Música

A noite em que o Tokyo foi da prostituição à música (e outras histórias do Cais do Sodré)

O antigo gerente explica à NiT como um episódio específico contribuiu para a mudança da famosa zona noturna de Lisboa.
O Cais do Sodré está a mudar.

O Cais do Sodré, em Lisboa, está em profunda transformação. Pode ser o fim de uma era e o futuro é algo incerto. Três dos clubes mais icónicos da chamada rua cor-de-rosa — o Jamaica, o Tokyo e o Europa — fecharam portas em 2020. Estão prestes a reabrir, mas agora do outro lado da linha do comboio, junto do rio, em novos espaços.

Existe uma ideia de transpor a zona noturna do Cais do Sodré para aquele local, de forma a mitigar o ruído provocado numa área da cidade onde persistem vários moradores e tendo em conta que diversos prédios das redondezas estão a tornar-se hotéis e edifícios de habitação.

A 27 de julho, estreou online o documentário “Caos do Sodré”, realizado por Carolina Torres (que a NiT entrevistou). Acaba por ser uma celebração do Cais do Sodré. Reflete um pouco as mudanças por que está a passar, e, acima de tudo, relata a história desta icónica zona noturna de Lisboa.

Um dos episódios específicos que são contados no documentário é de como o Tokyo passou de bar ligado à prostituição a um clube de rock ligado às artes — tudo por mero acidente. Mas é importante entender o contexto antes de explorarmos esta história a fundo. 

Os bares do Cais do Sodré foram inaugurados entre a década de 50 e 60. Tendo em conta a proximidade ao rio, sempre foi uma zona muito dedicada aos jovens marinheiros de todo o mundo, que atracavam alguns dias em Lisboa depois de várias semanas passadas em alto mar. Quando chegavam a terra, queriam desanuviar e divertir-se. Era uma explosão de euforia. Acima de tudo pretendiam beber copos e encontrar companhia feminina.

Assim, todo o modelo de negócio do Cais do Sodré estava destinado a este público. Os bares tinham (e alguns ainda têm) os nomes de diversos territórios internacionais, de forma a atraírem os marinheiros de cada origem. Havia o Filadélfia, o Jamaica, o Tokyo, o Europa, o Liverpool, o Copenhagen, o Oslo, o Texas ou o Roterdão, entre outros. Estes clubes — abertos do meio-dia às quatro da manhã — eram muito frequentados por prostitutas. Ali conheciam os marinheiros potenciais clientes, que depois levavam para pensões nas redondezas. Os bares beneficiavam de terem clientela no local — que gastava dinheiro em bebidas. Assim funcionou o ecossistema do Cais do Sodré durante anos.

O Jamaica terá sido o primeiro a mudar. Durante os anos 70, o DJ Mário Dias tornou-se uma referência naquele clube. Graças à música que passava, conseguia atrair outro tipo de clientes, que também frequentavam o Bairro Alto — uma zona noturna mais intelectual e menos associada à marginalidade.

Seguiu-se o Tokyo, que fora inaugurado em 1968 com outro nome, Tamisa. Na altura, graças ao nome, o espaço era muito frequentado por marinheiros japoneses, coreanos, chineses ou filipinos. Sabiam que seria um ponto de encontro entre colegas asiáticos. Tal como todos os outros sítios, funcionava com o modelo da prostituição. Até uma noite específica de 1983.

António Costa era o gerente do Tokyo há um ano. Tinha chegado com a missão de aumentar a faturação do clube, mas sem alterar o modelo implementado em todo o Cais do Sodré. Era empregado de mesa num bar em Cacilhas que pertencia aos mesmos donos. Quando chegou ao Tokyo, o DJ era Vítor Fernandes. Passava vários tipos de música, desde a mais romântica à música popular de países asiáticos. Afinal, convinha agradar a clientela e, na altura, as casas possuíam coleções de discos para os DJ passarem.

Numa noite de 1983, Vítor Fernandes reparou que na pista de dança estava o radialista António Sérgio. Nessa altura, estava na Rádio Comercial com o icónico programa “Som da Frente”. António Sérgio estava em pico de relevância e a assumir-se como um dos grandes divulgadores do rock em Portugal — numa altura em que os jovens estavam a descobrir bandas americanas e britânicas, e despontavam grupos populares de rock nacional.

Vítor Fernandes pediu autorização a António Costa para lhe pagar um copo. O gerente disse que sim, mas que seria com o próprio dinheiro do DJ, não uma oferta da casa. Mas António Sérgio gostou do gesto e logo ali trocou umas impressões com Vítor Fernandes. Na emissão seguinte do programa, anunciou uma grande novidade: o Tokyo ia receber na próxima quinta-feira a Noite dos Heróis, uma festa dedicada à música rock.

“É uma noite que fica na memória e que nunca mais esquecerei. Isto aconteceu numa quinta-feira. Nós na quarta-feira estivemos a trabalhar num ambiente normalíssimo, com algumas meninas a tentar fazer a vida delas e alguns clientes asiáticos. E no dia seguinte tivemos a invasão de pessoas que não tinham nada, nada a ver com aquilo a que nos propúnhamos”, explica à NiT António Costa. “Tivemos uma enchente que nunca imaginei na vida. A casa estava completamente a abarrotar.”

António Costa ainda não sabia, mas a mudança já tinha acontecido. A partir dali, progressivamente, o Tokyo tornar-se-ia numa casa frequentada por pessoas que só estavam interessadas em ouvir música — sobretudo rock. 

“Era um público completamente diferente, que ia única e simplesmente para ouvir música e não ia à procura de mais nada. Embora naquela altura ainda houvesse um misto de prostituição. Mas depois, com o passar do tempo, as pessoas antigas foram desaparecendo. Porque entenderam que aquele novo ambiente já não era propício àquela atividade.”

O gerente do Tokyo ficou incrédulo e, no início, teve sérias dúvidas em relação ao resultado desta mudança. Como é explicado no documentário “Caos do Sodré”, António Costa também estranhava os miúdos do rock.

“A minha grande dúvida era pelo aspeto daquela gente que, na altura, desconhecia totalmente. Pelo visual achava que era gente pobre, pouco endinheirada. Não acreditava muito que aquilo fizesse grande receita. A dúvida era sempre essa. Não por achar que iriam provocar violência ou desacatos. Mas depois de experimentar trabalhar com esse tipo de gente, assumo publicamente que estava redondamente enganado.”

O Tokyo nos últimos anos do Cais do Sodré.

A ideia foi seguir o caminho trilhado pelo Jamaica, que já atraía um público distinto, que regularmente fazia fila à porta. A música rock começou a ser regular no Tokyo e passaram a organizar eventos diferenciadores. Houve desde passagens de modelos a eventos relacionados com banda desenhada ou artes plásticas. E os concertos de algumas bandas importantes — como os Xutos & Pontapés, Peste & Sida, Rádio Macau, UHF ou Ena Pá 2000 — também foram fundamentais para confirmar que era um novo capítulo da história.

“Quando me pediram para assumir os destinos do Tokyo, nunca ninguém imaginou que fosse possível… Que a mudança fosse para esse lado. Quando me pediram para tomar conta, era no sentido de continuar com o mesmo perfil. Com o sistema da prostituição que estava implementado na rua em geral. Para mim foi uma surpresa muito agradável. A minha postura de vida identificava-se muito mais com aquilo que veio a acontecer.” António acrescenta que, acima de tudo, foi o staff que trabalhava consigo que foram os “principais obreiros da mudança”.

As coisas no Cais do Sodré não mudaram de um dia para o outro, mas a revolução no Tokyo teve algum impacto. Pouco tempo depois, abriu na zona noturna outro clube dedicado à música, o Shangri-la. Orlando Leite, que também aparece no documentário de Carolina Torres, era o DJ.

“Foram três peças fundamentais para a mudança da rua: o Mário Dias do Jamaica, que foi o pioneiro; o Vítor Fernandes que era o DJ que fui encontrar no Tokyo; e o DJ que depois apareceu no Shangri-la. E aquela noite foi a chave mestra para o Tokyo.” 

António conta que foi desafiante tentar mudar a conotação que existia em torno do Cais do Sodré. “Era uma zona pintada a negro, era um bocadinho difícil fazer acreditar às pessoas que haveria ali espaços diferentes, sem ser virados para o modelo da prostituição.” E os clubes da Avenida 24 de Julho, em Santos e Alcântara, bem como o Bairro Alto, eram concorrência forte.

Desde o 25 de Abril que o negócio da prostituição na zona estava em decadência. Quando as drogas se tornaram frequentes em Portugal durante os anos 80 e 90 — e um verdadeiro problema de saúde pública — isso também impactou a prostituição. “A droga foi a maior causa da degradação do aspeto delas. Foram-se degradando. As casas foram tendo cada vez menos raparigas.”

E acrescenta: “Dizia que os donos das casas, mais tarde ou mais cedo, iriam ser obrigados a mudar. Na altura ainda dava, as rendas eram muito baratinhas, não havia grandes encargos… E sempre pensei que seriam os próprios clientes, quando houvesse uma maior afluência à zona, que já não iam à procura de prostituição, haviam de experimentar os espaços por curiosidade, para beber um copo. No Liverpool, no Oslo, no Roterdão, naquele e no outro… E iam encontrar as casas abandonadas e muitas vezes eram os próprios clientes que iam pedir aos donos da casa para pôr aquele tipo de música. E isso viria a tornar-se um hábito — os clientes traziam discos. E por vezes até se divertiam a pôr música”.

O radialista António Sérgio morreu em 2009.

Porém, reforça que muitos proprietários nunca tiveram qualquer intenção de terminar com o modelo da prostituição a que estavam habituados. “Foram obrigados a isso. Mas ainda bem, no meu entender. Para mim e para eles. Hoje eles estão satisfeitos com a mudança. Toda a gente está.”

Em 1990, António Costa deixou o Tokyo. Foi convidado pelos donos do Viking, do outro lado da rua, para se tornar sócio deles. Queria criar um modelo idêntico ao do Tokyo, pondo de lado a prostituição, mas não foi bem sucedido. Não tinha muito poder, só possuía uma quota de cinco por cento entre sete sócios (um dos quais, curiosamente, era padre).

“Pensava que o Viking ia trabalhar no modelo que o Tokyo já tinha. Mas não tive alternativa. Embora muito contrariado, só tinha uma quota de 5 por cento. Entre 1990 e 1992 estive ali a tentar fazer alguma coisa que agradasse ao resto dos meus sócios. Em 1992, como os resultados não eram muito satisfatórios, tentei então fazer uma cópia do Tokyo. Mas já tinha perdido algumas ligações, as pessoas que me acompanhavam não tinham nada a ver… Não foi possível. Tivemos que voltar ao Viking do passado.”

Em 2000, fez uma nova tentativa de mudar um espaço, quando se tornou um dos sócios do Passaporte Bar, que também operava segundo o modelo da prostituição. Mudaram o nome para Vache Folle — “Vaca Louca” em francês, que era o nome de um pequeno clube em Santos. Mas também não resultou. “Havia uma enorme vontade porque era o que me tinha deixado muito satisfeito no Tokyo, mas não deu.” Eventualmente, a prostituição deixou de ser recorrente no Cais do Sodré. Mantiveram-se alguns bares, contudo, com espetáculos de strip tease. Aos 60 anos, António é dono de alguns deles. 

É o responsável pelo Ménage Strip Club (que era o antigo Vache Folle). Em 2016, abriu o Cais do Pirata, numa antiga loja de tachos e panelas. E desde 2010 que é o único dono do Viking, depois de ter comprado a parte dos seus antigos sócios. Chegou também a ser o dono do Malmequer, em Santos.

Neste momento, o Viking encontra-se encerrado. O edifício foi comprado por um novo proprietário e ainda não se sabe para que será utilizado. O Viking vai manter-se, mas inevitavelmente irá sofrer uma remodelação, que o vai obrigar a reduzir um pouco o espaço que, já de si, não era grande. Ainda não há datas previstas. Quanto à mudança do seu antigo Tokyo, e dos irmãos Jamaica e Europa, para fora da rua cor-de-rosa, diz que sente pena. “Porque quanto mais casas houver, mais clientes atraem. E casas como o Tokyo, o Jamaica e o Europa traziam muitos bons clientes para a rua. São casas que vejo desaparecer dali com muita pena.”

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