Música

A história surreal de como Johnny Depp e Jeff Beck terão plagiado um antigo prisioneiro no seu álbum

O ator e o músico disseram que estão a analisar o caso, que foi denunciado num artigo publicado pela revista "Rolling Stone".
Johnny Depp e Beck lançaram um álbum em julho.

Após o mediático (e altamente controverso) caso de difamação contra Amber Heard, Johnny Depp lançou um álbum em parceria com Jeff Beck. “18”, assim se chama o disco, foi editado a 15 de julho. O projeto conta com várias covers, mas também inclui músicas originais — os fãs viram nalgumas das letras, aliás, possíveis referências (e ataques) à sua ex-mulher.

Porém, é outro assunto que está agora a envolver o álbum numa nova polémica. Esta sexta-feira, 5 de agosto, a revista “Rolling Stone” publicou um artigo onde explica que alguns dos versos assinados por Depp e Beck são exatamente iguais às letras de Slim Wilson, um prisioneiro americano dos anos 60.

Slim Wilson, pseudónimo de Willy ou Willie Davis, era um vagabundo que apanhava comboios para correr os EUA, enquanto se metia em problemas por onde quer que passasse. Para sobreviver, fazia vários tipos de biscates e jogava dados — e era assumidamente um batoteiro. Também atuou como chulo e foi condenado por homicídio e assalto à mão armada.

Foi precisamente na penitenciária do estado do Missouri, em 1964, que conheceu o folclorista Bruce Jackson. Este homem, que estudava a tradição oral ligada à cultura afro-americana dos toasts, interessou-se de imediato por Slim Wilson. Era um prodigioso narrador de toasts — espécie de poemas-histórias, com muito vernáculo obsceno pelo meio, que eram interpretados em festas e convívios como forma de entretenimento.

Dez anos depois, Bruce Jackson publicou o livro “Get Your Ass in the Water and Swim Like Me”, trabalho que partia da sua vasta recolha de material de toasts — muito baseada em conversas com pessoas como Slim Wilson. Já em 1976, o projeto expandiu-se para um álbum, e Slim Wilson gravou alguns dos toasts com o seu sotaque carregado do estado do Arkansas.

Em “Hobo Ben”, podemos ouvi-lo a declamar versos como “Ladies of culture and beauty so refined, is there one among you that would grant me wine?/I’m raggedy I know, but I have no stink/and God bless the lady that’ll buy me a drink/Heavy-hipted Hattie turned to Nadine with a laugh/and said, ‘What that funky motherfucker really need, child, is a bath.’”

Agora, quase seis décadas passadas, vários desses versos estão no álbum de Johnny Depp e Jeff Beck, no tema “Sad Motherfuckin’ Parade” — cujos únicos autores creditados são os próprios Depp e Beck. Não há qualquer menção ao trabalho de Bruce Jackson ou Slim Wilson.

Todos estes versos aparecem na canção do álbum “18”: “I’m raggedy, I know, but I have no stink”, “God bless the lady that’ll buy me a drink” e “What that funky motherfucker really needs, child, is a bath”. Além de outros que Slim Wilson também interpretou, como “[Y]ou better try to keep you ass in this corner of shade/’cause if the man come you make a sad motherfuckin parade”.

A “Rolling Stone” falou com Bruce Jackson, que hoje é um professor universitário distinguido. “Os únicos dois versos que consegui encontrar naquilo tudo que [Depp e Beck] terão feito são ‘Big time motherfucker’ e ‘Bust it down to my level’. Tudo o resto é da performance do Slim no meu livro. Nunca me deparei com nada assim. Publico coisas há 50 anos e esta é a primeira vez que alguém tira algo e mete o seu próprio nome lá”, comentou Jackson.

Depois da publicação deste artigo, um representante de Johnny Depp e Jeff Beck assegurou a vários meios de comunicação social que o assunto “está a ser revisto”. “Se for apropriado, outros créditos de direitos de autor serão acrescentados a todos os formatos do disco.”

O filho de Bruce Jackson, que se chama Michael Lee Jackson, é um advogado especializado em direitos de autor e propriedade intelectual. De acordo com a “Rolling Stone”, estão a equacionar diversas opções legais. Apesar de vários especialistas acreditarem ser demasiado idêntico para que Johnny Depp e Beck tenham inventado exatamente as mesmas letras, não deverá ser possível processar a dupla de artistas por plágio. 

Os toasts não são material registado e pertencem à tradição oral. Aliás, Slim Wilson contou a Bruce Jackson que aqueles versos tinham vindo do seu pai. Pode ser mais um caso de ética do que de legalidade. Mas Jackson aponta que desrespeita o valor desta cultura popular tão influente, que poderá ter tido origens em África e que acabou, claro, por influenciar o nascimento do rap e do hip hop.

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