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Valter Hugo Mãe: “Tenho saudades do café, de estarmos todos a monte e aos berros”

Arruinou o fígado com quilos de queijo e ficou deprimido com “The Crown”. O escritor respondeu ao inquérito da NiT para o confinamento.
(Foto: Tânia Teixeira)

Fechado em casa nas suas Caxinas de sempre, Valter Hugo Mãe passou o último ano de pandemia ao lado da mãe, com quem vive. Tem sido um ano difícil, mas “produtivo”, confessa.

O escritor de 49 anos é o primeiro a enfrentar o inquérito NiT para o confinamento, agora que voltamos, como em março, para o recolhimento das nossas casas. É certo que nem todos tiram parte do seu dia para escrever um romance, mas nas horas que sobram, Valter Hugo Mãe faz o que todos nós fazemos.

Confessa-se pouco adepto de séries — até porque criam nele uma viciação pouco saudável — e preocupado com a saúde: os quilos a mais acumulados durante o confinamento e a paixão por queijo que deixou mazelas no fígado.

E no que toca à leitura, a pandemia trocou-lhe as voltas e obrigou-o a deixar na estante os livros do seu autor favorito.

Com quem é que está a passar o confinamento?
Estou a passar o confinamento com a minha mãe, em casa dela, e por isso sou o empregado para todo o serviço.

Qual é a série de televisão que está a ver neste momento?
Vi “Hollywood”, na Netflix, e acabou muito mal. Foi uma merda o fim. Estava convencido que me estavam a mostrar um retrato verdadeiro da trama hollywoodesca e a maneira como falseiam o fim. Achei uma treta. Tem sete episódios mas só vale a pena ver seis.

Recomende-nos um livro que nunca devemos ler durante a pandemia.
Desde menino que o Kafka é o meu autor favorito. Neste instante, ler Kafka não é muito edificante para o espírito, porque a angústia que ele instala em cima de uma pandemia é uma receita suicidária.

Aproveitou este período para ver algum filme clássico?
Vi coisas do Bergman. Durante anos convenci-me que era o meu realizador favorito. Fui rever e é como se hoje a minha circulação sanguínea precisasse de outros realizadores. O Bergman é lindo como a morte, tem uma beleza morta, acabada, que é perfeita mas inútil.

Qual é a peça de roupa que mais repetiu durante este dias?
Este casaquinho com que estou. Tentei inclusive trazer um blazer mas depois não fui capaz de o tirar. É o meu casaco de conforto, de estar em casa. Estou com ele todos os dias.

Conte-nos o motivo da sua maior discussão familiar nesta fase?
Tive uma discussão com a minha mãe, porque ela abriu a água quente e o esquentador não estava a funcionar. Pedi-lhe para desligar porque se ouvia um ruído como se aquilo fosse explodir, mas ela achou que precisava mesmo da água e não desligou. Foi muito grave.

Depois deste confinamento, qual é a comida que nunca mais vai querer ver à frente?
Infelizmente, nunca mais vou querer ver a frente queijo, porque tive uma crise grave de fígado e parece que estourei com ele. Uma das razões é por ser um alarve de queijo e ter comido demasiado na primeira metade da minha vida.

Tem feito algum tipo de exercício físico?
Aconselho vivamente a que façam. Eu não tenho feito quase nada. Estava mais magrinho, agora estou mais gordo. Culpo-me. Espero ter o cérebro mais musculado.

Qual é o local da cidade de que tem mais saudades?
Tenho muitas saudades de ir para o café, de estarmos todos a monte e aos berros, a ser profundamente malcriados com os outros. Acho até que ascensão do populismo só acontece porque não nos podemos organizar para debater e lutar contra. Estamos atomizados.

Conte-nos aquele momento em que o tédio o levou a fazer o impensável.
Um dos momentos mais desoladores foi quando acabei “The Crown”, que vi tudo numa semana. É tão viciante que no fim passei dois ou três dias profundamente deprimido sem saber o que fazer à vida. Percebi que tenho que controlar essa pulsão de me entregar a uma série como se não houvesse mais nada para fazer no mundo.

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