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Sofia Dinis: “Quando tatuo tenho de ser perfeita, é isso que as pessoas esperam de mim”

A NiT entrevistou a tatuadora, que se começou a tatuar aos 26 anos por causa de uma doença. Tem um novo projeto, um diário para 2021.
Sofia Dinis tem 36 anos.

As redes sociais revolucionaram centenas ou milhares de áreas profissionais. E os estúdios de tatuagem — que evidentemente vivem bastante da imagem — foram uma delas. Sofia Dinis foi uma das pessoas que agarraram a oportunidade e construíram uma carreira a partir do Instagram. Hoje em dia, entre muitos posts e stories para os quase 100 mil seguidores, é uma das tatuadoras mais requisitadas do País.

Abre a agenda a cada três meses e costuma receber cerca de quatro mil pedidos — de pessoas que querem tatuar consigo, no seu estúdio privado. A partir das candidaturas, faz uma seleção dos projetos que mais lhe interessam, dos desenhos que quer fazer, das histórias que quer traduzir na pele de alguém. Se aceitasse tatuar todas as pessoas que lhe pedem, ficava vários anos a trabalhar todos os dias, sem folgas.

“Nunca vou conseguir tatuar todas as pessoas que gostariam, infelizmente. Mas por um lado é bom, porque a tua dedicação traduz-se em arte e exclusividade. E isso está a acontecer cada vez mais. As pessoas não vêm fazer uma tatuagem, as pessoas vêm fazer uma tatuagem de Sofia Dinis, é quase como uma peça de arte no corpo”, diz a tatuadora à NiT.

Formada em design de comunicação e com experiência na área da estética, as tatuagens surgiram na vida de Sofia Dinis como forma de ultrapassar um estigma. A atual tatuadora de 36 anos (que só trabalha a full-time neste setor há três) sofre de psoríase, uma doença da pele que deixa marcas, e Sofia Dinis começou a pintar a sua pele para distrair os olhares alheios das feridas.

Só alguns anos depois é que se tornou tatuadora. Após terminar uma relação de forma difícil, no Algarve, regressou a Lisboa com apenas 70€ na conta. Viveu num Airbnb onde uma amiga trabalhava, e o dinheiro começou a escassear — até ficar com apenas seis cêntimos na conta.

Tinha 33 anos e decidiu que ia seguir em frente com o objetivo de se tornar tatuadora — algo que já fazia há algum tempo, mas de forma esporádica, sem ser constante. Depois de conseguir dar a volta psicologicamente, começou a trabalhar e a conseguir marcações. Duas semanas depois, tinha a agenda cheia — era o início de uma carreira de enorme sucesso que a levou até aqui.

Ainda há cópias disponíveis.

2020 foi um ano difícil para quase todos os setores da sociedade — inclusive para os estúdios de tatuagem. Contudo, Sofia Dinis aproveitou uma paragem forçada para desenvolver um projeto — “O Meu Diário 2021”. 

Trata-se de uma espécie de agenda-diário que inclui ilustrações, receitas, pensamentos, frases de inspiração, desafios e perguntas de desenvolvimento pessoal. A primeira tiragem esgotou num instante, e a segunda, que é a última, vai pelo mesmo caminho. Ainda há cópias disponíveis na loja online, à venda por 70€. Depois, só quando chegar a edição de 2022, que já está nos planos da tatuadora. Leia a entrevista da NiT sobre este projeto e o percurso de Sofia Dinis.

Como é que surge a ideia de criar este diário, que acaba por juntar muitas coisas diferentes?
Eu tive uma infiltração no estúdio e fui forçada a fechá-lo para poder fazer a obra. Supostamente ia demorar 15 dias, e demorou dois meses. Em vez de eu ficar parada à espera que a obra concluísse, e a descansar, decidi criar este projeto — um pouco porque vínhamos de um ano complicado, 2020, e este ano vamos pelo mesmo caminho, enfim [risos] — e fi-lo com o intuito de chegar a mais pessoas. Porque é humanamente impossível atender no meu estúdio todas as pessoas que gostariam de tatuar comigo ou de me conhecer. E esta foi uma forma que arranjei de conseguir continuar a trabalhar e dar mais de mim às pessoas que gostam do meu trabalho e da minha arte. Foi reunir um pouco tudo o que tento passar no meu Instagram: as dicas, os conselhos, os meus gostos. E também é incentivar as pessoas a estarem melhor com elas próprias, saberem ouvir-se, perderem um bocadinho de tempo com elas próprias. Nesse tempo comecei a escrever, a desenhar, a fazer a montagem do design e a desenvolver este projeto, que tem sido um sucesso.

No que consiste este diário?
Além de ter a componente de agenda — não é uma agenda, mas uma planificação do dia, onde podemos pôr coisas importantes a fazer naquele dia, ou simplesmente uma frase de inspiração que nos marque — tem receitas, dicas, rotinas, rituais, uma área de perguntas de reflexão e desenvolvimento pessoal. Tem toda a parte de ilustração que foi feita por mim — e inclusive uns autocolantes. E acho que o mais engraçado do diário são os 52 desafios — de 52 semanas. São desafios que vou acompanhar no Instagram, para as pessoas perceberem que não estão sozinhas nesta viagem. Não diria ajuda pessoal, mas é um livro que entra um bocadinho por esse mundo. É mais de desenvolvimento pessoal.

E depois as obras terminaram. Chegou a conseguir tatuar? Suponho que agora esteja parada.
Tatuei sete dias. Entre o Natal e a Passagem de Ano só deu para sete dias, e agora estou outra vez confinada. Por isso estou a desenvolver novas coisas, porque não paro [risos].

Já pode partilhar o que está a preparar ou ainda é cedo?
Ainda é cedo. É uma coisa diferente, este projeto é um bocadinho maior, não vai sair já, mas também não posso dizer: é mesmo surpresa. O que aconteceu é que, e acho que isto aconteceu com muitas pessoas, com o confinamento tivemos muito tempo para pensar. Já era uma coisa que eu queria, expandir a minha criatividade e não ficar tão limitada às tatuagens, e com o confinamento veio a luz de que é mesmo necessário, porque não posso ficar refém. Neste momento estamos outra vez confinados e é complicado — não sabemos quanto tempo ficaremos assim, provavelmente os estúdios de tatuagens serão uns dos últimos a voltar a abrir.

2020 terá sido o ano em que tatuou menos, desde que começou.
Sem dúvida. A nível de tatuagens, foi o pior ano. Porque estive três meses confinada, sem poder tatuar, e dois meses de obras. Num período de 12 meses estive cinco sem tatuar — é muito.

Tatuar é algo que é feito por pessoas que realmente têm esta paixão. Custa ficar tantas semanas ou meses sem pegar na agulha?
Infelizmente nem todos têm essa paixão [risos], é como todas as profissões. Há pessoas que fazem pelo gosto, e outras que fazem pela fama ou pelo dinheiro ou porque dá jeito ou porque tem de ser. Há de tudo. Mas a pergunta que fazes tem duas respostas. Como ando sempre a mil, e não sou uma dita tatuadora normal, porque a minha agenda está sempre cheia — quando estou de estúdio aberto, estou a tatuar desde as 10 da manhã às 18 horas — acaba por ser muito exaustivo, por isso no início, na primeira fase da pandemia, aqueles primeiros 15 dias souberam-me muito bem. As minhas últimas férias tinham sido em 2018. Claro que depois começam a vir todas as preocupações, a vontade de estar com pessoas, porque além de ser um trabalho muito criativo e artístico, no meu caso envolve muito conhecer a pessoa e a sua história. 

Tem a ver com o seu método de trabalho.
Sim, eu desenho tudo no dia e no momento, à frente do cliente, e acaba por ser uma partilha de experiências e emoções. Às vezes também é necessário haver uma pausa para restabelecer as energias. Porque lido com histórias e emoções muito fortes. É quase como aqueles programas de manhã na televisão, que passam de histórias engraçadas para histórias muito pesadas e intensas. É um gerir de emoções diário. E quando não estou a tatuar, arranjo sempre forma… eu não consigo estar parada, sou um bocadinho hiperativa [risos]. Arranjo sempre algo para fazer, daí eu dizer que tenho muitos projetos para 2021. Neste momento estou a aproveitar o confinamento para acelerar todo o processo. Sobre a pergunta que fizeste, é estranho porque a mão não deixa de estar treinada, mas há aquele nervosinho de voltar. Será que vai correr bem? [risos] Mas isso é bom. A partir do momento em que estiver totalmente segura de mim também deixo de querer crescer. E mesmo quando estou a tatuar todos os dias, dá sempre aquele — há pessoas em que há mais nervosinho do que outras, depende da zona do corpo, da tatuagem em si, da história em si, mas dá sempre um nervosinho e é saudável. É uma técnica que vai ficar eternamente na pele. E tenho de ser perfeita, é isso que as pessoas esperam de mim. E é engraçado que, por causa disto, sinto que estou cada vez mais exigente com os outros. Quando vou jantar fora ou algo do género, se tenho de ser tão exigente e perfeita comigo, faz-me confusão que as pessoas não sejam, que não tenham brio naquilo que estão a fazer. Se no meu trabalho não há margem para erro, porque é que as outras pessoas se deixam desleixar? 

Tem a agenda cheia há três anos.

O método de fazer o desenho à frente das pessoas, de procurar conhecer as histórias dos clientes — que é diferente do que muitos tatuadores fazem — é algo que tentou procurar desde o início?
Sim, antes de começar a tatuar comecei a traçar a marca que queria deixar. E uma das coisas que percebi, também porque já era tatuada, era que o tratamento que me davam nos estúdios não era, de todo, o que queria. Então, se eu me queria destacar como tatuadora, e se o mercado já tinha tantos tatuadores em Portugal, tinha que ser diferente. E uma das coisas em que peguei logo foi perceber que cada vez mais as pessoas querem ser ouvidas e querem exclusividade. E eu não queria de todo ser mais uma tatuadora. Então comecei a traçar esse conceito de ter um estúdio privado, onde recebo uma pessoa de cada vez, e estou inteiramente dedicada a essa pessoa naquele tempo. Não é “x” tempo e a pessoa tem que sair, como se fosse uma consulta. 

É uma sessão que pode durar bastante tempo.
Estou com a pessoa, converso, na maior parte das vezes ela não sabe ao certo o que quer tatuar — sabe apenas que quer eternizar algo na pele — e aí começa a entrar o meu lado de psicóloga e começo a desenhar com base no que a pessoa me está a dizer. [Depois] normalmente ficam em lágrimas e passa do desenho para a pele. É um processo giro que ao mesmo tempo é desafiante. Eu não sei a história da pessoa, não sei o que vai tatuar, até ao dia. Conclusão: eu gosto desse desafio, mas também sei que não era para qualquer pessoa. Vou muito ao que estou a sentir no momento. E como tenho uma linha e um traço muito definido, se for uma flor ou um gato, é aquilo. Não foge. Por isso, quando a pessoa marca, já sabe o que é que quer. Até agora não houve ninguém que não gostasse ou que não tatuasse aquilo que desenhei. Mas isso também me deixa com aquela responsabilidade, porque as pessoas chegam ao estúdio com a fasquia muito alta. As pessoas vêm muito nervosas não só para tatuar, mas também para me conhecer. E acho que esse é mesmo o ponto forte quando me perguntam “como é que explicas o teu sucesso”. Acho que é por passar esse lado humano, que a maior parte dos artistas acaba por não passar, só mostra o produto final. E também é por aí que tenho uma legião de fãs [risos]. Porque partilho os meus gostos, a minha vida, sou uma pessoa normal.  

Quando é que começou a gostar de tatuagens?
Já me comecei a tatuar tarde, para o padrão normal. Hoje em dia os miúdos começam aos 18 anos, às vezes aos 16. A minha primeira tatuagem foi quando eu tinha 26 anos. E já estou assim toda tatuada há três anos. Por isso, dos 26 aos 33 tatuei o meu corpo quase todo. Eu já gostava de tatuagens, mas tenho uma doença de pele que é psoríase, e as tatuagens serviram para disfarçar essas feridas. Ia tatuando em zonas onde não tinha feridas, um pouco para desviar o olhar das pessoas. Em vez de olharem para as feridas, que era algo que me incomodava, estavam a olhar para arte. E neste momento estou toda tatuada [risos]. Mas quando comecei a tatuar, longe de mim achar que ia ser tatuadora.

Porquê?
Isto surge porque entretanto os meus amigos tatuadores começaram a dizer-me que eu tinha tanto jeito para desenhar que um dia tinha de experimentar e que ia gostar. E um dia experimentei e sabes aquela luz divina que vem do céu? É mesmo isto que quero fazer para o resto da minha vida. E isso acontece-me quase todos os dias, nos períodos em que estou calada e o cliente também, “meu Deus, como adoro fazer isto”. 

Estava a dizer que fez a primeira tatuagem com 26 anos. Qual foi?
Na altura marquei a tatuagem, não tinha noção nenhuma, fui recomendada por uma amiga que já tinha. É quase sempre assim — mas sinto que a tatuagem evoluiu muito em Portugal nos últimos anos. Sinto que dantes era um mundo mais obscuro. Agora, também com a história do Instagram e das redes sociais, recebo médicos, advogados, enfermeiros, pessoas que nunca pensaram que iam ter uma tatuagem. E não transmito a imagem de um estúdio pesado. Os desenhos são todos simples, delicados, minimalistas, com linhas finas. Acabo por alcançar outro público, que se calhar não era o esperado de um estúdio mais tradicional. Mas sobre a minha primeira tatuagem, decidi que queria uma frase à volta do pulso que tivesse a palavra “love”, mas não tinha nenhuma frase específica. Cheguei ao dia, e com o stress também não tinha nada pensado. Então disse: repete a palavra e faz “love love love” à volta do pulso. No dia em que tinha a marcação fui despedida do sítio onde dava formação e passado uns tempos decidi abrir o meu espaço de estética — e quando vou registar o nome, apercebo-me (era a única tatuagem que tinha na altura) — que estou a fazer o registo do nome e a chamar ao espaço Love Love Love. E quando escolhi o nome do espaço nem me lembrei disto da tatuagem. Escolhi aquele porque cada “love” representava uma área específica [dentro da estética]. 

E continuou a tatuar depois a partir daí?
Comecei a tatuar os braços, que na altura era o que me incomodava mais a nível de pele. E como era um processo em que não sabia quanto tempo é que ia ter a pele boa para tatuar, acabei por tatuar em quatro meses. Foi assim uma coisa muito rápida. E depois comecei nas pernas, neste momento tenho as costas, pescoço, mãos…

Quando é que fez a primeira tatuagem enquanto tatuadora?
Já tinha 30, penso eu. Foi a uma pessoa conhecida, mas que não sabia que era a minha primeira tatuagem [risos]. Se eu fosse dizer que era a primeira vez, ele ia estar super inseguro e a pôr os defeitos todos e mais alguns, porque eu não tinha experiência nenhuma. No caso, ele achava que eu já tinha experiência e correu muito bem. Não recomendo, não façam isto em casa [risos]. E há muitas pessoas que me perguntam como é que se começa, eu acho que grande parte já nasce contigo.

Descreve-se como um pouco “hiperativa”.

Que parte?
A mão, a técnica. Uma pessoa que não tem jeito nenhum com trabalhos manuais não pode ser tatuador. Tem de haver um talento natural. Claro que depois podes aperfeiçoar ou não. E sou da opinião que um tatuador tem de saber desenhar. Não te podes considerar artista se só tatuares desenhos de outros. Eu costumo dizer que existe a “impressora humana”, sem autoria nenhuma; o “tatuador” e o “artista”. Eu enquadro-me enquanto artista, porque cada vez mais quero não ser só tatuadora.  

Qual é a próxima tatuagem que vai fazer? Já tem ideia?
Vai ser escrever no meu corpo “15 de fevereiro”. Foi o dia em que regressei a Lisboa e comecei a tatuar. Foi o dia em que decidi: a partir de hoje vou ser só tatuadora. Vou tatuar essa data e quero que seja no dia 15 de fevereiro, quando faz três anos.

Foi naquela fase em que esteve a viver num Airbnb?
Exatamente, fechada num quarto, com seis cêntimos. 

Quais são as coisas que as pessoas lhe costumam pedir para tatuar mas que não faz de todo? Tem mais a ver com o desenho ou com a estética em si?
É as duas, depende muito. Se uma pessoa me disser que quer tatuar a águia do Benfica, eu acho giro. Agora, se calhar não vou fazer a águia que viu na net. Vou fazer uma águia à minha maneira. Mas o que não gosto de fazer, e acontece muito para quem vem fazer a primeira tatuagem, é que de uma só vez querem meter tudo aquilo que são, tudo aquilo que esperam ser, tudo aquilo que foram, tudo aquilo de que gostam e já gostaram. E tudo o que a família gosta e já gostou. Não sei se me faço entender [risos]. Dão-me um bocado de pele de cinco centímetros — é a primeira tatuagem, não querem fazer algo muito grande — e querem lá tudo e coisas que não fazem sentido nenhum. Gostas disto, fazes isto, gostas daquilo, fazes outra — e não tudo misturado. Não vou fazer, sei lá, um regador porque a avó gosta de regar, com uma bola de futebol porque o irmão joga, coisas deste género, não faz sentido. E esse é o principal papel de um bom tatuador: aconselhar a pessoa e não fazer só porque sim. Quando tenho dúvidas, faço sempre esta pergunta aos clientes: daqui a 10 anos, vês-te com esta tatuagem? Se a pessoa não me disser logo que sim, então não é por aí o caminho.

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