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Valter Hugo Mãe: “Tenho uma fobia ao desperdício de tempo”

Enquanto prepara um novo romance, o escritor falou sobre o último ano de pandemia e como lidou com o confinamento.
O trabalho dominou o ano de pandemia do autor

A entrevista chegou com uma semana de atraso. Um pequeno grande percalço surgiu no caminho do autor. Um percalço em forma de queijo.

“Comi meio queijo e no dia seguinte nem me mexia por causa do fígado”, confessa antes de uma entrevista em pleno Estado de Emergência. Tal como a vida de todos os portugueses, também o dia a dia de Valter Hugo Mãe foi perturbado pelo surgimento de um “bicho”, como o próprio o apelida.

Do confinamento forçado no bairro das Caxinas onde mora há quase 40 anos, divide o tempo entre a tentativa de criar uma redoma de proteção à mãe — já com 81 anos — e assegurar a maior criatividade possível com o menor desperdício de tempo. A luta levou-o a editar videoclipes e até a sonhar com projetos visuais que acompanhem as letras que escreve.

E por falar em letras, essas também têm saído a bom ritmo. Depois de lançar “Contra Mim” no final de 2020, a disciplina que encontrou durante a pandemia permite-lhe sonhar em colocar uma nova obra nos escaparates. Se conseguir ultrapassar o seu lado de eterno insatisfeito, e provável que ela chegue algures em setembro.

Antes de regressar ao isolamento para terminar o livro, revelou à NiT como tem combatido o tédio, a pandemia, a angústia — e de que forma é que o caos que assola o mundo poderá infiltrar-se nas páginas que escreve.

Este isolamento forçado é a bênção com que todos os escritores sonham para poderem escrever sem distrações?
O início do isolamento forçado teve qualquer coisa de desintoxicação. Era nos imposta uma rotina havia criado uma dinâmica à qual nos agarramos. Foi difícil deixá-la, viciados que estávamos nas nossas próprias vidas e compromissos. Tudo nos parecia tão urgente. De repente, há uma violência imposta, física até. Sinto que fisicamente, nos primeiros meses, respondi de uma forma muito negativa. Passado esse impacto inicial e um certo susto — até por não sabermos em que perigo é que estaríamos metidos — começa a ser possível habituar o corpo, a domesticá-lo neste sentido muito literal, porque estávamos a devolvê-lo às tarefas da casa. Domesticar o corpo foi essencial e isso permite libertar a mente. Devo dizer que me disciplinei com algum rigor. Fui um bom aluno acerca do que se julga saber sobre os cuidados a ter com a pandemia.

E resultou?
A partir daí comecei a sentir-me mais potenciado em casa. Tenho estado a trabalhar mais do que nunca, em muitas coisas, a aproveitar o meu tempo. Tenho uma fobia ao desperdício do tempo ou ao fazer com que o tempo não seja construtor — e nem que me dedique a uns desenhos ridículos, bacocos, esforçados, passo o meu dia a capitalizar o tempo com a criatividade.

Chegou a dizer, depois do primeiro confinamento, que entrou num estado de ansiedade e de angústia. Como é que tem combatido isso?
O que me segurou no início foi sobretudo o acesso à informação, a confiar na informação possível. Por isso acho urgente que as pessoas aprendam a escolher as fontes de informação, para não cairmos ou deixarmo-nos embalar por isto que circula agora nos novos meios e que normalmente espalha a mentira, um anedotário, às vezes são só simples brincadeiras de alguém que se deu ao trabalho de as criar, mas que produzem ruído e levam as pessoas a convencerem-se de ciências que não existem, que são ilusórias. E nem é tanto por mim, embora esteja a caminho dos 50 e não sou tão jovem que me possa sentir incólume diante de um vírus deste género, mas estou a acompanhar a minha mãe que fez 81 anos e interessa-me criar um escudo de proteção em torno dela.

“Nem que me dedique a uns desenhos ridículos, passo o meu dia a capitalizar o tempo com a criatividade”

Considera a desinformação um dos grandes perigos desta pandemia?
É fundamental seguir meios de informação em imprensa que verdadeiramente está à procura de respostas e que não embarca em modismos que muitas vezes até são ideológicos, que predam as pessoas de modo a levá-las a votar num determinado sentido, e não tanto a cuidarem-se e a protegerem-se. Isso ajudou-me a diminuir a sensação de insegurança- Lembro-me que ainda estávamos na fase de não haver máscaras, mas para mim era já muito claro que não poderíamos andar sem elas. Por isso, desde muito cedo e por vezes muito humilhado — porque as pessoas apontavam para mim na rua —, eu já estava mascarado. Eu vivo numa comunidade nas Caxinas, que considero um pouco indisciplinada. É um lugar onde gosto de viver, vivo ali há quase 40 anos, mas por natureza é uma comunidade que não acata ordens. Tem pouca paciência para que venham ali mandar neles. E eu incluo-me um bocadinho nisso. No verão, quando o país estava francamente desconfinado, na zona de Vila do Conde atingíamos números recorde. Isso tem a ver com esse espírito. Por outro lado, durante este ano tive sempre a necessidade de redobrar os sentidos e de procurar fontes de informação.

Mostra-se sempre um bocadinho fatalista, até sobre a sua própria morte. Isso foi algo que o atormentou?
Tenho uma visão um pouco tremenda da vida. Acho que instalamos uma certa ansiedade pela felicidade, pelo bem-estar, mas isso é feito em cima de uma estrutura que em si é terrível. A vida, por natureza, é uma experiência de fraturas constantes e só a inconsciência ou talvez uma certa distração nos pode levar a alguma felicidade. Com o anúncio da pandemia foi sempre claro para mim que morreriam muitas pessoas — e a morte de uma pessoa por incúria do coletivo é sempre obscena. Já vamos acima dos 10 mil mortos e para mim é bíblico o suficiente para ser um horror. Até custa a crer que as pessoas não se horrorizem com eles, que não percebam que dizem respeito a corpos, a vidas, patrimónios de memória inteiros, a experiências amorosas, afetivas, de famílias. Estive sempre do lado daqueles que tentaram alertar, nas minhas crónicas, nas conversas. Escrevo algumas coisas violentas, com algum grafismo. Dizia há pouco tempo que estaremos agora a sepultar as pessoas com quem estivemos no Natal: os avós, os entes queridos. Isso é algo terrível de se dizer, é feio, mas é uma forma de dizer que se pare, que partamos todos de um ponto de consciência tal que possamos mudar a nossa conduta para que mais ninguém precise de ser vítima deste vírus. Um vírus que viaja pelas nossas mãos. Somos nós que o oferecemos uns aos outros.

“A morte de uma pessoa por incúria do coletivo é sempre obscena”

Encontrou a esperança no meio de todo o fatalismo?
Sou um indivíduo esperançado, mas não creio que a humanidade vá melhorar. Havia uma certa tendência para se achar que, assustados com isto e vítimas deste predador, que a humanidade sairia disto melhor, mais capaz de ser solidária e de cuidar dos vizinhos. Desde o início achei que não. Muito pelo contrário. Abre-se a porta para todos os oportunismos. Se formos levados à condição de pura sobrevivência, ao medo de lutarmos pela vida, o que provavelmente se vai acentuar é o egoísmo e a tentativa de sobrevivermos e deixarmos o vizinho à míngua. É por isso que se está a criar a plataforma perfeita para o populismo crescer no nosso País e no mundo inteiro — e as pessoas embarcam facilmente porque começa a ser difícil entender o que é uma falha política e uma falha absolutamente normal na gestão de uma pandemia. Quem tem a obrigação de administrar a coisa pública durante um tempo destes, claro que está votado a falhar, quem não tem obrigação de não fazer nada, por definição não vai falhar. Que não faz, de facto, não erra. Só aqueles que estão no ofício de fazer é que podem errar. Essa confusão vai gerar uma questão política que está a ser já aproveitada pelas intenções mais nojentas.

Como é que vê o crescimento desses fenómenos?
Tendo crescido nos anos 80 com uma certa euforia — porque foram anos em que o mundo e sobretudo a Europa foi conquistando uma ideia de paridade e igualdade, com a queda do muro, o fim da guerra fria, todo aquele clima que nos ameaçava —, tendo vindo desse tempo, não posso aceitar que exista qualquer simpatia, por exemplo, com ideologias de inspiração nazi. Acho o fim da estupidez e o início da culpa. A estupidez precisa de ter limites. A ignorância, se for ingénua, se for genuína, é muito respeitável. Somos todos ignorantes de muita coisa e movemo-nos como podemos e sabemos o que podemos saber. Mas a ignorância também tem um limite para ser ingénua e para ser aceite. A partir de um certo ponto pode tornar-se um crime e por isso a estupidez que está a ser instalada é do foro do crime — e é absolutamente inaceitável.

“A partir de um certo ponto a ignorância pode tornar-se num crime”

Extrema direita, populismo, tudo isso aliado ao momento histórico que vivemos. De que forma é que essas experiências se traduzem na obra?
Aquilo que escrevo foi sempre tingido por causas, por convicções muito claras que diria que são convicções humanistas mais do que imediatamente políticas. Sou um indivíduo que politicamente nãos e vincula, respeito projetos mais à esquerda e mais à direita, mas sou claramente um indivíduo moderado, no sentido em que acho que a democracia só faz sentido ou só é exercida se for uma vocação de integração de toda a gente. A partir do momento em que temos projetos de exclusão de alguém, deixam de ser projetos democráticos. Na minha obra, não tendo por natureza uma fixação partidária, defendo ideias e sobretudo pressupostos que me parecem necessários à construção de uma ideia da humanidade: isso tem que ver com a paridade, a de género por exemplo, a dignificação de todos os indivíduos, o direito à diferença. É isso que está em causa, o direito a sermos diferentes. A igualdade que é possível. Não é possível sairmos todos à rua com os mesmos rostos, os mesmos corpos e as mesmas ideias. A única possibilidade é que possamos sair à rua com ideias diferentes e é isso que está no meu trabalho. Tenho alguns apontamentos sobre estes tempos de pandemia, é inevitável. Traduzem alguns sentimentos ao longo desta experiência. Mas tenho resistido a escrever algo que seja especificamente uma exposição ou análise da pandemia.

Porquê?
Creio que ainda estamos demasiado imersos nesta experiência, num período muito táctil, à procura de descobrir o caminho de saída e ainda não é possível imaginar o resultado. Ainda não sabemos muito sobre como ficaremos, como seremos depois de verdadeiramente libertos. Uma das coisas que tenho reparado é que os autores, filósofos e pensadores do nosso tempo que se apressaram a escrever sobre a pandemia, normalmente produzem um espanto que se torna obsoleto em dias. Imersos neste espanto, não é muito interessante que nos precipitemos a redigir e a tentar traduzir já o que isto é. Aquilo que tenho anotado são quase só episódios, factos que depois me podem permitir alicerçar em cima desses dados um pensamento. É verdade que há uma experiência quase diarística acentuada que não existia previamente, mas tenho tentado que aquilo que escrevo ou a ficção que estou a escrever seja normalizada, o que significa que continuo à procura de um mistério, digamos assim, que transcenda a pandemia, que a precede e que eventualmente a pretende ultrapassar e ser pertinente independentemente dela.

O próximo romance vai levar-nos ao Brasil

Escreve romances, poesia, desenha, chegou a cantar. O tempo extra permitiu-lhe redescobrir outra paixão?
Eu gostaria muito de experimentar mais umas artes, mas há dias um projeto musical de Braga de que gosto muito, do Frederico Cristiano, o At Freddy’s House, estreou um videoclipe que eu próprio filmei. É uma coisa meio rudimentar, meio esforçada, que filmei com um brinquedo islandês. E o segundo videoclipe que faço para o projeto. Isso deu-me gozo. Deu-me vontade de regressar aos programas de montagem de imagem e criar imagens em movimento. Nestes últimos dias tenho tentado criar uma espécie de acompanhamento visual para alguns textos ditos, alguns poemas lidos. Pode ser que um dia destes tenha aí uns vídeos, umas curta-metragens simples, mas que me divertem.

Toda essa produtividade traduz-se em quê? Num novo livro?
Tenho trabalhado num romance ambientado no Brasil no século XIX. Eu já tomava pequenas notas, viajava com os meus cadernos, anotava uma ou duas paginas de algumas coisas meio dispersas. Neste momento o que acontece e que dá a sensação que é como a mesma árvore, que tem a possibilidade de criar maçãs e pêras e bananas e figos. E por isso, estando eu mais dedicado ao fruto do Brasil, subitamente sobram-me muitos mais frutos distintos que vou guardando numa cesteira para depois pegar em projetos posteriores. E isso tem sido assim nestes últimos meses, têm sido muito mais generosos, abundantes.

“Exijo sempre que o meu novo livro seja o melhor”

Tem uma ligação especial com o Brasil? Porquê?
Sou fascinado pelo Brasil desde menino, cresci impressionado pela cultura brasileira e de há uns anos para cá que tenho tido a intenção de, com a minha ficção, ambientar-me em mentalidades e culturas que sejam distintas da minha. Escrevi um romance passado na Islândia, outro no Japão e era inevitável escrever sobre o Brasil, correspondendo a esse meu fascínio. Pareceu-me o momento certo, surgiu a história, definiu-se uma personagem principal, uma intenção muito clara de defender ou debater uma determinada questão e então o livro começou a existir. Nestes últimos anos tem sido o grande trabalho que tenho em cima da minha mesa.

E datas?
Eu gostaria muito de publicar este romance em setembro. Espero que o modo obstinado com que cada vez mais lido com o que escrevo me permita entregá-lo. Com o tempo, pioro essa relação com os meus próprios textos e exijo deles algo que eles nunca me deram. Satisfaço-me muito menos no sentido em que espero que o livro que edito seja sempre melhor do que todos os que já editei. Por isso é mais difícil ser escritor agora.

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