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Valter Hugo Mãe: “Não quero assistir ao regresso da estupidez. Quero combatê-la”

O escritor está de volta com novo livro, o mais pessoal de sempre. Chamou-lhe "Contra Mim". A NiT falou com ele.
Fotografias de Ana Esteves Brandão.

Aos 49 anos, Valter Hugo Mãe tem novo livro, um que a pandemia lhe solicitou. “Contra Mim” é a sua obra mais pessoal e obrigou-o a olhar para os seus tempos de miúdo. O trabalho é também uma espécie de surpresa de um escritor que durante anos admitia que achava que não ia passar dos 40.

À NiT, o escritor admite que até agradeceu o isolamento a que a pandemia o obrigou. O escritor que adotou as Caxinas como sua casa continua a preferir o seu lado solitário e perder-se no seu mundo, mas não deixa de olhar para o nosso tempo com algum sentido de obrigação: não se pode ficar calado e à parte enquanto se assiste “ao desmoronamento do mundo”.

O novo livro de Valter Hugo Mãe, “Contra Mim” (16,60€), é uma edição da Porto Editora e já se encontra à venda nas livrarias e online.

É normal que um escritor goste do isolamento para escrever. Este tempo de pandemia foi útil ou não ajudou?
Até me custa um pouco dizer assim, que há tanta gente a padecer e os números a aumentar, mas a pandemia acabou por me trazer um certo privilégio. A possibilidade de estabilizar em casa, de criar outra vez rotinas que são sobretudo criativas, é algo com que não estava a contar e ansiava há muito. Até tenho a sensação de que, independentemente do fim da pandemia, me interessa manter algumas rotinas e possa estar mais por casa, a dominar o meu tempo mais do que vinha dominando.

Teve mais tempo para ler?
Sim. Vou sempre acumulando livros e passei a vida inteira à espera de um instante ideal que pudesse dedicar à leitura. Mas quando chega uma disponibilidade assim, maior, o que me acontece é que sinto vontade de criar alguma coisa. Sinto vontade de escrever, de desenhar, de pintar e acabo por sobrepor isso às pilhas de livros. A experiência de fazer é sempre mais forte. Mas tenho lido mais e com mais consequência. Mando vir livros pela Internet, estou mais demorado a ler sem sentir aquela urgência de que se não acabar um determinado livro numa viagem de avião não sei quando vou ter tempo. Leio com um prazer e uma calma que já não me acontecia há uns bons anos.

Quando escreve costuma ter cuidado com o que lê?
Sim, não leio nada que me possa desviar da minha própria obsessão e estética. Normalmente fico por leituras mais técnicas, de apoio. Funciono de forma obstinada, tenho tendência em criar uma realidade paralela e desaparecer nela até terminar o livro.

No novo livro, “Contra Mim”, encontramos pequenos contos, episódicos. É um romance, uma coleção de histórias, como o descreve?
Funciona como as memórias, a pessoa vai tirando uma coisa, lembra-se de outra, e curiosamente quando nos abeiramos de um texto autobiográfico é mais difícil fazê-lo como um todo lógico, como quando criamos uma ficção. Aí é mais fácil estabelecer momentos de causa e efeito. Podemos transformar aquela mentira em algo plausível. Quando lidamos com a realidade, ela é díspar, é paradoxal, fragmentária. Há instantes dos quais não nos lembramos ou não entendemos bem. As coisas parecem menos casadas, por isso resulta em algo mais episódico. É a natureza das coisas.

É a sua obra mais pessoal. Porquê nesta altura?
Foi o que a pandemia me solicitou. Este intenso regresso a casa acaba por ser uma obrigação de regressarmos a nós mesmos. De alguma forma estamos todos convocados para uma certa sobrevivência. Enquanto imersos na normalidade vamos distraídos, julgando que, mais do que sobreviver, estamos ocupados com a vida. Ao regressar a casa desta forma, e a ficarmos quietos, parece que somos colocados diante de um espelho e a nossa capacidade de lidarmos com quem somos é posta à prova. Para mim foi um pouco inevitável que a pandemia me obrigasse a uma reflexão íntima, não tanto de saudade ou de glorificar o passado, que não é o que me interessa, mas como pista para o futuro.

Escrever este livro mudou a forma como olha para a sua infância e adolescência?
Algumas coisas mudaram, sim. É curioso que são as minhas memórias mas ao trabalhar com elas existe toda uma meditação que acarreta uma espécie de novo clarão. Há muita coisa que talvez não lembrasse tão bem, ou do sentimento. No livro está sobretudo em causa, mais do que o que as coisas eram, o que me fizeram sentir. E esse sentimento foi recuperado pelo processo de escrita.

São tempos felizes, os do livro?
É um pouco de tudo. Eu diria que a infância é sempre um tempo de entusiasmo, até de uma certa euforia. Mas a maturidade e a idade adulta explica-nos um pouco a infância. E há coisas que passamos nesse frenesim de ser criança que mais tarde se apresentam como coisas assustadoras ou até perigosas. Acima de tudo fui uma criança que conseguiu ser feliz. Lembro-me me de mim alegre na infância, era um miúdo um pouco introspetivo, talvez algo calado, estranho, mas alegre. Essa estranheza nunca me retirou a possibilidade de me divertir.

Antes do Valter Hugo Mãe houve uma história de amor quase proibido entre os seus pais. É uma premissa bem literária de começar a sua história, não?
Eu tentei que o livro fosse sobretudo a minha memória direta, porque é ela que está em causa, mas achei irresistível começar com a história dos meus pais e fazer aquele enquadramento. De facto namorava-se assim, havia muitas limitações, os meus avós maternos protegiam a minha mãe como se ela fosse de vidro e o meu pai viu-se um bocadinho grego para conseguir que o deixassem namorar e mais tarde casar.

Este título, “Contra Mim”, deixa no ar algo de acusatório.
Sim, fica no ar uma certa dúvida do que é exatamente contra mim, se é o livro, o mundo, eu próprio, mas o livro acaba por se explicar. Há qualquer coisa na poesia que é inelutável, que é importante para mim, de tal modo que nem que me abata eu vou exercê-la. É uma declaração de essência para com a arte e a escrita.

A ilustração da capa, de Agostinho Santos, tem o escritor, nu, mas não em nu frontal. Tendo em conta o tipo de livro, sentiu-se mais ou menos despido do que na célebre capa de Pornografia Erudita?
Sabe que quando falei ao Agostinho que gostaria que ele fizesse a capa do livro, e eu conheço bem o trabalho dele, não estranhei que ele me representasse assim. Só depois me ocorreu que não tenho roupa aí. Não me senti exatamente despido, é mais representado pelo Agostinho. Ele não é um artista dos têxteis [risos], não representa as pessoas vestidas com nada, estão sempre na sua formatação essencial. Mas acho que está adequado que haja, para um livro assim, essa limpeza do corpo, que esteja despojado.

A pandemia teve o seu lado de privilégio.

Quando é que percebeu que era possível ganhar a vida como escritor em Portugal?
Eu ainda continuo a achar estranho. Às vezes até nem sei se deva confiar muito nisso mas a verdade é que há cerca de 20 anos que vivo de direitos de autor. Também não sou um individuo abastado, não cometi loucuras, fui procurando ter o que posso ter, mais do que aquilo que eu quero. Mas também é verdade que aquilo que quero é continuar a escrever. Prefiro manter-me ajuizado e prudente e continuar a escrever do que empenhar-me numa casa de sonho e depois ter de me meter noutro emprego para pagar a tal casa de sonho que virou pesadelo. O meu sonho é poder estar livre para escrever.

É pequeno, o meio literário português?
Não é muito grande, não. O país é pequeno mas acho que temos grandes escritores, uma literatura exuberante, madura, acho que já devíamos ter sido agraciados com vários prémios Nobel, não apenas um, e se considerarmos toda a literatura em português, ainda mais que o Brasil é uma potência literária. Temos pouca terra, acabamos por nos cruzar uns com os outros e tornamo-nos inevitáveis uns aos outros. Espanha, nossa vizinha, é suficientemente grande para que as coisas respirem de outra forma. As diferentes cidades podem polarizar movimentos. Nós aqui estamos muito concentrados em Lisboa, e mesmo os que não são lisboetas passam boa parte da vida lá. Isso diminui um pouco o tamanho do país e o que pode brotar de outras nuances.

Não é o seu caso. Continua a viver nas Caxinas?
Sim, continuo.

É algo que passa para as letras?
Creio que sim, para além de dezenas de crónicas, as Caxinas são um ponto fundamental do meu pensamento, um ponto de vista. Tenho muito interesse em que o País tenha mais do que 50 quilómetros quadrados. Interessa-me contribuir para que pelo menos não se torne mais pequeno do que já é. Entendo que em Lisboa facilite alguns contactos mas prefiro viver num país maior, estar onde estão os meus familiares e amigos de sempre e emanar daqui o que posso imaginar.

Tem com as Caxinas aquela relação de ser o escritor da terra? Metem-se consigo quando passa?
Ignoram-me quase sempre. Estão tão habituados a mim. Quando escrevo uma crónica sobre as Caxinas acontece virem mais opinar ou até pedir para falarem especificamente sobre alguma coisa.

Nunca se zangaram consigo?
Não. Também nunca fui propriamente agressivo em relação às Caxinas. Posso opinar sobre as políticas, às vezes chateiam-me. mas não me chateiam mais do que posso chatear a eles. Também posso ser bem chato [risos]. Ainda não escrevi um livro sobre as Caxinas mas julgo que mais tarde ou mais cedo encontrarei o enfoque que me interessa para contar uma história caxineira. Também me é muito confortável viver num lugar onde passo, não é desapercebido, mas onde não existe ainda uma vontade ou necessidade de se me dirigirem. Talvez porque ainda não me dirigi substancialmente a elas também. Mas isso é interessante, deixa-me criar o meu mundo, as minhas rotinas sem atraso, um sossego que é isso de que preciso para poder estar aqui a imaginar o que me apetecer, mais do que a corresponder a pulsões sociais. Quando se vira um escritor num lugar parece que estamos ao serviço da sociedade, uma espécie de convidado obrigatório dos jantares da autarquia, e eu não quero muito essa ocupação.

E fora das Caxinas, metem-se consigo?
É comum que me reconheçam e abordem. Há lugares onde é difícil passar sem que alguém me venha dizer alguma coisa. Numa livraria, num cinema, nestes meandros da cultura há sempre leitores e quem tenha gosto em vir dizer ou perguntar alguma coisa. Não tenho nenhum problema com isso, muito pelo contrário. Fico muito contente que as pessoas o façam, que existam leitores ao ponto de saberem quem é o escritor e ao ponto de lerem escritores portugueses.

Qual foi a coisa mais surpreendente que um leitor já lhe disse?
Já me aconteceu tanta coisa tão incrível. Já me raptaram [uma história que contámos aqui], já me levaram para casa, já me ofereceram jantares, já me enganaram para eu ficar à espera de alguém que queria um autógrafo. Houve muitas coisas que me marcaram mas uma vez um senhor, um psicólogo de Leiria, pediu-me que assinasse dois exemplares do “Filho de Mil Homens”. Disse-me que seria um para cada uma das filhas, porque se não lhes deixasse rigorosamente mais nada gostaria que sobrasse pelo menos aquele livro, que continha o o que ele achava que seria uma grande herança para alguém. A importância que ele colocou no livro, a urgência com que me abordou, marcou-me. É muito gratificante um elogio desses.

Como é que é a sua relação com as redes sociais? Pergunto porque às vezes há um mundo de distância entre o que as pessoas dizem pessoalmente e o que encontramos online.
Estou presente, tenho página no Facebook e Instagram, mas uso cada vez mais de uma forma lacónica, para emitir algum tipo de informação, coisas de trabalho, e de vez em quando partilhar umas imagens simples. As redes transformaram-se em espaços de perturbação pura. As pessoas além de serem instrumentalizadas por forças políticas, ideológicas, por forças extremas que procuram desestabilizar, também é verdade que [as redes sociais] estão nas mãos de pessoas desocupadas e há muita gente desocupada por frustração, por doença, por doença mental, e há todo esse universo de pessoas instáveis, em conflito consigo mesmas que de repente tem uma ferramenta de emissão que acaba por criar um ruído desmesurado e que pode ser destruidor.

É algo de que se afasta.
Não estou muito interessado em estar exposto ou em lidar com isso. Posso dizer que qualquer disparate, qualquer agressão, que alguém deixe num dos meus perfis, não me merece resposta. Imediatamente bloqueio. Houve uma vez ou outra, antigamente, em que tentei razoabilizar num diálogo com alguém que me pareceu simplesmente delirante mas desde há muitos anos que pura e simplesmente não entro em diálogos com absurdos, perfis falsos. Não faz sentido. Só faz sentido ir eliminando da Internet essas pessoas, esses perfis falsos. E acho que é o que toda a gente devia fazer.

À hora a que falamos ainda não estão fechadas as eleições nos EUA. Qual é a relação que um escritor deve ter com a atualidade? Há algum limite que imponha para não ser invadido pelo dia a dia?
A mim não me interessa muito deixar um retrato de repórter deste tempo. Para isso há o trabalho incrível que os jornalistas podem fazer. Eu não sou jornalista nem tenho essa formação ou sequer inteligência de fazer as perguntas para um retrato do real. O meu perfil é mais poético, de ficção, está no espetro da arte e a arte é um pressentimento, mais do que informação. É uma intensificação de sinais. Quando um livro meu responde a uma questão, por válida que seja, não vem de uma entrevista, de estatísticas, de informação, vem desse pressentimento do que a realidade deve ser. Mas enquanto cidadão acho que os escritores, podendo ter uma voz pública, seria leviano poder ter essa voz pública e não usar para nada ou só usar para promover o meu trabalho enquanto assisto ao desmoronamento do mundo.

Novo livro é um olhar sobre as memórias.

É algo que o preocupa.
Há questões, desde logo questões políticas, que são fraturantes e com as quais me debato. Não posso assistir quieto ao regresso do racismo, da xenofobia, no fundo, do regresso da estupidez. Quero entender porque é que as pessoas de repente se deixam deslumbrar pelo grotesco. E por ser grotesco quero combatê-lo.

Sente que é uma obrigação da cultura ter essa preocupação com os tempos que vivemos?
Sim. Se um criador não estiver comprometido com o seu tempo, se não estiver comprometido com causa nenhuma, ele está a criar o quê? Um adorno? Um enfeite para a sala? Não estou interessado em que os meus livros enfeitem o pensamento, são para criar pensamento. Interessa-me que os livros sejam uma criação, não um bibelô. Interessa-me a beleza, obviamente, mas interessa-me uma ética profunda. Uma das coisas mais revoltantes é perceber pessoas com carreiras consumadas, tão bem sucedidas, a viver em casas de luxo, com os filhos criados em colégios exclusivos, com dinheiro para três gerações, e que perante a atrocidade assobiam para o lado como se não tivessem visto. São pessoas que consomem mas não são cidadãos. Se a boca não abre para defender contra a atrocidade, só serve para comer.

Foi durante alguns anos o escritor das minúsculas. O que é que mudou?
As minúsculas eram um aspeto formal que tinha de aludir a uma igualdade entre as coisas, em que tudo era colocado par a par e competiria ao leitor capitalizar o que entendesse. No entanto, ao completar a tetralogia que ficou conhecida como tetralogia das minúsculas achei interessante sair daquele universo das minúsculas. Muitas vezes debatia-se a questão formal da escrita mais do que os tópicos. Pareceu-me importante criar esse afastamento para que os assuntos viessem ao de cima.

Como é a sua relação com a música hoje em dia?
Ouço e ouço bem. Continuo a ouvir muito bem.

Já não é fundamental?
Não. Tenho um pólipo nas cordas vocais o que me dificulta em conversas longas e me impede praticamente de cantar. Em dez minutos fico afónico, não posso fazer grande coisa. Mas estou apaziguado com isso. Cantar é-me divertido, mas talvez não me seja fundamental. Sobrevivo na mesma e a minha obstinação continua a ser a escrita. Fico reduzido ao meu lugar mais comum de melómano, ouço música constantemente e sou ávido de encontrar nova música.

O Valter Hugo Mãe é um de muitos casos em que estudou Direito e acabou por se afastar da área. Não tinha jeito para advogado?
Até tinha. Fiz um belíssimo estágio e o meu patrono convidou-me para ficar como sócio, o que era um privilégio, mas não tive interesse. É aliciante o mundo do Direito mas em Portugal temos poucos casos galvanizadores. A maior parte das coisas que um advogado faz, e logo em Vila do Conde, passa por registos de propriedade e divórcio. Foi onde senti a maior vertigem mas ao fim do tempo leva a um cansaço, não há nenhuma novidade num divórcio. O Direito atrai-me porque é uma disciplina discursiva, é uma escola de ler, falar e escrever. É um curso perfeito para quem acaba por escrever romances, isto para quem o souber aproveitar. Não é acaso alguns dos bons escritores do mundo serem licenciados em Direito.

Em tempos dizia que não chegava aos 40 anos. Está quase nos 50. Ficou surpreendido com esta quase década extra?
Fico surpreendido, sim. Continuo a achar que sou muito deitado a morrer, mas sim, sobretudo é com alguma perplexidade que vejo o mundo a partir destes 49 anos porque vejo que não sou o velho que pressupunha que fossem as pessoas de 49 anos. Há uma juventude que perdura e que começo a achar que vai perdurar nem que viva até aos cem, mas isso faz com que para mim a surpresa é que o mundo seja ainda meu. Não tenho aquela impressão de que no meu tempo fiz isto ou aquilo. Sinto que ainda tenho tempo na mão.

“Contra Mim” é a obra mais pessoal do escritor.

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