Música

A história do padre português que é DJ de techno (e atuou este ano no MEO Sudoeste)

O Padre Guilherme é um fenómeno, tanto nas discotecas como nas redes sociais. E já lançou uma música, "Ave Maria”.
Padre Guilherme não é um pároco convencional.

Guilherme Peixoto sempre quis ser padre. Natural de Guimarães, entrou no seminário com 13 anos. Nunca imaginou que, além de se tornar sacerdote, seria um aclamado DJ de techno. A 1 de agosto, fez a sua maior performance de sempre: passou música perante 10 mil pessoas no campismo do MEO Sudoeste.

Nunca foi convencional. Em miúdo era bastante rebelde, o que fazia com que os colegas e outras pessoas não acreditassem que realmente viesse a tornar-se padre. Porém, a família regozijava com essa hipótese e sempre o apoiou. Além disso, parecia destinado. Quando nasceu há 48 anos, sofria de vários problemas de saúde. Chegou mesmo a estar entre a vida e a morte.

Após o nascimento e, mesmo com o risco que corria, a família fez questão de trazer o pequeno Guilherme para casa. Mesmo que não sobrevivesse, pelo menos passaria aquela primeira noite em casa, com a família. Foi logo batizado no Hospital de Guimarães e passou a noite a soro, que a mãe e a avó lhe davam à colher. Pelo meio, iam rezando e pedindo com toda a fé que tinham: se Guilherme sobrevivesse, ofereciam-no ao senhor. Ou seja, tornar-se-ia padre.

Curiosamente, Guilherme Peixoto já era padre há vários anos quando soube desta história. A família nunca o pressionou a enveredar por esse caminho. Na verdade, foi o pároco local que serviu como referência e inspiração.

“Desde muito pequenino que ia à missa com a minha avó e os meus pais. Olhava para o padre da minha freguesia e a maneira como ele falava com as pessoas, como estava na rua, como interagia… Era o monsenhor José Maria, de Guimarães. Olhava para ele e pensava que um dia gostava de ser como ele. A figura inspirava-me carinho, identificava-me com ele”, explica à NiT. Decidiu ingressar no seminário devido a essa influência.

A ligação à música também aconteceu cedo. No seminário fazia parte de um grupo popular de cantares. Quando foi membro do agrupamento de escuteiros, costumava sair à noite para algumas das discotecas de Guimarães — e já apreciava música eletrónica. Quando entrou para a faculdade de teologia, juntou-se à tuna académica. E formou uma banda de pop rock com quatro colegas do seminário. 

Eram os Quinto Império. Guilherme Peixoto tocava órgão e o projeto teve alguma longevidade — prolongou-se durante cinco anos. Atuavam em festas paroquiais regularmente. Aliás, chegaram a tocar três vezes no mesmo fim de semana. Aos poucos, foram comprando material: uma mesa de som, microfones, entre outros equipamentos técnicos. 

Quando estavam prestes a ser ordenados padres, por volta dos 24 anos, acreditaram que o melhor a fazer era venderem o material todo. “Vamos vender isto tudo e vamos passear por Portugal durante 10 ou 15 dias. Porque depois de sermos padres nunca mais vamos poder estar ligados à música. Mais vale fazermos isto e depois cada um vai à sua vida. Mesmo no seminário, onde já estava ligado à música, nunca imaginei sequer que fosse possível ser DJ.”

O Padre Guilherme ficou responsável pela paróquia de Amorim, na Póvoa de Varzim. Acabou por ficar com outra paróquia no mesmo concelho, a de Laúndos. Haviam sido feitas obras e precisavam de angariar fundos. Fizeram cortejos, peditórios, alguns leilões. Entretanto, surgiu a ideia de utilizarem um pequeno espaço junto da paróquia como bar — onde se podiam realizar convívios populares com os habitantes locais.

O Ar de Rock Laúndos foi inaugurado em 2006, e rapidamente se tornou um sucesso. Tanto, que começou a atrair pessoas de várias localidades à volta, que não tinham qualquer relação com a paróquia — nem sequer com a Igreja católica. Ali o Padre Guilherme, acompanhado por Renato Neiva, começou a passar música. Passavam um pouco de tudo aquilo que era mais ou menos consensual: desde rock dos anos 80 a fado, passando pela pop e pela música popular portuguesa.

Conseguiram pagar as dívidas da paróquia e depois decidiram manter o projeto com outro objetivo: restaurar a igreja matriz. Para isso também ajudou que expandissem a sua ação e criassem o Laúndos em Movimento, evento repleto de atividades que atraía ainda mais pessoas.

“Quando começaram a existir eventos de grande dimensão na cidade, como a feira das associações na Póvoa de Varzim; e o São Pedro, a grande festa da região, fomos convidados a ter lá um palco”, conta o Padre Guilherme. 

“A minha incursão pela música eletrónica começou, como dizemos a brincar, quando saímos do alto do monte e descemos à cidade. Palcos maiores, sistemas de sons muito melhores, desafiaram-me a querer fazer isto.” No início, experimentou passar remisturas eletrónicas de rock, nas horas mais tardias dos eventos. Aos poucos, foi ganhando gosto, e tornou-se também DJ residente nas festas de estudantes Erasmus em Braga. Nesses eventos fez muitas amizades — tantas que já vai no seu quarto casamento no estrangeiro. Sempre que vai a uma cerimónia dessas, faz questão de ir vestido de padre.

“Posteriormente, senti algumas dificuldades ao nível do DJing e inscrevi-me numa escola onde ainda estou inscrito, a ProDJ, no Porto. A minha professora de sempre foi a DJ Miss Blondie. Costumo dizer que tem uma paciência de santa [risos]. Quando cheguei lá percebi que não sabia nada disto e fiz quase um reset para começar do zero.”

Nos tempos livres, o Padre Guilherme foi descobrindo mais sobre como passar música, aprofundando os seus conhecimentos sobre equipamentos técnicos e subgéneros eletrónicos. “Foi na ProDJ que dei este salto de qualidade. Depois veio a pandemia, parou tudo e comecei a fazer os lives ‘Sozinho em Casa’.”

Através das redes sociais (como o Facebook e o Instagram), conversava com convidados de várias áreas e passava música. “Terminava as lives com algo mais puxado, um melodic techno… Mas ainda muito comercial. Quando comecei a terminar as lives dessa forma, tive dois amigos que me disseram que tinha de deixar de brincar e direcionar-me para o techno. Fiz a experiência de fazer duas ou três lives seguidas só de techno. Chegava a ter ocasiões em que ganhava mil seguidores numa hora e meia de música.” Havia um grande interesse e curiosidade, claro, em torno de um padre especialista em techno.

Quando os clubes reabriram neste ano de 2022, o Padre Guilherme começou a receber convites. “De um momento para outro, uma pessoa ligada à música aconselhou-me. Para si, o manager certo é esta pessoa. Para me ajudar, me orientar, me dizer que ‘não’ e ‘sim’ é que faz sentido dizer, os sítios a que faz sentido ir, que me ajudasse no alinhamento… De repente estava a criar uma equipa com um diretor artístico, um road manager, um responsável pela fotografia e outro pelo vídeo, um produtor de conteúdos visuais para os ecrãs, um VJ que me acompanha…”

Duas pessoas essenciais neste processo foram a dupla de música eletrónica Karetus — além da respetiva equipa. Construíram a faixa “Ave Maria” com o Padre Guilherme, aludindo a elementos religiosos, e ajudaram-no a construir uma identidade de DJ em redor da sua figura de padre. Foram também os Karetus que o convidaram para tocar no MEO Sudoeste, onde foram responsáveis pela curadoria do palco na zona de campismo, antes do arranque oficial do festival na Zambujeira do Mar.

“Caí lá de paraquedas porque vinha de uma semana intensa de trabalho na paróquia. E quando fui convidado comecei a lançar para uma pasta uma série de músicas, mas tudo muito desorganizado, ainda sem uma linha orientadora. Um DJ set é uma história que se conta e se vive com o público e fui imaginando, mas não estava a conseguir fechar a última hora do set.” No dia anterior à atuação, teve um domingo cheio: com missa, batismos e um casamento. Além disso, era o seu aniversário. Preferiu desfrutar com a família e só a caminho do festival, na manhã seguinte, é que terminou a preparação do DJ set.

“O set do MEO Sudoeste foi fechado entre a casa paroquial de Amorim, onde moro, e o recinto do Sudoeste. Levei uma almofada para pôr nos joelhos e ia na viagem, no banco de trás, a imaginar o que ia fazer lá”, acrescenta. “Quando cheguei, senti um carinho muito grande de todos. Da organização, dos técnicos de som, dos técnicos de luz… Toda a gente tinha mostrou uma simpatia e respeito muito grandes. No fim, foi uma festa. Terminou com o ‘Avé Maria’ e comigo a atirar-me para cima deles [risos], algo que nunca tinha feito. Foi especial, foi aquela emoção do momento.”

Atualmente, o Padre Guilherme só passa techno. Além disso, faz questão que seja um set “marcado por uma mensagem de paz e alegria”. Acrescenta ainda que sente que está a aproximar a Igreja de várias pessoas, sobretudo jovens, que muitas vezes não têm qualquer ligação à religião. 

“Sinto isso. Sinto que com o techno, por estar num registo menos comercial e mais underground, consigo chegar a alguns jovens que gostam de techno e andam na Igreja, mas também a uma grande parte que gosta e que está afastada. E começam a perceber que isto de ser padre não invalida, não tira nada, pelo contrário. O que o Papa Francisco nos pede é que estejamos no mundo. Não temos de ficar fechados na sacristia com medo. Temos de sair e ir ao encontro das pessoas. Ele fala muito das periferias existenciais da sociedade. Claro que muita gente não compreende, que muita gente acha o padre estar nestes meios, estar nas discotecas e no meio dos jovens com álcool… Dentro da igreja há quem não goste. Mas encaro o que faço na vida como uma missão. Esta missão da música também não está direcionada para os que estão dentro da igreja. Está direcionada para os jovens, estejam dentro ou não estejam. O mais importante disto tudo é que estou a desfrutar, gosto de conviver e estou a fazer algo que me deixa feliz também”, argumenta.

E explica porque é que se apresenta enquanto padre quando passa música. “É importante estar lá sem vergonha e sem medo. E o facto de levar um polo com o cabeção também diz: é padre, não há dúvidas. É a minha identidade, sou padre, não estou a escondê-la. Não estou ali com vergonha, a pensar ‘vai parecer mal, é melhor não levar’. Foi uma opção que fiz quando comecei a ser convidado.”

A sua maior ambição enquanto DJ, diz, é conseguir fazer um set só com discos de vinil. “Mas só daqui a dois ou três anos [risos].” Antes de começar um set, faz sempre uma oração. “Costumo benzer-me e pedir a Deus que me ajude a ser sinal de alegria, esperança e de fé no meio daqueles jovens. É a oração que faço sempre antes de tocar. Somos bombardeados por más notícias e sem nos apercebermos facilmente ficamos deprimidos. Por isso, é muito importante termos momentos de descompressão, alegria e esperança. Para quem tem fé e para quem não tem, porque todos nós precisamos disso.”

Com a pandemia e a subsequente falta de manutenção, o espaço do Ar de Rock Laúndos ficou degradado. “Tivemos de fazer grandes obras para substituir tudo para poder reabrir. Para a comunidade, acaba por ser o único sítio onde se consegue ver três ou quatro gerações da mesma família. E é este espírito que queremos manter. Não é um bar onde só entram maiores de 18 anos. É um sítio que recebe cadeiras de bebés e pessoas de 80 anos.” 

A reabertura aconteceu esta sexta-feira, 12 de agosto, num mês em que muitos emigrantes regressam à terra para celebrar as férias em família. Neste momento já vão na terceira causa. Agora os fundos do Ar de Rock Laúndos vão reverter para ajudar a construir a sede do agrupamento de escuteiros local. As noites prometem continuar com música para todos os gostos. Certo é que, pelas duas da manhã, o Padre Guilherme vai passar techno para deixar em alvoroço a pista de dança.

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