Aos 41 anos, decidiu trocar uma das maiores cadeias livreiras do País por um projeto próprio. A Subtil abriu a 4 de julho, em Almada, e quer recuperar uma ideia que Bruno Leão considera cada vez mais importante: uma livraria onde a escolha dos títulos não seja feita apenas em função das novidades e onde os leitores possam encontrar-se, conversar e descobrir editoras mais pequenas.
O percurso do proprietário, curiosamente, podia ter seguido numa direção bastante diferente. Bruno estudou Informática, mas os primeiros empregos acabaram por surgir em livrarias. Gostou do meio e nunca mais saiu.
“Sempre vivi rodeado de livros e passei os últimos 20 anos a trabalhar numa grande cadeia livreira. Este mundo não era desconhecido para mim”, conta à NiT.
Com o passar dos anos, porém, começou a sentir algumas limitações. “Percebi que queria fazer um pouco mais do que aquilo que conseguia fazer onde estava. Foi isso que me levou a criar este espaço.”
A diferença começa na seleção. Em vez de tentar colocar nas estantes todas as novidades que chegam diariamente ao mercado, Bruno faz a própria curadoria e escolhe os títulos que considera encaixarem na identidade da Subtil.
“Não quero ter todas as centenas de novidades que saem. Escolho aquelas que fazem sentido e, dessa forma, tento criar uma personalidade para a livraria”, explica.
A Subtil não vive apenas de lançamentos. Nas estantes convivem livros novos e usados, sendo estes últimos uma das áreas que mais tem despertado a curiosidade dos clientes desde a abertura.
Há ainda uma aposta em pequenas editoras independentes que, segundo Bruno, nem sempre conseguem ter a mesma presença nas grandes cadeias. Entre as editoras representadas encontram-se a Língua nos Dentes, Teatro Padrasto, Laika Edições e Desmuro.
Quanto aos géneros, a procura dos primeiros dois meses já ajudou a definir algumas das áreas fortes da livraria. Poesia, ficção literária, teatro e ensaio estão entre os géneros mais procurados, embora a seleção não se limite a estas categorias.
O objetivo é que a curadoria permita encontrar títulos que poderiam passar despercebidos noutros espaços. Nas prateleiras convivem autores contemporâneos com clássicos e edições antigas. E é aí que entra outra das características da Subtil: dar uma segunda vida aos livros.
Os títulos novos seguem os preços definidos pelas editoras, tal como acontece nas grandes cadeias. Já os livros em segunda mão rondam os 5€, enquanto algumas edições especiais podem custar cerca de 7€.
“Há muitas pessoas que têm livros em casa e já não sabem o que fazer com eles. Quis também criar um espaço onde lhes pudéssemos arranjar uma casa nova”, explica Bruno. Os clientes podem, assim, levar até à Subtil exemplares que já não querem guardar para que possam chegar a outros leitores.
E há quem procure justamente o desgaste, as capas antigas e as edições que já passaram por várias mãos. Bruno dá como exemplos autores como John Steinbeck e Honoré de Balzac, cujas edições mais antigas despertam interesse.
“Um livro com 20 ou 30 anos já traz uma história consigo. Há um certo charme nisso”, diz.
A experiência acumulada ao longo de 20 anos também ajudou Bruno a perceber que não queria que a Subtil fosse apenas um local onde alguém entra, compra um livro e sai. Desde o início, o projeto foi pensado com uma vertente comunitária.
E essa parte deverá tornar-se cada vez mais visível nos próximos meses. Já estão previstas apresentações de livros, noites de poesia e clubes de leitura. A livraria também pretende abrir espaço a autores locais e independentes, incluindo aqueles que optam pela autopublicação.
No interior existe ainda uma pequena galeria de arte, pensada para dar visibilidade a artistas da região e acolher diferentes trabalhos.
“Quando falo num lado comunitário, quero mesmo juntar as pessoas e fazer coisas”, explica. A ideia passa também por criar um pequeno contraponto às horas passadas diante dos ecrãs.
Bruno resume o objetivo de forma simples: “Quero que as pessoas saiam um bocadinho dos telemóveis, se juntem, falem e conversem sobre livros.”
Dois meses depois da abertura, a Subtil ainda está a construir essa comunidade. Mas, depois de 20 anos a trabalhar nas livrarias dos outros, Bruno tem agora finalmente as chaves da sua.








