Livros

Pedro visitou 93 países, viveu aventuras mirabolantes e agora conta tudo em livro

"Ventre" é uma obra de ficção inspirada em algumas das experiências reais que viveu pelo mundo fora.
Já está à venda.

Durante uma viagem ao Laos, Pedro Moreira foi detido pela polícia local. Pela sua cabeça passou o pior cenário possível: pensava que tinha sido raptado. O português desmaiou — não sabe se foi drogado — e adormeceu num bar. Quando acordou, estava numa viatura descaracterizada no meio da floresta.

“Levaram-me para uma estrutura de cimento com arame farpado à volta. Era eu, 21 outros rapazes do Laos e uma mulher aos gritos. Tentei criar a revolução lá dentro e só depois é que me disseram que não tinha sido raptado, mas sim que estava preso. Acho que se aproveitaram depois de verem um turista e tentaram-me sacar algum dinheiro. Acusaram-me de ter partido umas coisas, o que não era verdade. Tive de pagar 400€”, conta à NiT.

A mirabolante história podia ser o pontapé de partida para o seu primeiro romance, mas não foi esse o caso. Decidiu criar uma história de ficção, embora com alguns elementos da sua realidade. “Ventre” chegou às livrarias a 4 de maio. O livro é, para o autor de 40 anos, uma peça de arte por si só graças às páginas amarelas que o destacam de muitas outras publicações.

Quando estava a escrever o texto, pôs-se no papel de um explorador “e não de um arquiteto”. “O arquiteto já tem tudo planeado na cabeça. O explorador vai escrevendo e vendo. Simplesmente deixei-me ir.” 

“O livro representa a maneira como estamos ligados, mas não daquela forma metafísica e ideológica, mas mais literal”, explica. A narrativa arranca com uma série de pequenos eventos e, depois, vamos conhecendo cinco personagens que estão conectados à sua própria maneira.

Verónica é uma enfermeira, Eduardo é um taxista que sonha ser um guarda-noturno, Ademiro é um homem em condição de sem-abrigo que lê muitos livros e fala bem, o que causa espanto em todos porque desafia o preconceito, Júlio “percebe que o melhor é desaparecer de si mesmo e viver na rotina” e o Justino é a “personagem menos gostável, mas com um papel fundamental no desenrolar da história”.

Há muitos outros intervenientes na obra, embora tenham papéis mais pequenos. Mesmo assim, Pedro criou uma história de fundo para muitos deles para relembrar os leitores “que as outras pessoas também existem”. “Muitas vezes estamos tão envolvidos em nós mesmos que vemos os olhos das outras pessoas vazios como se elas não tivessem vida”, aponta. Grande parte da história acontece no Porto, mas também passa por Vale de Cambra, onde o viajante vive, pelo Gerês e pela Madeira.

 
 
 
 
 
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Para “Ventre” inspirou-se em alguns episódios da sua própria vida — como uma viagem que fez ao Egito. “A melhor ficção é aquela inspirada na realidade”, nota. Pedro também queria ter um livro que o representasse e a obra é, no fundo, “um espelho do grande fascínio” que tem pelo milagre que é estar vivo. “Acho que as pessoas agem com muita naturalidade perante o facto de estarem vivas, mas isso não é normal. Nós ganhámos consciência, vamos para a escola e vamos andando pela vida fora, mas não paramos para pensar que estamos vivos”, reforça.

Embora este seja o primeiro romance de Pedro Moreira, não é o primeiro livro que lança. Na verdade, já conta com dois contos e três livros de viagens publicados. Estes não estão, contudo, à venda nas livrarias e devem ser comprados através do site criado pelo autor. Também é ali que encontra “Ventre”, disponível por 22€.

Também é provável que já o tenha visto a vendê-los na praia, algo que começou a fazer em 2017. Pensou acerca dos sítios onde as pessoas leem. Um deles era a cama, mas claro que não podia vender as suas obras por lá. A segunda melhor opção eram os areais do Algarve.

Pedro vai para lá durante cerca de dois meses, entre os quais trabalha 50 dias. “Faço as praias de Monte Gordo até Alvor, uma de cada vez e abordo as pessoas que lá estão a ler.” Normalmente, ficam reticentes, mas após um pitch de 40 segundos ficam convencidos — especialmente os portugueses. “Os estrangeiros ficam ainda mais desconfiados”, confessa.

O romance é um género em que há muitos anos queria mergulhar. “Sempre tive um interesse enorme pela estória e sempre vi muitos filmes e séries. Sou apaixonado pela forma como a estória é um elemento unificador da nossa espécie. Este é um livro que sempre esteve dentro de mim”, conta o mestre em psicologia clínica que se despediu duas vezes do emprego para ir viajar — e já passou por 93 países.

O autor já tem muitos planos para a sua próxima publicação. Atualmente, tem cerca de cinco ideias para um novo romance. “Queria escrever um livro sobre o Manuel Teixeira Gomes que foi uma personagem incrível. Foi presidente de Portugal e, paralelamente, escrevia romances eróticos o que é muito interessante e inusitado”, brinca.

Por enquanto, está a treinar para a sua próxima grande viagem. Em 40 dias pretende fazer mais de 4.000 quilómetros de bicicleta no continente africano. Vai partir de Luanda e passará, se tudo correr conforme planeado, pela Angola, Namíbia, Zimbabué, África do Sul, Maputo e Essuatíni.

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