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Sarah Ferguson: “Na vida, deves pedir ajuda. E, se pedires, o universo vai-te ajudar”

A NiT falou com a duquesa de York sobre o seu primeiro romance. A ex-nora da Rainha Isabel II está em Portugal, onde a filha vive.
Sarah Ferguson está em Portugal.

O romance histórico “Onde Me Leva o Coração” foi publicado em Portugal em junho. A autora é particularmente conhecida. Trata-se de Sarah Ferguson, a duquesa de York, ex-mulher do príncipe Andrew e nora da Rainha Isabel II.

Depois de uma série de livros infantojuvenis e de memórias, Sarah Ferguson decidiu escrever um romance. Procurou inspiração na própria família, especialmente na sua tia bisavó Lady Margaret, para criar uma narrativa fictícia. Relata a vida de uma mulher da nobreza britânica, de fortes e brilhantes cabelos ruivos, de espírito rebelde e feminista, que acaba por refletir a personalidade e legado da própria autora.

A edição da TopSeller está à venda por 18,86€ e tem 480 páginas. O enredo desenrola-se em Londres a partir de 1865. Leia a entrevista da NiT com Sarah Ferguson — que tem outros  livros na calha e está a aproveitar para passar tempo em Portugal, onde vive uma das filhas, a princesa Eugenie.

Quando surgiu o interesse pela escrita de romances?
Foi há 15 anos, quando decidi escrever um. Porque a minha vida é um romance [risos]. O meu nome do meio é Margaret e ponderei sobre porque é que uma ruiva é tão forte. Considero-me muito forte e uma lutadora feroz pela alegria e pela luz. Pensei em olhar para os meus antepassados para perceber se encontraria alguém de cabelos ruivos que pudesse usar como fonte de inspiração. A Lady Margaret era esta mulher forte, maravilhosa e ruiva… Havia coisas escritas sobre todos os irmãos dela, mas ninguém tinha escrito sobre ela porque era uma mulher. Pensei: vamos dar-lhe uma voz a partir do túmulo. E foi ali que decidi escrever sobre a Lady Margaret.

O livro relata uma narrativa fictícia, mas baseada em alguns factos verídicos. Como abordou essa história?
Sim, a pesquisa foi muito bem feita, é historicamente correta. A primeira coisa que fiz foi ir à William Morrow and Company em Nova Iorque, e disseram que adorariam concretizar este romance. Depois, fomos a Londres, à HarperCollins, à chancela Mills & Boon. E disse: não quero fazer isto sozinha. Queria que fosse feito em colaboração, que fosse um trabalho de equipa, porque nunca tinha escrito um romance. Na vida, deves pedir ajuda. E, se pedires, o universo vai-te ajudar. Levaram-me a conhecer a Marguerite Kaye, que já tinha escrito imensos romances históricos. Sabia que com ela poderia fazê-lo muito bem. Ensinou-me a escrever um romance.

A partir daí, começou a escrever o livro?
Sim, com a Marguerite. Escrevemo-lo durante a pandemia. Passámos ótimos momentos a falar ao telemóvel e a desenvolver linhas narrativas profundas.

Disse que quis contar esta história porque se identificava com esta mulher, sua antepassada. De que forma?
A Lady Margaret tinha a sua melhor amiga, a princesa Louise, e no meu caso tinha a incrível princesa Diana. Somos ambas ruivas. Ela era uma mulher muito forte que pretendia seguir o seu coração, não que lhe dissessem sempre o que fazer. E, como podem ter lido nalguma coisa sobre mim, não faço propriamente aquilo que me dizem para fazer assim tantas vezes… Acredito na esperança rebelde e em ser autêntica e real.

A narrativa também aborda alguns conflitos no seio da aristocracia britânica…
Não o fiz de forma deliberada, porque também não preciso. Pensei que seria uma história muito interessante. Ela foge e tropeça num homem da guerra da Crimeia. Queria esse sentido de drama. Imagino como seria ir para a guerra, perder as pernas e ficar só a vender caixas de fósforos. 

Esta personagem tinha a história e a personalidade que queria para contar uma narrativa?
A personagem dela e a minha personagem juntas são muito fortes. É poderoso. E a Lady Margaret era corajosa. Mesmo na vida real. Casou muito tarde, aos 28 anos. Mas o meu próximo livro vai ser ainda mais envolvente.

Vai ser uma sequela direta deste livro?
Não, não vai. É um romance histórico, passado no mesmo universo, mas mais cativante, com detetives famosos em 1870. Vai focar-se na Lady Mary, a irmã mais nova de Margaret. Mas o livro seguinte não vai ser focado na mesma família, é sobre uma família nova, inventada. Claro que há lá sempre muito de mim, sou uma escritora [risos].

Qual diria que foi o maior desafio em escrever este livro?
Deixar-me levar. Passar demasiado tempo nos bairros degradados de Inglaterra, e não tempo suficiente no navio para Nova Iorque. Acho que, com a minha imaginação, consigo ir a qualquer lado. É o segredo, suponho.

E a sua intenção é continuar a escrever romances históricos nesta época específica?
Sim, vou a 1870, depois para os princípios de 1900. 

Cresceu com estas histórias e estas personagens reais à sua volta. Foi buscar inspiração a outros trabalhos de ficção?
Sim, inspirei-me bastante na série “Outlander”. E, na literatura, sei que é um cliché, mas adoro a Jane Austen e os autores clássicos, como o Charles Dickens. Adoro mesmo uma boa história.

Gostaria que este livro chegasse aos ecrãs?
Sim! Espero que os produtores e realizadores de televisão estejam a ler isto, e que o possam tornar num filme ou numa série de televisão.

Quem seria a melhor atriz para interpretar Lady Margaret?
Jessie Buckley, adoro-a. Ela é tão fixe. E a Julianne Moore, se for a história mais antiga. A protagonista tem mesmo de ser uma ruiva. Essa é a condição. Com “A Jovem Vitória”, ganhámos o Óscar de Melhor Guarda-Roupa. Produzi esse filme com a Emily Blunt, com o Martin Scorsese também a produzir… E se consegui fazer esse, também consigo com este livro.

Está a trabalhar ativamente nisso?
Sim, estou a trabalhar bastante nisso. Vai acontecer.

Sarah Ferguson tem 62 anos.

Falando sobre séries de televisão, foi retratada na quarta temporada de “The Crown”. Gostou de se ver retratada?
Não estive lá durante muito tempo. Podiam ter-me deixado ficar um bocadinho mais. ‘Onde é que eu estou? Fui embora!’ Mas quando estive em “Friends”, com o Joey, foi uma grande honra. Costumam-me convidar com alguma regularidade para fazer coisas na televisão nos Estados Unidos e adoro.

Uma das suas filhas está cá a viver. Gosta de Portugal, já conhecia o nosso País?
Sim, o vosso povo e País fazem-me muito feliz há muitos anos. Adoro estar em Portugal. Lembro-me de vir ao Estoril para o Grand Prix e sempre encontrei felicidade. Uma das coisas que quero fazer, com as receitas do livro, é ajudar escolas e miúdos em Portugal. Quero retribuir. Não penso que possas vender um livro sem retribuir. Quero oferecer livros e instrumentos musicais aos mais novos, para que possam ser criativos. Queremos que seja um sítio onde possamos realmente fazer a diferença.

O que mais gosta de fazer em Portugal?
É caminhar pela praia. Adoro o mar aqui. E toda a sensação de natureza da costa da Comporta. É fabulosa. As pessoas são muito simpáticas. A minha avó tinha loiças da Casa Pupo, por isso sempre adorei Portugal, porque me faz lembrar dela.

Estava a falar sobre retribuir, e tem feito algum trabalho para apoiar os refugiados da guerra na Ucrânia. O que a motivou a fazê-lo?
Tenho feito trabalho de caridade desde 1991. Sempre senti necessidade de desempenhar um papel que me permitisse fazer o bem. Em 1993 fui a Split, na Croácia, e comecei um campo de refugiados. Pensei: tens de dar às pessoas um dentista e calças de ganga, tens de lhes dar dignidade, o direito de terem uma vida. E agora regressei à Croácia e espero que aquele trabalho possa dar esperança às pessoas da Ucrânia. E estou a desenvolver um projeto de casas para crianças desalojadas, sítios onde possam estar seguras e brincar. Acho que assim podem perder o medo. E se perderem o medo, conseguimos quebrar o legado da guerra e da dor. É o meu trabalho favorito: ajudar pessoas. 

Sente que é a sua missão?
É onde sou mais feliz. Faz-me sentir humilde, faz-me sentir que nunca me deveria preocupar ou queixar sobre nada. Eles é que são as verdadeiras celebridades.

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