Teatro e exposições

Louis C.K., os “portugueses todos iguais” e 50 minutos de gargalhadas até às lágrimas

O norte-americano está em Lisboa para seis espetáculos de stand-up. Uma repórter da NiT esteve na sessão de estreia.
Está em Lisboa até sábado.

“I used to do arenas (Eu costumava fazer arenas).” É a primeira coisa que Louis C.K. diz quando pisa o palco do Maxime Comedy Club, em Lisboa, esta quinta-feira, 23 de maio. Todos (ele e nós, na plateia) percebemos a piada e a necessidade de começar o espetáculo de stand-up exatamente por aí. O elefante na sala é gigante e é a história que virou a vida do comediante ao contrário em 2018, depois de terem sido divulgadas inúmeras situações de comportamento impróprio e abuso de poder para esconder essa atitude.

Durante anos, Louis C.K. masturbou-se na presença de várias mulheres que não tinham propriamente intimidade com ele nem estavam de acordo com a situação. Ele pedia sempre autorização, jura, mas admite que era errado, ainda assim. “Gosto de me masturbar e não gosto de fazê-lo sozinho”, explica.

A espécie de exercício de auto-penitência e desculpa demora uns dez minutos. “Todos temos os nossos problemas”, diz o norte-americano de 51 anos, tentando criar empatia com o público.

Não é que tenha de fazê-lo. Estamos todos aqui porque queremos muito vê-lo (embora, como é o meu caso, até nos possamos sentir um pouco culpados em relação a isso). Louis C.K. admite que teve basicamente de fugir dos EUA desde que o escândalo rebentou e que aprendeu “muito”.

“É nestas alturas que descobrimos quem são os nossos verdadeiros amigos. [Pausa] São estes os meus verdadeiros amigos? Quero os falsos amigos de volta.”

Além disso, aprendeu a comer sozinho em restaurantes. “Enquanto do outro lado da sala alguém me faz [imita o gesto levantando o dedo médio e fazendo uma cara furiosa].”

Isto não é para que tenhamos pena dele, é para mostrar que tem tido um ano terrível mas que o merece. Despachados os constrangimentos, e já que aqui estamos, temos de deixar que a genialidade de Louis C.K. tome conta de nós. Independentemente do que possamos achar dos atos dele, estamos aqui para ver e ouvir comédia e, garanto-vos, foram os 45€ mais bem gastos dos últimos tempos.

“Vocês portugueses são todos iguais [faz um gesto imitando o cabelo penteado para o lado, barba cerrada]. Parece que estou a ver a mesma cara repetida 200 vezes.”

Qualquer piada reproduzida em texto não tem um décimo da graça que tem ao vivo e, em 50 minutos de stand-up, ele vai a todas: dos cães que são estúpidos a Auschwitz (“Imaginem que naquela altura alguém lhes dizia: ‘Um dia as pessoas vão comprar bilhetes para vir aqui.'”), passando por Jesus e pela nova namorada francesa.

“Vocês aqui também põem o termómetro no rabo [para ver a febre]? Não, certo? Os franceses põem. Quando lhe perguntei porquê, ela disse: ‘Porque é mais fidedigno, por um grau.’ Então põe-o na boca e acrescenta um grau.”

Já agora, Louis C.K. não sabe imitar sotaque francês. A julgar pela interpretação dele, a namorada e todos os amigos dela parecem russos. Mas tudo o resto é perfeito.

É a estreia dele em Portugal e esta é a primeira de seis sessões — em nenhuma delas são permitidos telemóveis, guardados logo à entrada em bolsas que só voltam a ser abertas à saída. Às 19 horas desta quinta-feira, a plateia está completa e o público ansioso pela atuação de C.K. Contudo, o espetáculo começa com Manuel Cardoso. O humorista português é o host e, se é verdade que a produtora o contactou apenas dois dias antes, como ele diz, o desafio foi mais do que superado.

Fala sempre em inglês: “Vamos fazer de conta que somos todos ingleses e estamos aqui para ouvir stand-up em inglês.”

Também ele faz piadas sobre masturbação e ainda sobre “A Guerra dos Tronos”: “Dizem-me que sou igual ao Samuel Tarly. Porque todos os gordos são parecidos, não é? […] Aqui sou gordo mas nos Estados Unidos sou um instrutor de fitness.”

A abrir para Louis C.K., como se de um grandioso concerto se tratasse, estão em Lisboa outros dois comediantes: Tony Woods e outro que, sinceramente, foi tão fraquinho que nem me dei ao trabalho de decorar o nome. 

O primeiro parece ligeiramente embriagado mas essa impressão inicial desvanece-se assim que percebemos que faz parte da atuação. Ri-se muito e o público desmancha-se em gargalhadas mesmo quando ele está em silêncio. Já o segundo, bem, posso dizer que me ri uma vez em dez minutos de piadas. Histórias demasiado ensaiadas, sem grande ligação entre si.

Porque fazer stand-up não é apenas despejar uma lista de graçolas. As histórias têm de fluir, o encadeamento é essencial e nesse aspeto Louis C.K. é um mestre. Nisso e a improvisar. Quando fala das partidas que gosta de pregar aos amigos, pede histórias à plateia e rapidamente pega nelas para construir as próprias piadas de forma tão natural que bem podiam ter vindo preparadas de casa.

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