Morreu esta quinta-feira, 30 de novembro, Zé Pedro, guitarrista e um dos maiores ícones dos Xutos & Pontapés (e do País). Há vários anos que lutava contra problemas no fígado e o último concerto que deu com a banda foi no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 4 de novembro. Ia começar um novo tratamento nos dias seguintes.
Para a história fica toda a música que lançou com o grupo e os inúmeros concertos na carreira dos Xutos & Pontapés. A NiT conta cinco histórias da vida de Zé Pedro.
A primeira grande bebedeira de Zé Pedro
O pai de Zé Pedro era militar e estava na Guiné-Bissau quando aquele que viria a ser músico dos Xutos & Pontapés tinha 11 ou 12 anos. Zé Pedro vivia com os avós em Lisboa e foi visitar o pai nas férias de verão. “[O meu pai] arranjou-me lugar num avião militar, mas era um avião de para-quedistas, então um gajo ia sentado de lado, com umas cadeiras no meio, cheias de soldados que iam para a Guiné”, disse numa entrevista de vida à “Blitz”.
Zé Pedro não viajou sozinho com militares. Por sorte, outro miúdo, António Jorge, viajava no avião para também ir ter com o pai. “Ficámos nos banquinhos de lado, a olhar para aquilo tudo, e aparece o piloto ou o copiloto, que diz: os paraquedas estão aí debaixo, os barquinhos estão aqui, se acender a luz a vermelha metam os paraquedas, e se acender a luz verde vamos cair no mar, portanto não se esqueçam de levar o bote. Era um avião daqueles com duas hélices de cada lado. E nós ‘ai Jesus’…”
Não foram diretos para a Guiné e fizeram uma paragem no Sal, em Cabo Verde. “Onde chegámos ao final do dia e nos disseram: ‘agora o voo levanta às cinco da manhã’.” Os militares rapidamente abandonaram o aeroporto e Zé Pedro ficou com o seu novo amigo num banco. O plano era esperarem pelas cinco da manhã, mas não foi possível. “Ficámos lá até que aparece alguém a dizer: ‘o aeroporto vai fechar, desandem daqui’.” Ficaram sentados numas escadas, cada um com uma mala, mas ficaram com fome e decidiram gastar os cinco escudos que tinham.
“Fomos andando pela estrada e, às tantas, estávamos rodeados de palhotas com um movimento enorme de soldados e nativos, uma grande confusão, e o pessoal a bater-nos na cabecita. Até que lá aparecem dois faróis e era uma patrulha portuguesa, a perguntar: ‘o que estão aqui a fazer?’” Os tropas portugueses levaram-nos para o quartel para petiscarem qualquer coisa. “Na Ilha do Sal havia pouca água e os gajos aproveitaram que tinham ali dois putos, pumba, vinhaça! E um gajo de tão agradecido que estava… apanhei uma bezana!”
Na conversa entre os copos perceberam que Zé Pedro era filho de um capitão e quiseram apresentá-lo ao comandante. “Fui com uma bezana, já nem me lembro de nada! Mas lá nos puseram a dormir e às cinco da manhã estávamos no aeroporto para apanhar o avião.”
Como Kalú foi contratado por Zé Pedro
Zé Pedro não tinha qualquer banda e era muito amigo de Pedro Ayres Magalhães, dos Heróis do Mar e que viria a fundar os Madredeus. Na altura, Magalhães tocava na banda de punk rock Faíscas. “Eu tornei-me muito amigo dele e um suposto manager da banda”, contou Zé Pedro à “Blitz”. “Eles iam ensaiar para a minha garagem e havia uma cumplicidade muito grande de pessoal que quer é divertir-se. No meio dessas reuniões, a beber cervejas na [cervejaria] Munique, todos tínhamos de ter uma banda, fictícia ou imaginária.”
Pedro Ayres Magalhães convencia-o a formar a própria banda mas Zé Pedro nunca pensou muito nisso. Como amigo e manager dos Faíscas, colocou um anúncio no jornal a procurar candidatos a bateristas da banda — Emanuel Ramalho, que era o baterista até então, tinha saído por desentendimentos.
Dos seis ou sete músicos que ligaram para o número de telefone indicado — o da casa de Zé Pedro —, Kalú foi um dos que ficou referenciado. “Quando começaram a aparecer interessados já eles tinham feito as pazes com o baterista, que era o [Emanuel] Ramalho. As minhas irmãs é que atendiam o telefone e o Pedro disse-me: vai assentando os números que um dia hás-de precisar de um baterista.”
De toda a lista de bateristas candidatos, Kalú foi o único que ligou duas vezes. “A segunda a chatear: naquela de ‘então nunca mais me deram resposta?’” Quando Zé Pedro quis arrancar com os Xutos & Pontapés com o primeiro vocalista, Zé Leonel, foram buscar essa mesma lista. “Tínhamos essa referência: ‘este gajo telefonou duas vezes, uma delas a mandar vir, portanto deve ser o mais interessado’. Lá marcámos um encontro na [cervejaria] Trindade, e estou com ele este tempo todo de vida [risos].”
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A vez em que os Xutos & Pontapés foram à falência e quase terminaram
Depois de um final dos anos 80 carregado de sucesso, a banda entrou nos anos 90 a descobrir um desfalque financeiro e que tinham sido roubados entre 15 e 20 mil contos (entre 75 e 100 mil euros) pelo manager da altura. “Mas não pudemos fazer nada: o fisco estava em cima de nós e tínhamos 6 mil contos por pagar, em impostos”, explicou Zé Pedro à “Blitz”. “Se fôssemos processar o manager, caía muito mais, e estávamos a zero. Tivemos de dar alguns concertos para acabar um contrato com a Sumol e pedimos um empréstimo ao banco para pagar ao fisco. Mas todas as bandas grandes levam uma banhada a certa altura.”
Por causa disso, Zé Pedro abriu o icónico bar Johnny Guitar com Kalú. Tim formou o supergrupo Resistência e os Xutos & Pontapés ficam parados durante um ano. “Depois, há um telefonema do Kalú: ‘então, nunca mais se ensaia?’ Tínhamos acabado de fazer o “Gritos Mudos”, um disco muito mal aceite pelos críticos, apesar de ser ótimo. Antes disso, nós tocávamos quase 100 espetáculos por ano, que nem tínhamos tempo de ver as contas. Quando nos juntámos de novo e quisemos voltar para a estrada, já ninguém nos ligava nenhuma. [risos] Começámos a tocar outra vez para 50 ou 100 pessoas.”
A recuperação depois do transplante de fígado
Foi a 1 de agosto de 2001 que Zé Pedro descobriu que sofria de hepatite C. “Recordo pelo seguinte: foi dia 1 de agosto [risos]. [‘1º de Agosto’ é o nome de um tema e de um álbum ao vivo da banda]. Foi o dia em que parei tudo: os consumos de álcool, droga e tabaco. Tinha passado um ano terrível, de confusão de cabeça, de não ter saída. E muitas vezes pensava: ‘tenho de ter um fim, não vou aguentar muito mais’. E foi o que aconteceu: uma hemorragia enorme. Cheguei ao hospital e quase que me deram como morto”, contou na mesma entrevista de vida à “Blitz”.
O transplante de fígado aconteceu em 2011. “Estava desesperado, já não aguentava mais. Já devia ter o fígado todo desfeito, tanto que quando o [cirurgião] Eduardo Barroso me tirou o fígado disse que nem para fazer um patêzinho aquilo servia.” Mas Zé Pedro quis recuperar de forma rápida e voltar aos palcos.
“Tivemos de cancelar os concertos dos Xutos, mas eu só deixei cancelar os primeiros 15 e já fiz os outros dez. Eles hoje até me agradecem, porque tinha de evitar grandes viagens e alugámos um avião [risos].”
O dia em que Zé Pedro quis conhecer Cristiano Ronaldo
“A Minha Casinha”, single icónico dos Xutos & Pontapés, foi um dos temas que acompanhou a seleção nacional de futebol desde que Portugal venceu o Euro 2016. Quando a equipa aterrou em Lisboa e passeou pelas ruas da capital a celebrar a conquista, Cristiano Ronaldo foi um dos que mais pegou no microfone para cantar os versos da música. Zé Pedro quis conhecer pessoalmente CR7 a partir desse momento.
“O Zé Pedro meteu na cabeça que tinha de conhecer o Cristiano Ronaldo”, disse a irmã, Helena Reis, ao “Observador”. Em julho desse ano, os Xutos & Pontapés iam a caminho de um concerto no Pico, nos Açores. A mulher de Zé Pedro, Cristina Avides Moreira, fez um plano para que passassem antes pelo Funchal, na Madeira, onde estava a ser inaugurado o Hotel Pestana CR7, com a presença de Cristiano Ronaldo. Zé Pedro ofereceu uma guitarra autografada, daquelas que costumava usar nos concertos, ao futebolista.
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