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“Toda a gente sabe, ninguém faz nada”. Susana Amaro Velho escreve sobre violência contra mulheres

O novo romance da autora acompanha Margarida em dois momentos da vida e explora os ciclos que atravessam diferentes gerações.

Susana Amaro Velho já tinha o título de “Sou uma Multidão Minúscula” dentro de si antes de existir Margarida, a protagonista do novo romance. A expressão nasceu de um verso de António Ramos Rosa, um dos seus poetas favoritos, e acabou por encaixar numa história sobre tudo aquilo que uma pessoa carrega consigo: relações, memórias, traumas e decisões. Editado pela Casa das Letras, o novo livro da escritora chegou às livrarias a 8 de setembro.

A história arranca em 1971, numa aldeia onde Margarida cresce num casarão aparentemente idílico, rodeada por livros, música e uma felicidade que esconde episódios de violência. Décadas mais tarde, já viúva, mãe de dois filhos e dividida entre três empregos, volta a ser confrontada com um novo ato de violência que ameaça aquilo que mais quer proteger.

São duas histórias separadas por décadas, mas atravessadas pela mesma protagonista. Susana Amaro Velho quis explorar precisamente aquilo que passa de uma geração para outra e a dificuldade de quebrar ciclos que parecem condenados a repetir-se. A violência surge como veículo para falar de uma herança muito mais ampla e das mulheres que, durante décadas, viveram sem independência económica ou proteção suficiente para conseguirem sair de relações abusivas.

A escritora de 40 anos começou a trabalhar no romance há mais de três anos. Interrompeu esta missão para escrever e publicar “Descansos” e só mais tarde regressou à história. Pelo caminho, decidiu construir um romance coral, cruzar diferentes pontos de vista e deixar espaço para que as personagens secundárias também ganhassem vida própria.

À NiT, Susana Amaro Velho fala sobre violência doméstica, abuso infantil, maternidade, os fantasmas que herdamos e a possibilidade de romper com o passado. Também explica por que não quis escrever um livro panfletário e revela que o marido, engenheiro de software e “péssimo leitor ativo”, foi afinal quem encontrou numa gaveta, em 2016, o manuscrito que daria origem ao seu primeiro livro.

“Sou uma Multidão Minúscula” tem 320 páginas e está disponível por 19,90€.

O título “Sou uma Multidão Minúscula” é muito forte. Quem é essa multidão que existe dentro de Margarida?
O título é um verso de António Ramos Rosa, um dos meus poetas favoritos. Já tinha esse verso dentro de mim muito antes de ter esta história. Sempre me ficou por causa do contraste entre “minúscula” e “multidão”. Nós não somos apenas indivíduos isolados. Somos um conjunto de relações, pessoas e experiências que nos vão moldando. Quando tomamos uma decisão, ela nunca é completamente individual: existe o peso de tudo aquilo que carregamos dentro de nós. Margarida é uma mulher profundamente banal, sem tempo, viúva, responsável por sustentar dois filhos e com três empregos. É uma multidão minúscula precisamente por carregar todas essas ocupações, heranças e decisões. A primeira pessoa do título também é propositada, porque qualquer um de nós pode ser essa multidão minúscula.

Coloca a mesma mulher perante a violência durante a infância e, décadas mais tarde, enquanto mãe. O que lhe interessava explorar através destes dois momentos?
Este é, essencialmente, um livro sobre aquilo que transmitimos de geração em geração. A violência é um veículo para chegarmos a essa herança. Quando tive filhos, tornou-se demasiado penoso para mim ler tudo o que envolvia abusos infantis ou crianças expostas a algum tipo de violência. A literatura também serve para transformarmos os nossos demónios em temas e quis trazer para os meus livros um assunto que me era profundamente difícil. Margarida começa por ser testemunha da violência durante a infância e existe ali quase um “segredo público”: toda a gente sabe, mas ninguém faz nada. Depois, ela própria acaba por ser vítima. Interessava-me perceber como se quebra este padrão e se impede que continue a repetir-se.

O livro começa nos anos 70. Era importante colocar a primeira história nesse período?
Sim. Queria mostrar o que significava crescer sob um domínio masculino muito forte. No Código Civil, o homem era o chefe da família e existia um controlo enorme sobre a economia e a própria vida familiar. Muitas mulheres podiam querer sair, mas simplesmente não conseguiam. Às vezes confundimos isso com submissão, quando era incapacidade: como é que uma mulher totalmente dependente de um homem, numa aldeia, conseguia simplesmente abandonar tudo? Queria que Margarida testemunhasse essa realidade e sentisse o peso dela.

Margarida tenta construir uma vida diferente, mas acaba obrigada a regressar ao passado. É possível escapar verdadeiramente àquilo que herdamos?
As nossas raízes, os traumas e as relações da infância têm um peso enorme naquilo que levamos para a vida adulta e nas decisões que tomamos. Mas também acredito cada vez mais que cabe ao indivíduo colocar-se noutra posição e não permitir que o passado o defina totalmente. É mais confortável dizer: “Estou aqui porque estou traumatizado, venho de uma família desestruturada e não consigo avançar.” Romper com isso dá muito mais trabalho. Aquilo que herdamos pesa, mas, munidos de conhecimento e informação, também nos cabe tentar quebrar o padrão e decidir aquilo que queremos fazer com o nosso futuro.

Teve algum cuidado especial ao escrever as cenas de violência e abuso para não as transformar num espetáculo?
Sim. Procuro fugir muito ao sensacionalismo e não quero chocar ninguém. Isto não é literatura de campanha nem um livro panfletário contra o patriarcado ou exclusivamente feminista. Não existe um vilão isolado nem uma heroína. Existem pessoas: pais, mães, filhas. Queria que o leitor se sentisse envolvido sem ter de recorrer ao choque, à lágrima ou à revolta imediata. Já encontrei cenas noutros livros que me fizeram parar de ler e não queria que isso acontecesse aqui. Quis tratar estes temas com delicadeza e, sobretudo, com respeito pelas vítimas.

A capa do livro.

As primeiras ideias surgiram há mais de três anos. Porque demorou tanto tempo a terminar o romance?
Comecei a escrevê-lo há mais de três anos. Estava muito entusiasmada, mas parei, escrevi e publiquei “Descansos” e depois voltei a esta história. Exatamente por ser um tema tão delicado, não sabia até que ponto estava preparada para me envolver tanto nestas questões, sobretudo no abuso infantil. Entretanto, tinha tido o meu filho mais novo e senti que tinha chegado o momento de regressar.

Depois de vários livros, tornou-se mais difícil encontrar uma forma diferente de contar uma história?
Essa é cada vez mais a minha dificuldade. Os grandes temas da literatura repetem-se: existem milhares de histórias sobre violência, abuso ou famílias. O que pode fazer a diferença é a forma como entregamos essa história ao leitor, a estrutura, o modo como encadeamos as personagens e os pontos de vista. Tenho tentado reinventar-me em cada livro e brincar com a estrutura, os narradores e as perspetivas. Aqui quis fazer um romance coral, dar espaço às personagens secundárias e cruzar dois tempos através da mesma protagonista. Isso exige mais de mim, mas também exige mais do leitor. Não podemos querer apenas bons escritores. Também temos de querer leitores que se desafiem e procurem coisas novas.

Alguma personagem acabou por surpreendê-la durante a escrita?
A Esmeralda, vizinha de Margarida. Inicialmente, imaginava-a como uma mulher muito solitária, amarga, desiludida com a vida e abandonada aos próprios fantasmas. À medida que fui escrevendo, apareceu um lado divertido. Tornou-se uma imigrante francesa que usa expressões em francês que ninguém percebe. Há até uma cena em que está bêbada e canta uma música em francês. Durante a revisão, a revisora perguntou-me se queria identificar a canção numa nota de rodapé. Tive de lhe dizer: “Não é música nenhuma, fui eu que inventei.” É isso que é divertido em dar tempo às personagens: elas começam a crescer dentro do próprio texto e o autor também acaba por descobrir coisas que não tinha planeado.

O final deixa espaço para diferentes interpretações. O que gostaria que permanecesse no leitor depois da última página?
Quero sobretudo convidá-lo à reflexão. Escolhi um final arriscado porque acho que a literatura de que gosto não deve fechar perspetivas. Quero que o leitor se coloque num determinado lugar e perceba se também herdou parte da história de Margarida ao longo do caminho. Interessa-me olhar para estas vidas banais, que podiam ser as dos nossos vizinhos, e perguntar: “O que faria eu no lugar desta pessoa?” Neste caso, temos uma mãe que pode ser acusada de negligência, perder os filhos ou assistir à continuação da violência sem conseguir fazer nada. Quero que o leitor pense no que faria com uma dor que não consegue entregar a ninguém.

Poderia existir uma Margarida em 2026?
Claro. Basta olharmos para as denúncias de violência doméstica. O contexto é diferente porque hoje a violência doméstica é crime público e qualquer pessoa pode denunciar uma suspeita, mas isso não significa que estes casos tenham desaparecido. E, quando falamos de abuso infantil, preocupa-me particularmente aquilo que acontece no digital. Antigamente falava-se do pedófilo junto à escola; hoje as redes sociais também podem funcionar como esse recreio. O abuso assume várias formas e continua a existir. Cabe-nos perceber o que podemos fazer, porque às vezes pequenos gestos fazem toda a diferença.

“Descansos” foi um marco importante na sua carreira. O que mudou desde então?
Foi muito significativo. Chegar a um grande grupo editorial fez diferença na distribuição e na visibilidade em livraria. Os leitores não chegam apenas através das redes sociais e, quando saem centenas de livros, é cada vez mais difícil fazer uma obra chegar às pessoas. “Descansos” também teve mais reconhecimento público. Mas não existem garantias neste mercado. A cada livro tenho de me reinventar e voltar a trabalhar. Sei que um livro não vale simplesmente por si: tenho de estar presente, ir a festivais, falar com os leitores e trabalhar a minha imagem. Acredito muito que o trabalho e a consistência valem mais do que tudo o resto. E ver que “Descansos”, dois anos depois, continua a encontrar novos leitores dá-me ainda mais vontade de continuar.

É mãe de três crianças. Elas já percebem que a mãe é escritora?
Ainda são pequeninas. O Frederico tem oito anos, a Jacinta cinco e o Jaime três. É engraçado porque eles já falam disso na escola e reconhecem os meus livros nas livrarias. Mas, mais do que querer que se interessem pela mãe escritora, quero que se interessem pelos livros e pela leitura. Em casa reconhecem capas, sabem quais são os livros que temos e começam a conhecer autores. Vivemos numa sociedade de consumo desenfreado e os livros obrigam-nos a parar e a escutar. Quero criar miúdos com essa capacidade de parar, em vez de estarem sempre diante de ecrãs.

E como consegue conciliar a escrita, o trabalho e três filhos?
Vamos vivendo num caos controlado. Acho que tudo é possível quando se trabalha em equipa e tenho a sorte de ter um marido que é um pai extraordinário e muito presente. Vamos equilibrando a escrita, o jornalismo e os filhos e conseguimos viver todos em paz dentro desse caos.

O seu marido também é um dos primeiros leitores dos livros?
É um péssimo leitor ativo, mas é o meu maior leitor passivo. Conto-lhe as histórias e ele ouve. Em relação aos meus livros, é muito crítico e muito honesto. Às vezes diz-me coisas que me deixam chateada, mas depois tenho de engolir em seco porque acabo por perceber que tem razão. É também o meu principal fã e apoiante. Nada deste caminho teria acontecido da mesma forma sem ele. Foi ele que, em 2016, encontrou numa gaveta o manuscrito que viria a tornar-se o meu primeiro livro. Eu já era aquela pessoa que lia, escrevia em cadernos e tomava notas, mas foi ele que me incentivou a começar a mostrar os textos e a perceber se havia pessoas interessadas em lê-los. Foi aí que tudo se tornou mais sério.

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