António Manuel Neves Ferrão, conhecido simplesmente por Toy, tinha pouco mais de 20 anos quando percebeu que o sonho da música poderia nunca acontecer. Trabalhava, lutava para sobreviver e acumulava desilusões numa carreira que parecia não sair do mesmo sítio. Chegou mesmo a pensar desistir. Hoje, mais de quatro décadas depois, é um dos artistas mais populares da música portuguesa e decidiu contar a sua história numa autobiografia onde revisita os momentos mais marcantes da sua vida.
O livro chama-se “Toy — Coração Não Tem Idade”, chega às livrarias a 4 de junho, e reúne fotografias inéditas, letras manuscritas, testemunhos de familiares e amigos e episódios que marcaram o percurso do cantor setubalense, desde a infância até aos palcos que continua a encher aos 63 anos.
“Fui incentivado a escrever o livro e comecei a pensar: por que não? Há muita coisa para contar”, explica à NiT. “Acho que pode ser útil para quem está a começar uma carreira artística. Há experiências, erros e decisões que podem ajudar outras pessoas.”
Ao longo das páginas, Toy revisita a infância em Setúbal, os anos de emigração na Alemanha, o trabalho como torneiro mecânico, os primeiros passos na música e a ascensão a um fenómeno popular que atravessa várias gerações.
Mas nem tudo foi fácil. Durante os anos em que viveu na Alemanha, acumulou empregos, dificuldades e muitas desilusões. Ainda hoje considera que essa fase foi fundamental para a pessoa em que se tornou.
“Aprendi a lutar e a lidar com as partes menos positivas da vida. Engoli muitos sapos e levei muitos pontapés para conseguir atingir objetivos. Quando sofremos, aprendemos a valorizar muito mais as coisas boas que chegam depois.”
Essa memória continua bem presente. “Há dias em que estou cansado antes de um espetáculo e penso que não me apetece subir ao palco. Depois lembro-me de tudo aquilo por que passei para chegar aqui e essa vontade volta imediatamente.”
O momento decisivo da carreira surgiu em 1988. Na altura, Toy atravessava uma fase particularmente difícil e já ponderava abandonar a música. “Estava muito desiludido. Sentia que tinha tentado tudo e que nada estava a acontecer”, recorda.
Numa entrevista à Rádio Renascença, confessou publicamente essas dúvidas. Foi aí que surgiu uma oportunidade inesperada. “Conheci Jaime Ferreira de Carvalho [o jornalista daquela rádio], que me colocou em contacto com algumas editoras. Fui a uma reunião, cantei no escritório da Helena Cardinal [cantora popular que era representada pela Valentim de Carvalho] e ela gostou. Disse-me que queria gravar comigo. A partir daí tudo começou a acontecer.”
Hoje, mais de 40 anos depois, continua a ser um dos artistas mais reconhecidos do País. Quando lhe perguntam como conseguiu manter essa popularidade durante tanto tempo, a resposta surge sem hesitação. “Nunca deixei de ser eu próprio. A pessoa que está em palco é exatamente a mesma que está em casa.”
Toy acredita que a exposição televisiva também ajudou a aproximá-lo de públicos mais jovens. Primeiro com “Na Casa do Toy”, na SIC, e mais recentemente com programas como “Taskmaster”.
“As pessoas passaram a conhecer-me para lá da música. Viram quem eu sou enquanto pessoa.”

A isso junta-se uma constante vontade de experimentar coisas novas. “Gosto de me reinventar. Ainda há pouco tempo gravei com Matias Damásio e com os Karetus. Nunca tive medo de explorar sonoridades diferentes.”
Apesar de o livro abordar relações, excessos e alguns momentos mais turbulentos, garante que não vive preso ao passado. “Não me arrependo de nada do que fiz. O que correu bem foi bom. O que correu mal serviu para aprender. Faria tudo exatamente da mesma maneira.”
Ao longo da carreira escreveu centenas de canções. Uma das mais especiais é “Mãe, Três Letras de Saudade”, lançada no final dos anos 80, quando a mãe ainda era viva. “Há músicas que ouço hoje e continuam atuais. Algumas emocionam-me exatamente da mesma forma que quando as escrevi.”
O processo criativo, explica, divide-se entre inspiração e disciplina. “Costumo dizer que compor pode ser inspiração ou transpiração. Às vezes surge uma melodia do nada e vou gravá-la no telemóvel. Outras vezes pedem-me uma canção para uma novela e tenho de trabalhar a partir de uma sinopse. Aí é mais transpiração.”
Entre milhares de concertos realizados ao longo da carreira, existe um que continua particularmente vivo na memória. Foi na Praça do Bocage, em Setúbal, durante a Feira de Sant’Iago, na década de 80. “O concerto teve problemas técnicos e foi adiado uma hora e meia. A praça estava cheia e acabou por ficar praticamente vazia. Pensei que tinha corrido tudo mal. Mas quando o espetáculo começou, as pessoas voltaram todas. Nunca me esqueci disso.”
A família ocupa também um lugar central na autobiografia. Casado atualmente com Daniela Correia, depois de um primeiro casamento com Tina, Toy faz questão de destacar a importância dos filhos (Leandro, Lara e Beatriz) e dos textos escritos pelos familiares que integram o livro.“A família sempre foi extremamente importante para mim.”
Apesar da autobiografia e de mais de 20 álbuns editados, garante que ainda há objetivos por cumprir. O maior passa por levar a sua música ainda mais longe. “Gostaria de internacionalizar mais o meu trabalho. O ‘Coração Não Tem Idade’ tocou em muitos países, mas ainda gostava de chegar mais longe, sobretudo ao Brasil e a alguns países africanos.”
Angola surge como um exemplo desse crescimento. “Já lá fui cantar várias vezes e noto que a música está a chegar cada vez mais às pessoas. Da última vez já havia tantos angolanos como portugueses no público. Isso foi muito especial.”
“Toy — Coração Não Tem Idade” já se encontra disponível online para pré-encomenda, com o valor de 16,65€. A apresentação da autobiografia está marcada para a Feira do Livro de Lisboa e contará com uma conversa com o cantor, seguida de um momento musical acompanhado à guitarra.








