Livros

Um guia para sobreviver ao fim de uma relação — de uma forma positiva

“Divórcio Positivo” é um novo livro que dá dicas e métodos sobre como lidar com os diferentes aspetos de uma separação.
Este ano está a ser particularmente difícil para muitos casais.

Cada caso é um caso, mas quando um casal se divorcia, significa que existe uma quebra na relação. Ou seja, acaba sempre por ser uma experiência negativa e marcante. Contudo, existem formas de atenuar esse processo e completá-lo da forma mais positiva possível.

É isso que propõe o livro “Divórcio Positivo”, que se apresenta como um “guia de sobrevivência para lidar com o fim de uma relação”. Foi escrito por Marta Moncacha, que é assistente social há 20 anos, foi a autora do blogue “Dolce Far Niente” e é especialista nesta área.

Há dois anos que faz sessões com mulheres que estão a passar por divórcios, de modo a tentar ajudá-las com dicas e métodos que podem tornar tudo mais fácil. Já acabava por o fazer através do blogue e das redes sociais com os seus seguidores, mas agora fá-lo de uma forma mais séria e profissional.

A própria história de Marta Moncacha tem tudo a ver com o livro. Filha de pais divorciados, e divorciada do primeiro marido (com quem tem três dos quatro filhos), Marta tanto tem o conhecimento profissional como a experiência pessoal nesta área.

O livro, que foi publicado no final de agosto e que está à venda por 14,90€, é uma edição da Manuscrito, chancela que fez o convite a Marta Moncacha para publicar este trabalho há cerca de cinco anos.

“Na altura eu escrevia diariamente um blogue que se chamava ‘Dolce Far Niente’, uma espécie de diário em que ia falando sobre a minha nova vida. Eu tinha-me divorciado, entretanto tinha reencontrado o amor, voltado a casar, estava novamente grávida e a Manuscrito achou que podia ser interessante fazer um livro sobre este tema”, conta à NiT.

É uma temática universal, que tanto podia resultar num livro neste momento ou há cinco anos, mas a autora considera que esta foi uma boa altura. “Curiosamente agora fez todo o sentido porque passámos uma quarentena, em que as famílias estiveram confinadas em casa com tudo o que de bom e de mais desafiante isso pode trazer, e inclusivamente tive um boom de procura de mulheres que estavam a atravessar uma fase muito difícil. Havia muitas dúvidas, conflitos familiares, e eu estava mesmo a terminar o livro.”

Foi há dois anos que começou a fazer sessões enquanto “divorce coach”. Antes disso, além da licenciatura que já tinha em Política Social, fez pós-graduações de Mediação de Conflitos, com especialização em Mediação Familiar e em Parentalidade e Educação Positivas.

“Confesso que fui estudar para eu próprio me resolver depois do meu divórcio, foi mais por consumo doméstico [risos], mas depois percebi que me fazia sentido e que me daria gozo trabalhar na área.”

O trabalho enquanto divorce coach aumentou “imenso” a partir de março e abril, quando as famílias se fecharam em casa e os conflitos e problemas escalaram. Marta Moncacha atualmente só faz sessões online e privadas, com mulheres de todo o País (ou que até podem estar fora de Portugal) e explica à NiT porque optou por apenas trabalhar com mulheres.

O livro tem quase 200 páginas.

“Eu sou mulher, vivi muito o divórcio no feminino, quando os meus pais se divorciaram fiquei com a minha mãe em casa e também vi muito as dores dela, por isso foi uma decisão minha.” 

Sobre se existem diferenças na forma como os homens e as mulheres, de modo geral, lidam com o processo de divórcio, a autora recusa generalizações, apesar de apontar que existem diferenças sociais, económicas e até culturais. 

“Não quero de todo dar a entender que os homens não têm dores ou sofrimentos com o divórcio, obviamente que têm, mas o divórcio no feminino tem características diferentes. Muitas vezes as mulheres ainda recebem menos do que os homens, ainda são muitas vezes vistas como as cuidadoras principais dos filhos, o que tem vantagens mas também muitas desvantagens, ainda sinto que há um enorme preconceito relativamente às mães que se divorciam, e então quando falamos das mulheres mães que tomam a própria decisão do divórcio… apesar de estarmos no século XXI ainda existe um grande estigma. Por isso há especificidades diferentes, há muito trabalho a fazer e muito por desbravar.”

Nas sessões, Marta fala das suas experiências pessoais, que foi, no fundo, o que serviu de base ao seu trabalho, à sua reflexão sobre o divórcio e às melhores formas de lidar com ele. No livro, que começa por responder a perguntas que habitualmente lhe fazem, também conta parte da sua história.

“Há uma pergunta que é transversal, que é: ‘isto vai traumatizar inevitavelmente os nossos filhos?’ É uma pergunta que recebia muito no blogue, que recebo no Instagram. A resposta é que o divórcio é um acontecimento na vida dos pais e dos filhos que marca sempre. Mas não tem necessariamente de marcar negativamente a vida dos filhos. Acho que podemos ter filhos muito resilientes quando o divórcio é bem gerido pelos pais.Aquilo que costumo dizer é que o nível de impacto que vai ter nos filhos depende diretamente da maneira como os pais, que são os adultos, gerirem o divórcio. Portanto, a grande responsabilidade é dos pais. Os filhos são confrontados com uma decisão e eu que tenho três filhos cujos pais estão separados e sei que estão bem resolvidos, sei que o impacto depende da maneira como os pais gerem o divórcio. E é aí que tento contribuir com o meu trabalho.”

Segundo a especialista, o maior erro cometido pelas pessoas que estão a passar por um divórcio é “apontar o dedo ao outro”. 

“Eu fui professora de dança há muitos anos e gosto sempre de fazer esta analogia. Para dançar o tango é preciso que haja dois. E nesta coisa, quer do casamento quer do divórcio, é igual. Não há aqui vítima nem culpado, há duas pessoas que são responsáveis por um casamento e por uma separação. É muito fácil e tentador apontarmos o dedo ao outro e acharmos que ele é que fez mal, que não chegou, que o outro não nos fez sentir, que o outro é que nos deixou, mas raramente, quando estamos toldados pelas emoções — e aqui contra mim falo, porque eu também passei por este processo, não são só os outros — raramente questionamos qual é que foi a nossa quota parte de responsabilidade e como é que podemos crescer com isto.”

Marta Moncacha diz que o outro erro mais habitual tem a ver com os filhos. “É tornar os filhos um joguete, é a manipulação dos filhos. Às vezes os homens e mulheres ficam tão zangados e frustrados, têm tanta raiva — e atenção que estas emoções são completamente normais —, que a arma de arremesso são os filhos. E isso, sim, é destrutivo para os miúdos. O conflito parental é absolutamente destrutivo. Não é o divórcio que destrói e que traumatiza os filhos, é o conflito — e ele também existe em casamentos.”

Marta Moncacha tem quatro filhos e passou por um divórcio.

Para ajudar a perceber melhor o processo de divórcio, Marta Moncacha dividiu em fases aquilo a que chama o “mapa emocional do divórcio”. A primeira fase é a da pré-separação, quando se toma a decisão do divórcio; a segunda é a da concretização da separação; segue-se a mais problemática, do “caos emocional”; em quarto existe o “admirável mundo novo”, quando as pessoas voltam a descobrir-se individualmente; e a quinta e última fase é a da “maturidade”, de “honrar o passado para construir o futuro”.

“Há várias fases por que todos passamos. Percebi nas sessões que, quando as mulheres conseguem identificar em que fase é que estão… é como se fosse um GPS do divórcio. ‘Se calhar não sou só eu que passo por isto, se calhar isto até é natural’, acho que ajuda a dar uma luz ao fundo do túnel. ‘Se não passar por esta fase, não vou conseguir atingir a maturidade e poder construir o futuro’. Ajuda a localizarem-se no processo, a tomarem consciência do que está a acontecer e dá-lhes esperança.”

Como explica, cada caso é um caso e existem pessoas que podem ficar muito tempo numa fase, ou viver cada uma com maior intensidade. “Provavelmente as pessoas que tomam a decisão são pessoas que mais rapidamente atravessam essas fases. Porque já fizeram trabalho anterior. Ainda que tenham muitas questões, como a culpa e o medo, são processos por vezes mais rápidos.”

A autora diz também que neste processo “é fácil não sermos a nossa melhor versão” e que por isso é útil contarmos com a ajuda de pessoas à nossa volta, sejam familiares, amigos ou profissionais, mas “que não sejam tóxicas”. “Que estejam ali para acolher a dor e não para a incitar.”

O livro tem uma série de métodos e dicas práticas — coisas simples como usar o vocabulário certo para não tornar o divórcio numa experiência tão negativa, até para os filhos — que qualquer pessoa pode usar no dia a dia, consoante a sua situação, para que tudo corra melhor. “São exercícios que fiz comigo própria e que faço com as mulheres que me procuram. Às vezes parecem coisas muito simples mas são profundamente transformadoras.”

Para Marta Moncacha, existem três eixos principais no seu modelo de divórcio positivo. São três áreas essenciais em que é necessário trabalhar. 

Comunicação 

“Muitas vezes não é aquilo que dizemos, mas a maneira como dizemos que faz a diferença. É manter a comunicação positiva, e quando digo positiva não significa que temos de ficar amigos daquela pessoa. A comunicação muda, porque há uma retirada de intimidade. Agora, havendo filhos em comum, aquela relação vai manter-se para a vida toda. E por isso têm que reaprender a comunicar, numa nova linguagem, e a comunicação positiva é um fator chave para que as coisas fluam bem e isso aprende-se, a comunicar de forma não violenta, de forma mais assertiva, e é um dos pilares do meu trabalho, até porque também sou formadora na área da comunicação.”

Coparentalidade

“Outra área-chave tem que ver com o exercício da coparentalidade no divórcio. Se já é super desafiante sermos pais e mães numa situação em que vivemos com a outra pessoa, imagine educar quando já não existe uma relação romântica como base. Essa também é uma área que é fundamental: aprender ou reaprender a educar, e a reaprender a parentalidade, num contexto em que os pais já não estão juntos.”

Desenvolvimento pessoal

“Outra área muito focada no divórcio no feminino é a do desenvolvimento pessoal. Isto é, ajudar aquelas mulheres a perceberem que oportunidades é que o divórcio também lhes traz. Porque normalmente a narrativa do divórcio é super negativa, aquela ideia de que a família fracassou, que saiu destruída, aquelas expressões horríveis tipo ‘filhos do divórcio’. Muitas vezes as mulheres que me procuram nem sequer se lembram do que é que elas gostavam nem de quem é que elas eram antes do casamento e da maternidade. E portanto o divórcio muitas vezes é um separador de águas. Isto terminou, vou ter de reaprender a viver numa outra lógica, então o que é que vou resgatar que já gostava, o que é que me dava gozo, o que é que quero experimentar e que oportunidades é que isto me traz? 

Há ali uma identidade conjugal, que muitas vezes é forte, sobretudo quando falamos de relações muito longas, e de repente quando ela termina nós temos de voltar à nossa identidade pessoal, que nunca devíamos ter perdido mas que às vezes é inevitável no meio do caminho. É um trabalho de ‘quem eu sou, do que é que gosto de fazer, quem sou enquanto mãe e pai’ além da relação com aquela pessoa, é um trabalho de desenvolvimento pessoal.”

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