas como o sexo, o amor e a morte eram tratados na sua obra.

Roth faleceu a 22 de maio de 2018, aos 85 anos, seis anos após ter anunciado a reforma. Por estes dias têm surgido detalhes de duas biografias prestes a serem lançadas. A primeira intitula-se “Philip Roth: A Counterlife” e trata-se de uma biografia não oficial escrita por Ira Nadel, que escreve que o escritor era “tão sexualmente obcecado com a vida sexual na vida real como era na literatura”. Chega a 29 de março e já é possível reservá-la na Amazon.

A 6 de abril chega “Philip Roth: The Biography”, obra de mais de 900 páginas da autoria de Blake Bailey que promete ser um retrato mais definitivo do autor. Blake Bailey teve autorização para aceder aos arquivos do escritor além de ter conduzido diversas entrevistas com amigos e antigas amantes.

No livro, cujas primeiras críticas já têm surgido, Baile alega que Roth chegou a frequentar bordéis em Londres e fala também da preferência do escritor por mulheres mais novas.

O sexo, convém realçar, sempre foi um tema recorrente nos seus romances. Nathan Zuckerman, personagem que surge em diferentes livros do escritor, sempre foi analisado pela espécie de alterego do escritor. “O Complexo de Portnoy”, um dos seus livros mais debatidos, chegou a ser censurado na Austrália e alvo de ira de parte da comunidade intelectual judaica nos EUA. Mesmo em entrevistas o escritor nunca deixou de abordar os temas que lhe marcavam a escrita.

Roth manteve também uma relação curiosa com a crítica, que tanto o elogiava por alguns dos seus livros como era ela própria alvo de críticas do autor — para Roth, os leitores deveriam “estar sozinhos” com os livros, sem interferências externas. “Os leitores deviam poder lutar com os livros e descobrir o que são e o que não são”, chegou a explicar em entrevista ao “The Guardian”.

Alguns dos maiores sucesso de Rtoth chegaram até ao ecrã, casos de A “Pastoral Americana”, adaptado ao cinema em 2016 por Ewan McGregor, ou “A Conspiração Contra A América”, adaptada a minissérie pela HBO em 2020 e uma história onde Roth imagina como seriam os EUA da sua infância se um apoiante do nazismo tivesse chegado ao poder.

Com 31 livros publicados desde 1959 até ao fim da carreira, Roth nunca deixou de ser debatido e analisado. As acusações de misoginia, aliás, foram um dos temas focados por altura da morte do escritor, em 2018.

Nesta altura, no entanto, este é um debate de contornos políticos e artísticos que se tem extremado. Aconteceu recentemente com Woody Allen e o documentário “Allen v. Farrow”, onde se tecem considerações sobre não apenas a vida do realizador mas como a sua arte seria uma forma de refletir um lado mais censurável da sua vida pessoal.

No caso de Roth, o tablóide britânico “Daily Mail” e o site “Breitbart”, da extrema-direita norte-americana, já sugerem que Roth poderá ser mesmo “cancelado”, tornando-se vítima de censura três anos após a sua morte.

Com Roth, um dos escritores norte-americanos mais influentes das últimas décadas, que nunca deu sinais de domesticar as suas pulsões literárias, é provável que esta discussão continue a acompanhar o seu legado. Mérito da complexidade do escritor.

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