Livros

Leia em exclusivo as primeiras páginas do novo livro de Fernando Ribeiro

O vocalista dos Moonspell lança o seu primeiro romance, “Bairro Sem Saída”, esta terça-feira, 17 de maio.
Seja dos primeiros a ler.

Depois da poesia e dos contos, chegou a vez do romance: Fernando Ribeiro tem um novo livro que será lançado esta terça-feira, 17 de maio. “Bairro Sem Saída” é o primeiro romance do músico e vai poder ler em exclusivo na NiT as primeiras páginas.

Editado pela Suma de Letras, este novo livro e a história que o compõe surgiu em janeiro como “uma espécie de bênção das musas literárias”, segundo afirmou o próprio autor.

A história passa-se numa zona de subúrbios que podem afigurar-se como a Brandoa, a zona da Amadora onde o vocalista dos Moonspell cresceu. Aí acompanha também o amadurecimento de Rogério Paulo, nome dado em alusão a um ator dos anos 70 de quem a mãe do autor gostava. Ao longo do processo, o protagonista percebe que um bairro rico vai invadir e tentar acabar com os costumes do bairro pobre que, como é usual — e apesar de todos os seus problemas —, era o bairro em que as pessoas se uniam.

Pelo meio da trama não faltam pontos de destaque, como a ligação ao heavy metal, a toxicodependência e até alguns detalhes verídicos que são acrescentados à ficção.

Quem quiser, já pode comprar “Bairro Sem Saída” em pré-venda por 17,70€. E os exemplares até estão autografados.

Melhor do que saber do que trata o livro de Fernando Ribeiro, é poder lê-lo em primeira mão. Pelo menos as primeiras páginas. 

Bairro Sem Saída

Não leves a manta, não.
Nunca saí do Bairro.

Desta terra onde o sangue nunca seca. Aqui estou. Sinto o sujo da calçada. Sinto os fios de água que escorregam pelas frestas entre as pedras. Sinto-os como se fossem o sangue que me circula acima-abaixo pelas veias. Se os meus olhos funcionassem, conseguiria, sem esforço, fazer um mapa mental dos cagalhotos dos cães neste passeio.

Antes do meu prédio, havia, acho que ainda há, uma casa de primeiro andar que tem umas escadinhas onde o pessoal se sentava de pés esticados para passar rasteiras aos miúdos como eu. Aquilo não chegava sequer a ser um alpendre. Apenas dois ou três envergonhados degraus, a contar com o que dava acesso à porta. Nesse anexo morava uma família, moravam dois irmãos: um jogava muito bem à bola. Era querido da malta não só por causa disso, mas também porque era o dono daquelas escadas.
— Podemos abancar aqui? — perguntavam-lhe.
— Na boa, malta.

A irmã mais velha, essa lá foi crescendo à janela que dava para a minha rua. Não era assim muito gira, mas foi-se tornando bem boa. Sem o saber, tinha-me acompanhado em imaginação e mais do que uma vez à casa de banho. Crescíamos juntos.

Certo dia, vinha eu do cimo da rua da escola, a correr sem saber bem porquê. Corria eu rua abaixo quando um filho da puta de um miúdo, não me lembro qual, estica a perna para me fazer cair. Em plena aceleração, salto, evito a rasteira. Mas… o passo foi maior que a perna e caí, de mãos abertas, em cima da merda fresca de um cão vadio. Nem me lembro sequer se me aleijei. Merda.

Não me saiu da cabeça aquela cor. Aquilo nem parecia merda de cão: era metade amarela, metade castanha. Mole, pegajosa, orgânica. Dava para notar que os cães do Bairro comiam mal. A merda cobria-me as palmas das mãos. Como nos sonhos, não conseguia virá-las para mim, e assim estava: nem acordava, nem dominava os acontecimentos. As gargalhadas que ouvia atrás de mim ferviam-me cicatrizes na nuca. Tinha-lhes feito o dia, àqueles miúdos. Já nem lhes interessava a porrada que iam levar depois do jantar dos pais bêbedos de vinho.

No Bairro, a justiça servia-se em pequenas compensações. Era a luta de classes feita entre os pobres. A consolação que preciosamente guardamos: a de haver sempre alguém pior que nós. Subi as escadas do prédio até ao segundo direito. Não me lembro se chorei enquanto lavava as mãos. Tinha medo do ralhete. Nessa altura, a culpa era toda dos filhos; se levávamos porrada, era porque não nos sabíamos defender. Se caíamos estatelados com as mãos na merda, era porque não sabíamos voar. Se calhar, estava mais a chorar por causa disso: temia o futuro, mais logo à mesa. Temia a frustração transformada em repreensão pelas transfigurações da vida dura de trabalho do meu pai. Quem me teria aberto a porta do prédio? A minha mãe, a minha irmã pequena? Estaria a porta já aberta? Teriam as vizinhas sentido o cheiro da matéria canina, teriam elas vindo à porta de casa cheirar a putrefação com os seus próprios narizes, assim acumulando munições para a guerra da roupa molhada a escorrer nos estendais, pelo espaço abaixo, por entre as interferências das antenas de televisão?
— Mais para cima, pai! Mais para baixo! Está bom, não mexa mais! — gritávamos de dentro.

E o pai descia do parapeito, a correr para ver a bola, mas a televisão outra vez cheia de chuva lá dentro, perdido o fio condutor entre a aliança de casamento no anelar esquerdo e o alumínio da antena. O pai com as mãos cansadas, mas, ao menos, sem merda de cão.
— Mau!… Então não estava bom? — protestava.

E eu a esfregar as mãos no lavatório. E aquela merda que não saía e que ainda está aqui na minha cabeça, juntamente com os gritos do ralhete, com os risos dos putos, com as mamas da irmã do que jogava bem à bola, esmagadas no parapeito contra as fintas dele, eu a ultrapassar todos pela direita da calçada, incapaz de roubar fruto às árvores, de apalpar aquelas mamas de irmã. Eu na terra batida, sem habilidade para roubar a bola ao irmão mais novo, os meus dedos a escorrerem caca no Feno de Portugal, que em vez de verde estava agora amarelo de cão, o íman que o prendia à saboneteira a ameaçar vermelhos transparentes na vergonha das minhas lágrimas.

Nunca saí do Bairro.

Acho que o meu fantasma irá para sempre lá morar quando eu me for. Um espectro invisível a repetir as quedas de todos os dias, estatelado na merda de cão, a ver as mamas das miúdas crescerem, a ficar no banco de suplentes aos domingos de futebol de cinco, a encarar o Sol que se põe por trás do alto do Bairro, a ir buscar o vinho ao meu pai.
— O gargalo tem de ser o das cinco estrelas — mandava. E as vinte e tal carcaças compradas na padaria.
— Mas vocês só comem pão, infelizes do caralho?!

Ao menos sempre se ia trincando alguma coisa.

 

Era uma vez duas irmãs.

A 26 de fevereiro de 1969, a mais nova ouviu o prédio de seis andares ruir. Em minutos, a construção clandestina estatelava-se no chão, como uma má vaza de cartas. O Bairro nascia, caindo no mundo. O som daquela queda deu-lhe um enorme aperto na barriga de quase trinta e duas semanas. O médico, que viajara pelos canais de lama que davam acesso ao Bairro para a ir ver, já a tinha avisado:
— Nada de emoções fortes.

Mas que podia ela fazer? Ela em casa, sozinha, a apertar o ventre, o cofre onde entesourava o seu primeiro filho. Tinha a certeza de que ia ser um menino. Já escolhera o nome e tudo: Fernando. O barulho daquele prédio que despencava enchia-lhe os ouvidos. O rumor fazia-a tremer toda por dentro, como se fosse ela as varandas que tombavam numa cascata de pó e cimento. Chamou:
— Acudam-me!

A vizinha ouviu o gemido débil e bateu à porta. Ela já não se levantava. A vizinha desceu, atravessou o lamaçal e chegou à loja. Estava toda a gente na rua, assustada com aquilo do prédio.
— É o que dá construírem de noite — dizia-se

Prédios rotos, paredes coladas a cuspo, a oferta, a procura, a caidela desamparada. Mandou vir um homem e disse à mulher do dono da loja.
— Chama alguém, uma ambulância, faz alguma coisa.

O homem subiu ao segundo andar e deu um pontapé na fechadura.
— Tem de ser mais acima — avisou a vizinha.

E ele levantou a pata e deixou-a cair com estrondo, enfiando o calcanhar uns centímetros acima no zás da madeira, que cedeu. Entraram à pressa.

Ela estava no sofá a olhar pela janela, a ver o pó das nuvens.
De entre as suas pernas escorria vermelho.
— É sangue.

A ambulância saía nesse momento do quartel a acelerar sirenes pelo alcatrão fora. Entrou no Bairro e começou a subir a lama. Os pneus derrapavam, perdendo-se nos minutos. Ela ofegava nos braços da vizinha. O homem andava de trás para diante na sala pequena, a puxar cigarros sem os acender, com medo de que a sala explodisse, o prédio explodisse, o Bairro explodisse.

Que dia de merda. Preciso de um copo, a ver se chegam os bombeiros, pensava.

Eles chegaram, meteram-na maca e desapareceram com ela, a vizinha dentro da ambulância a gritar:
— Alguém que avise o marido, ele trabalha em sítio tal, deve estar por lá.

A dona da loja a correr para o único telefone da obra ali ao pé. Mais lama a ser patinada, mais alcatrão comido, o prédio caído a fumegar no chão, o homem na tasca a virar copos:
— Não há nada que se coma? — perguntou, recobrado o apetite, passado o susto, ela a delirar, uma garra por dentro fechando-lhe o ventre, a vida a escapar-lhe.
— Tenho aí peixe frito — respondeu o dono da tasca. — Mando vir mais um traçadinho?
— Sim, e serve aí um bagaço para depois, que me cai bem com o frito e o cigarro. Já me chega deste dia.

Um dia de prédios tombados, fechaduras arrombadas, vizinhas a gritar, mulheres a rezar, as meninas a correr, os cavalos a aprender, o marido aflito à procura de um táxi, a adivinhar hospitais, ela nas últimas, a pressa dos médicos:
— Dá-me isto, passa-me aquilo, a senhora agora vai ter de sair.

Ela a ver escuro por dentro dos olhos, o barulho da ruína, do prédio caído, a vizinha que teve de sair, a dizer a uma senhora:
— Já me viu isto, estão as duas grávidas, e ao mesmo tempo, parece milagre, vieram do campo, e agora isto, coitada.
— A senhora vem do Bairro, não é? Ouvi na rádio, que coisa, tudo feito à pressa, não é? Ouvi dizer, feito à noite.
— Também não é bem assim, fala-se muito, acerta-se pouco. O marido chega vermelho de correr, em fato-macaco.
— Oh, meu Deus, entre lá, levaram-na lá para dentro.

Mais umas horas, à espera de notícias, 26 de fevereiro de 1969, em pedra caída, à hora certa, no sangue da mãe, o marido regressa à sala de espera, pálido, sem pinga, sem alma, diz para a vizinha:
— Foram-se-me os dois, era um menino.

 

A outra irmã vivia mais longe. Mais para cima do Bairro, mais afastada do centro, de lá em baixo. Vivia mais acima, mais perto das nuvens, e não ouviu nada. Estava em casa, a barriga grande, as mesmas semanas. Tinham engravidado ao mesmo tempo, curioso, mas nem por isso, não tinha feito uma barriga tão grande quanto a irmã. O marido estava desempregado, a enganar biscates.
— Era bom homem, nisso tanto ela como a irmã tinham tido sorte, graças a Deus, era tão difícil encontrar alguém, depois do campo, das brincadeiras, da escola, do que já lá vai.

Depois dos primeiros empregos, dos patrões a olharem para elas de alto a baixo, de um lado e do outro, os filhos dos patrões a encostarem-se-lhes as pilas adolescentes às costas.
— Bendito menino.

Sim, ela e a irmã sabiam, dois meninos, os primos juntos, a crescerem ali, naquele sítio. O Bairro ia melhorar.
— Já se andava aí em reuniões, dois vizinhos meus estavam lá metidos.

As coisas acabariam por acontecer, sempre estavam perto da capital, a renda era baixa, a lama desapareceria, viria o bom tempo, a água nos canos, a primavera traria as flores, o seu menino, o seu Rogério Paulo a brincar, a avó babada, o outro avô, desde o Além, a ensinar assobios no barulho dos canos à noite.
— Vai ser tão bom. Que me importa o trabalho, o sofrer, o contar os tostões. O pão de um dia para o outro. Ao menos já não é só uma sardinha para onze, vai ser só um, ou, vá lá, dois, no máximo, os primos como se fossem irmãos, o meu homem vai arranjar qual- quer coisa, o país, sente-se, está a mudar, o outro caiu da cadeira, puta que o pariu, fala baixo, tonta! Ai, bebé! Não ouças estas coisas. ’Tá bem, anda lá daí, vamos à loja, vou fazer a sopa, compro também pão e toucinho e uma garrafita de vinho.

Na loja:
— O quê? Caiu um prédio no Bairro? Não, não sabia, ainda não liguei o rádio hoje, tenho estado a descansar, mas o meu homem deve saber, ele deve estar a voltar. Sim, foi à procura de emprego, está quase, acredito, ou então ele anda aí com umas ideias, oficina de motas, armazém de móveis, ele andava à resina com o pai. Sim, vai havendo mais pessoas a virem para aqui e ele diz que a Câmara vai fazer uma estrada, está só à espera do bom tempo. Não se acredita? Está bem. Caiu como e onde foi? Lá para baixo? Safa! A minha irmã deve ter-se assustado, anda tão nervosa. Sim, está por dias, como eu, não vemos a hora. O meu vai chamar-se Rogério, Rogério Paulo, sim, como o ator. Já viu as coisas dele? Que lindo homem. O da minha irmã, Fernando, vai chamar-se Fernando, sim, como o avô que morreu, Deus o tenha. É engraçado ser assim tudo ao mesmo tempo, mas é como Deus quis. O importante é sermos felizes, que eles cresçam bem. Olhe, eu tenho esperança neste Bairro. Bem sei que a minha irmã é mais pessimista. Mas sempre assim foi, a minha sombra é mais leve, graças a Deus. Ela é uma joia de pessoa, vai ser tão boa mãe e tia, tudo ao mesmo tempo, e eu também serei assim, tia, mãe, mãe, tia. Quanto é? Sim, darei os seus cumprimentos, minha senhora. Não, é verdade, ela não tem vindo muito para aqui, custa-lhe subir, isto com a chuva está cheio de terra e de lama. Eu sei que está para chegar a camioneta cá acima. Amanhã, se a senhora for lá abaixo, guarde-me aí um jornal para o homem, pode ser qualquer um, é só desgraças ultimamente, não é? Vou andando, subir devagarinho, pôr a sopa ao lume, até amanhã, minha senhora. Obrigada, sim, vai tudo correr bem.

 

A minha mãe estava errada.

Não. Não tinha corrido tudo bem.

A minha tia estava morta. Morrera aqui mesmo, nesta sala ao lado, no hospital da capital, onde nos levavam para nascer. Não era nada fácil chegar do Bairro até aqui. As ruas do Bairro continuavam a borbulhar lamas. Os taxistas evitavam lá ir com medo dos assaltos. As camionetas tardavam. Uma mudança abaixo. Um solavanco. Um ronco. As pessoas dentro da caixa de ferro, bancos duros como se fossem feitos de osso, muita gente de pé a bambolear para a traseira, mudança abaixo, arranca, mete a segunda. Pessoas a caírem umas sobre as outras. A minha mãe gostava de contar uma anedota que em tempos tinha aprendido. Uma anedota dos comunistas, sempre com as classes sociais bem identificadas, em luta pelos bancos do autocarro. A senhora fina de perfumes, rendas, carteira. O trolha sentado, sujo do óleo dos carros, manchado pelo «é a vida». No entanto, ambos apanhavam a camioneta àquela hora, naquele local, em frente à pastelaria com o brinquedo do caracol mecânico à porta. Ia-se subindo para o Bairro, a derrapar na lama, a arriscar na elevação. Mudança abaixo. Mudança acima. O solavanco do ronco. A burguesa a cair em cima do trolha.
— Mas que azar o meu. Logo tinha de cair em cima deste
animal.

O trolha, versejando:
— Olha a Dona Presunção. Se calhar, queria cair nos braços de um capitão.
Mas os corpos, quando se tocaram, pensaram exatamente o contrário das cabeças. Visionaram o batom da senhora borrado pelos beijos de língua do trolha. A cara dela a descer. Os dentes na braguilha dele. O inchaço nas calças. Que se fodam as convenções. Mudança abaixo. A renda das cuecas puxada para o lado. Atrás de um prédio malfeito, à pressa, com o cio dos animais. Ele por trás, a suar no espelho das marquises do rés do chão. O marido dela em casa a ler o jornal, os pés no sofá. A mulher dele a coser meias, pane- las ao lume.

A minha mãe enganara-se.

A minha tia morrera. Havia dois dias.

Assustou-se com o barulho do prédio que caiu no Bairro. Veio uma ambulância buscá-la. Parecia mesmo que a sorte estava do lado dela. Quase até ao fim. Mas não. Não teve sorte. Aqui mesmo, numa porta ao lado, foi onde ela se foi. E levou o meu primo, que esperava dentro dela. O Fernando, coitado do Fernando, nem viu o mundo. Ficou-se perdido num sonho de águas revoltas. A medir-se contra a medida de todas as coisas. Ficou curto. Já tinha dado a volta para sair. Mas nada. Lá ficou. Para sempre entre a coisa alguma e o nada de mais. Não jogámos à bola com as pedras. Não fomos buscar vinho juntos. Não apalpámos as miúdas depois da escola, nem nos sentámos na terra a ouvir os ciganos cantarem, a Zíngara ainda nova a despachar serviço por trás da casa de madeira. Coitadinho dele. Astro liquefeito numa constelação de leite derramado. Nado-morto, peixinho-dourado a nadar no corrimento da placenta. Com a boquinha a fazer bolhas, sufocado pelo barulho do cimento das quedas. Prisioneiro no anfiteatro do útero. Refém daquele tempo que levou à ambulância a subir e a descer o monte. Pobre enjeitado. Vítima mortal do Bairro.

Naquele dia era 28 de fevereiro de 1969.

Já passava da noite quando a minha mãe, ainda vermelha de levar as lágrimas aos olhos, disse ao meu pai:
— Chama alguém.

O meu pai correu à padaria. Não ia arriscar a espera. Era agora. O Serafim veio de dentro de uma nuvem de farinha, a cheirar a pastéis e a forno.
— Toma lá a chave da carrinha. Mas leva alguém contigo — disse o mestre padeiro ao meu pai.

O meu pai acordou o vizinho, o Carlos Canalizador, que também fazia as vezes de endireita. Meteram-se na carrinha do pão e aceleraram nas retas até ao hospital. A minha mãe mexia-se devagar para não me deixar cair pernas abaixo.
— Quero fazer xixi — pedia.
— Aguenta mais um bocado, mulher.

Os médicos vieram logo. Viram imediatamente que éramos daquele Bairro. Havia muitos Bairros nessa altura. Mas nenhum era como este, que matava as mães, os filhos bebés, onde os prédios caíam, onde os táxis davam a volta antes de serem esmagados pelo calcanhar do monte. A minha mãe entrou pelo seu próprio pé. Foi à casa de banho. A minha cabeça apareceu. Meteram-na logo na cama, abriram-lhe as pernas, disseram:
— Faça força. Respire. Faça força. Respire. E repita.

A minha mãe era forte. Queria tanto vingar a morte do sobrinho, da irmã. Andava até com ideias de, quando eu nascesse, irmos embora dali, daquele maldito Bairro. O meu pai achava que ela estava maluca, ainda agora tínhamos chegado, mas deixava-a falar. Era a dor que falava. A sua mulher vocalizava tão alto o estertor do prédio que caíra, enchendo os ouvidos da sua cunhada no Além, rebentando a sua irmã por dentro, esmagando o crânio ao seu sobrinho Fernando. Que azar. Ainda por cima, ninguém sabia bem quem era o responsável pela obra. Não existiam papéis. Nada levaria ao construtor. Os homens das obras tornavam-se cegos, qual toupeiras surdas-mudas mal a Guarda chegava ao pé deles. Alguém com dinheiro, decerto, porque mandar erguer um prédio, mesmo que este caísse depois, não é para qualquer um, tem de estar abonado, ter posses. O Carlos esperava na carrinha do pão, a fumar de janela aberta.
— Olha, achas que vão demorar muito? Tenho de devolver a carrinha. Eles daqui a pouco têm de começar a distribuição.
— Vai-te embora, Carlos. Agradece ao Serafim e diz que depois pago uma cerveja a todos. Isto vai ser rápido e depois apanho um táxi. Claro que obrigo o condutor a levar-nos à porta de casa. Dou-lhe uma gorjeta e tudo, pá! Vamos com o bebé, caramba, não pode dizer que não.

Esperança.

O Carlos regressou em marcha lenta até ao Bairro. Por entre os semáforos que intermitiam na noite da capital. Era o dia 28 de fevereiro de 1969. Entrou numa rua e sentiu um abanão. Travou. Saiu para ver se era um pneu. Os sinais de trânsito abanavam, as árvores agitavam-se, parecia que o chão passava a rolar ventanias debaixo dos seus pés. Os prédios inclinavam-se numa impercetível vénia, como se o cumprimentassem. Das suas laterais, desmanchavam-se aos poucos lentas madeixas do pó de pedra. As alvenarias desciam às superfícies janeladas com uma lentidão suspeita, o pânico engolia-se nas gargantas. Firmou bem os calcanhares ao chão e deixou-se estar agarrado à caixa fechada da carrinha. Olhou para o relógio. Mais vinte minutos e seriam quatro da manhã. À sua volta, tudo começava a dar de si, tremelicando sob a chuva gelada.

A cerca de duzentos quilómetros a sudoeste de Sagres, na costa algarvia, dentro do mar, as placas tectónicas africana e eurasiática desentenderam-se e começaram a empurrar-se uma à outra. Comprimiram-se numa birra e fizeram nascer um sismo, que ondulou mar adentro, enchendo-se de magnitudes enquanto crescia. Veio dar um encontrão à nossa terra, esbarrando ao nosso Sul, onde casas ruiriam, onde mães fugiriam para as ruas com os filhos nos braços, gritando em constância por piedade.

Dentro de um quarto de um hospital na capital, entre tremores e rebentamentos de águas, eu tentava nascer. Rogério Paulo. O crucifixo na parede agitava-se. Parecia que até Cristo queria sair dali para fora, enjoado com o marear desta frágil jangada. As mãos dos médicos mexiam-se sem eles quererem. A cada grito da minha mãe, os médicos recuavam um passo, como se no útero dela radicasse o epicentro que rachava o branco das paredes. Havia um vento invisível que cheirava a peixe, soprando de dentro das suas carnes.

Naquela rua, ainda encostado à carrinha do pão, Carlos contava os segundos de olhos fechados. À sua volta, a chuva miudinha enjeitava-se numa grossa cacimba que desfocava as pessoas que saíam dos prédios em trajes menores, em pijama. Uma mulher isolava-se e sincopava, perdida no nevoeiro. O seu Ai! era um eco distante, pequenino entre as vozes que invocavam uma agonia preocupada. A humidade ia ensopando as roupas e os cobertores agarrados à pressa. Nos jardins dos bancos sentavam-se os glúteos moles dos refugiados, passavam-se os braços à volta dos ombros, acendiam-se cigarros e comiam-se bolachas Maria do pacote. Os mais miúdos adormeciam ao colo das mães e toda a gente perscrutava a noite para encontrar as respostas que queriam, como se elas estivessem escritas nas fendas das varandas. Havia já uma fila com imensa gente à porta da cabina telefónica.

Do outro lado do fio, as telefonistas choravam as penas dos outros como se delas fossem. Desfiavam um rosário de doze mil contas, o número calculado à razão das chamadas tentadas de quem não conseguiu falar com os seus parentes no resto do país. Os nervos floreavam a pele e toda a gente se alapava a um posto para não mais se abandonar. Ligava-se para aquele número da sorte e do azar. Para o treze. Vinte e cinco meninas atendiam, as mãos trémulas no painel, enfiando minhocas no anzol das vozes.
— Está lá?
— Lamento, mas de momento não consigo estabelecer a sua chamada, peço imensa desculpa.

E chorava-se. Chorava-se muito. O vizinho de cima tentava regularizar a fila entre os seus gritos de «Organizem-se. Bolas, uns segun- dos cada um, é quanto basta. Tenham noção, caramba.» Noção. Alguém corria à frente do tempo para que este não o apanhasse. Os miúdos queriam regressar ao quente da cama e resmungavam. Outros, os nunca fiando, preparavam-se para se eternizarem na noite exterior. No banco do jardim, à porta do prédio, na curva da esquina molhada. A rua tremia viva pela noite dentro, embrulhada em cobertores. Alguns juravam que tinham visto o céu empreitar rubores, uma aurora boreal sulista, melancólica, com sinais tensos, que ninguém sabia muito bem interpretar. Alguns arriscavam teorias das Selecções do Reader’s Digest, outros rezavam, outros tinham frio, muito frio, outros tantos cabeceavam de sono contra as pedras da calçada.

Os carros estacionados estavam brancos do pó. Tejadilhos amolgavam-se numa diagonal de cacos, pedras repousavam da sua perda de sentidos em cima dos assentos de pele. Alguns carros estavam totalmente partidos, os homens observavam os estragos. Igrejas tremiam com o medo de séculos, hospitais evacuavam alas inteiras, coxeando doentes, arrastando as latrinas pelos corredores. «Só os inconscientes e os mentirosos não tremiam.» Os homens do Gás e da Eletricidade espiolhavam caixas, batendo com as chaves de fendas nos tampos. Animais domésticos brincavam no nervosismo dos choques telúricos da sua nova liberdade. Baldios enchiam-se com o entulho dos assustados.

Tudo isto se passava mesmo ao lado dos olhos cerrados do Carlos. As pessoas andavam, sem que ele as visse, agarrado que estava ainda à carrinha do pão, a enraizar o pé firme na gravidade que lhe escapava encruzilhada. De olhos fechados, contava ainda. Por dentro do seu plasma retiniano, memoriava os buracos do Bairro, apertava as gargantas de terra, espreitava do alto da fábrica dos ossos a ver se via a sua família, a sua mulher, os seus amigos curvados. Sonhava com o rosto adunco e conformado dos pobres que a terra engolia.

Via-se a passear de barco no largo afundado, a comprar um jornal na banca flutuante do Vasco Jornaleiro, a olhar as gordas da Bola, por entre os anúncios de elixires capilares, e lá encontrava o Bairro nas letras húmidas do jornal, outra vez trágico, uma zona de guerra, de peitos caídos, pernas partidas, a cabeça arrancada.

Uma mulher bonita aproximou-se dele e perguntou:
— Sente-se bem, meu senhor? Está bem? Precisa de alguma coisa?

Através da cortina da chuva, o derrame destas palavras arrancou o Carlos ao seu torpor. Olhou-a nos olhos.
— Quatro minutos — respondeu-lhe.

E a terra parou de tremer.

Arrancou bruscamente, metendo as mudanças à pressa, tomando a direção do Bairro. Não olhava para trás, com medo de que a noite o transformasse em sal. Tinha a pressa dos aflitos. A pressa dos que se mandam pela ribanceira abaixo, só para encontrar o próprio sangue no sopé. Tinha um encontro marcado. Tinha de devolver a carrinha ao padeiro. O chão podia até ter engolido as pessoas, podia até já nem haver um prédio de pé no Bairro, mas o Serafim precisava de ir entregar o pão. Carregou no pedal, acelerou a marcha.

A minha mãe empurrava. Eles puxavam. Estava difícil. Decidiram dar-lhe algum descanso. Não podia ser por muito tempo. Eu estava quase cá fora, mas algo me prendia por dentro dela. Mandaram chamar a diretora. Tesouras e fórceps tilintavam. A terra tinha acalmado, mas ali por dentro ainda se tremia. O meu pai passeava nas linhas invisíveis dos corredores. Nem se tinha ainda sentado. Ninguém lhe dizia nada. Não o deixavam passar de tal sítio. Às enfermeiras que circulavam, sinalizava o seu desespero, mas naquela noite não havia tempo para a vida que começa, com o tremor da morte a pairar, pessoas a entrarem de cabeça aberta, de sangue nas mãos, misturado com cal branca. Um corre-corre de formigas, num frenesim de passadas. O meu pai calculava-lhes os ritmos. Adivinhava-lhes as histórias. As respostas. Mas depois aborrecia-se. Rapidamente se danava e perante os conselhos de calma rangia os dentes. «A minha mulher.» «O meu filho.»
— Mas ainda não sabe se é menina ou menino, olhe que pode bem ser… — rezava a enfermeira.
— Não quero saber — praguejava.

E o meu pai a ebulir a paciência, de faca nos dentes, a saliva a secar, teria passado mais outra hora. «Não me dizem nada, sou um verbo de encher, estar aqui ou não estar vai dar no mesmo.» Na hora atrasada, a capital tinha tremido, as paredes tinham-se partido, as pessoas fugido. O cão ladrou, o gato assanhou-se, os pássaros mantiveram-se mudos, cobertos pelo pano escuro da gaiola. Mas já tinha passado. E eu ainda dentro do útero, mas também meio de fora, a evitar o mundo, a imitar o meu primo, já a ver luzes, a escorregar nas cascas da vida, a minha mãe a ir-se, a contar as névoas dos candeeiros, os médicos a suar, de repente uma onda, um cofre que se abre, um grito mais fundo, e ouve-se um apito dentro dos ouvidos, recomeça o jogo, a segunda parte da vida, o repuxo da pele a encher-se de ar.
— Faça força, agora. Respire. Repita.

Quem diria que no depois dos tempos a minha mãe tivesse afinal anca de parideira. Que a minha irmã, e, depois, o meu irmão, deslizassem vida adentro, como num parque aquático, mergulhando nas mãos das parteiras, sem gladiar, como num aperto de mão, ou num abraço a um amigo. O corpo oleado, perfeito, a sambar da alegria de quem nasce sem saber que nasce. Só eu é que sempre fui um atraso de vida. Nasci já cansado, empurrando com os pés quem me queria sacar. Dentro do ovo, a questionar a claridade, com a remela dos olhos a vibrar de morcegos, o caminho mais longo, à volta das rochas, a picar o relógio, entortando ponteiros, o super-homem-feto do filme que faz o mundo andar para trás, para salvar uma gaja feia, num preliminar absurdo dum tédio sem fim. O meu pai aos círculos nas linhas retas dos corredores, a minha mãe a empurrar, os médicos a puxarem, um barulho de rolha, o champanhe da placenta derramado no chão numa amolgadela do plástico.

Eram 5h28, hora da maior réplica do tremor de terra de 28 de fevereiro de 1969 quando saí cá para fora ao mundo. Senti a luz, senti o frio, senti a pele dos outros, ouvi as vozes.
— É um menino! — gritou-se, enquanto me viam os dedinhos. Uma palmada no rabo, a minha mãe toda aberta, de lágrimas nos olhos.
— Deixem-me ver, deixem-me ver.
— Ele tem de chorar, espere um bocado.

Eu pendurado, o tempo a passar, eu sem chorar, eu suspenso dos ramos pela primeira vez, com todas as apostas a meu favor, jantares e garrafas de brandy. Na benevolência da vida, na santidade de tudo quanto é pequeno e frágil, na expectativa do meu choro primordial de macaco, ainda selvagem, ainda por ser.

Mas, em vez de chorar, espirrei. E assim comecei a minha vida.

O Carlos chegava ainda a tremer à padaria para entregar a carrinha. Nessa noite e apesar do terramoto, nenhum prédio caiu no Bairro e, em todas as casas, o Serafim entregou o pão à hora marcada.

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