Livros

Wilson Sanches passou quase 7 anos na prisão. O diário que escreveu transformou-se num livro

Ao longo do tempo em que esteve preso, escrevia sobre culpa, mudança e a vida atrás das grades. A 14 de abril, a obra chegou ao público.

Algumas pessoas entram na prisão e saem exatamente iguais, mas Wilson Sanches garante que não foi esse o seu caso. O primeiro passo para mudar foi aceitar que merecia estar preso. Em abril de 2018, entrou no Estabelecimento Prisional do Linhó, no concelho de Sintra, com apenas 23 anos e uma vida marcada por decisões erradas e pouca noção de quem realmente era. Quase sete anos depois, saiu com um livro escrito, uma família construída durante a reclusão e a sensação de que, pela primeira vez, tinha começado a perceber quem queria ser.

Muito do que sentiu e viveu durante esses anos, está nas páginas de “Diários de um Recluso”, editado pela editora À/Parte. A obra, lançada a 14 de abril e apresentada dois dias depois nos Jardins do Bombarda, em Lisboa, nasceu precisamente dessa transformação. O livro reúne textos escritos dentro da prisão, onde Wilson mistura desabafos, reflexões sobre o sistema prisional português, conselhos, memórias e tentativas de compreender aquilo em que se tinha tornado.

“Hoje foi o dia mais feliz em todo o meu meio prisional, deixei de me considerar um recluso e passo a ver-me como um jovem que se enganou no caminho, mas que já encontrou a estrada que o levará até aos seus objetivos”, escreve num dos excertos do livro (página 294), em julho de 2023.

A história de Wilson começa em Almada. Nasceu no Hospital Garcia de Orta e cresceu entre o Bairro do Chegadinho, no Feijó, e mais tarde Santa Marta do Pinhal, em Corroios, depois de os pais comprarem casa fora do bairro. A adaptação foi tranquila, mas havia conflitos em casa. “A minha mãe era muito protetora e existia excesso de autoridade. Acabei por sair cedo de casa e fui viver com amigos”, conta à NiT.

Na escola tinha boas notas, apesar do comportamento instável. Passou pelo futebol, andebol e artes marciais, mas acabou por abandonar os estudos. Aos poucos, aproximou-se de um grupo que assaltava residências. “No crime existe uma união muito diferente da vida cá fora. É um mundo difícil e cria-se uma ligação forte entre as pessoas”, admite.

Capa do livro “Diários de um Recluso”, de Wilson Sanches.

Foi, então, preso aos 23 anos por assaltos a casas, realizados em grupo. Entrava nas residências quando os proprietários não estavam. Acabou por ser apanhado, condenado e, no início, aceitou mal a situação. “Era muito revoltado, fazia muitas asneiras porque ainda não tinha aceite que merecia estar preso. Há pessoas que nunca chegam a esse processo”. 

Tudo começou a mudar cerca de um ano após estar no Linhó. Primeiro, através da leitura. Depois da escrita. Wilson começou a escrever um diário em agosto de 2019, num simples caderno. Mais tarde, a atual companheira, Liliana, ofereceu-lhe um segundo diário. Os dois já se conheciam antes da prisão, mas foi durante a reclusão que começaram uma relação. “Ela esteve sempre lá. Ia visitar-me todas as semanas”, conta à NiT.

Hoje vivem juntos e construíram uma vida longe desse passado, rodeado pelos seus filhos. Wilson é pai de Celso, de 10 anos, de uma relação anterior, e de Akin, de 2, fruto da relação com Liliana.

“Num momento de reflexão, apercebi-me de que a liberdade tem cheiro, mas quem nunca cá esteve dificilmente saberá disso”, escreve (página 32). Quando fala sobre a liberdade, Wilson descreve quase uma sensação física. “O cheiro da liberdade é um ar leve. Na prisão respiramos o peso das histórias, da revolta, das pessoas fechadas. Quando pus os pés na rua senti essa leveza”. 

Durante os anos de prisão, houve momentos particularmente difíceis. A morte do avô foi um deles. A ausência da mãe também deixou feridas. “Sofri muito por não a ter tantas vezes nas visitas. Ela é emigrante e havia muita burocracia. Houve alturas em que até lhe dizia para não vir. Mas apesar disso magoava sempre a sua ausência, via outros reclusos com visitas das suas mães, e, apesar de ficar contente por eles, sentia a falta da visita da minha”. 

Ao longo do tempo começou também a olhar de outra forma para si próprio. “O Wilson que entrou era muito imaturo. Não sabia nada sobre ele próprio. Na prisão comecei a pensar mais no meu interior, nos meus objetivos, em perceber quem eu era.”

Parte dessa mudança aconteceu através dos livros. Entre os que mais o marcaram estão “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, de Dale Carnegie, e “Vai Correr Tudo Bem”, inspirado na história do jogador português Éder, o herói improvável da vitória portuguesa no Euro 2016.

No seu próprio livro, Wilson critica várias vezes o sistema prisional português e a forma como a reinserção social continua a ser secundarizada. “As prisões preocupam-se sobretudo em manter tudo calmo. Pouco importa se a pessoa melhora ou não enquanto ser humano. Os guardas não se preocupam se os reclusos estão a fumar estupefacientes ou a mexer no telemóvel. Desde que mantenham a ordem e não haja problemas que chamem a atenção pública, está tudo bem”.

Apesar disso, Wilson admite que encontrou algumas pessoas importantes pelo caminho, incluindo guardas prisionais com quem criava ligações improváveis. “Às vezes ficávamos a conversar perto do bar, a comer uma pizza ou um croissant. Muitos deles também estão descontentes com o sistema.” 

Depois da libertação, em março de 2023, a adaptação à vida cá fora não foi imediata. “O mais difícil foi lidar com o ruído e com muita gente. Evitava centros comerciais, feiras, sítios cheios. Na prisão habituamo-nos ao isolamento e à repetição”, recorda.

Hoje trabalha num talho em Cascais, profissão que descobriu por acaso depois de sair da prisão. Primeiro passou por uma fábrica em Sintra. Depois encontrou trabalho no talho, onde continua atualmente. “Nunca pensei gostar tanto desta profissão. Há ali uma arte”, diz. 

Mas o futebol continua a ser o grande sonho. Wilson gostava de ser treinador e de lutar por uma reinserção social mais justa para antigos reclusos. “É preciso sair-se da prisão um homem diferente. Muitos perdem a fé porque se sentem abandonados. E muitas vezes têm razão”, escreve também em “Diários de um Recluso” (página 20).

Apesar da exposição pública que o livro traz, Wilson garante que não tem medo de ser julgado. Pelo contrário. “Quero até que haja pessoas que falem mal do livro. Na prisão, aprendi a transformar os pontos negativos em crescimento. Quero que as pessoas percebam que um recluso continua a ser uma pessoa.”

No fundo, “Diários de um Recluso” acaba por funcionar menos como um livro sobre prisão e mais como um retrato de alguém que tentou reconstruir-se num lugar onde quase tudo parece desenhado para destruir.

O livro “Diário de um Recluso” está disponível online pelo preço de 15,21€. Visite a página de Instagram de Wilson Sanches para conhecer melhor o seu trabalho. 

Carregue na galeria para conhecer o lado mais pessoal do autor Wilson Sanches. 

ARTIGOS RECOMENDADOS