De cabelos azuis, visual extravagante e a mesma atitude rebelde que a transformou num ícone dos anos 80, Cyndi Lauper entrou diretamente para a frente do Palco Mundo do Rock in Rio, ao som de “She Bop”. Bastaram poucos segundos para perceber que os 73 anos não lhe roubaram a energia, mesmo que tenham tido impacto na sua voz.
A cantora estreou-se finalmente em Portugal, este sábado, 27 de junho, pouco depois das 20h45, no Parque Tejo. Precisamente o dia dedicado às lendas, no Rock in Rio.
Com uma carreira iniciada no início dos anos 80, Lauper tornou-se uma das artistas mais influentes da pop graças a êxitos como “Girls Just Want to Have Fun”, “Time After Time”, “True Colors” e “I Drove All Night”. Em 2025, foi integrada no Rock & Roll Hall of Fame, reforçando o estatuto de uma das maiores figuras da música popular.
As primeiras palavras dirigidas ao público foram em português. “Olá, tudo bem?”, disse, arrancando imediatamente uma ovação. Depois sorriu: “Isto foi o mais longe que consegui chegar no Duolingo em português.” E acrescentou: “I love you guys. Welcome to Rock in Rio.”
Seguiu-se “The Goonies ‘R’ Good Enough”, onde voltou a mostrar que continua a saber conquistar uma plateia. Cindy Lauper impressiona sobretudo pela forma como mantém muitos dos movimentos que marcaram a sua carreira. As danças excêntricas, quase robóticas, continuam presentes e regressaram em “When You Were Mine”, numa atuação que parecia ligar diretamente a artista de hoje àquela que revolucionou a pop nos anos 80.
A festa ganhou nova dimensão quando chegaram os primeiros acordes de “I Drove All Night”. O Parque Tejo respondeu imediatamente com milhares de vozes e muitos braços no ar. Apesar de algumas limitações vocais naturais, Cyndi Lauper compensava tudo com uma presença em palco impressionante, mantendo uma ligação permanente com os fãs.
Depois chegou “Into the Nightlife”, um dos momentos mais eletrónicos do alinhamento. No final da música ainda houve tempo para mais uma brincadeira. “Viva Ronaldo. I like”, atirou, enquanto segurava na camisola do capitão da Seleção Nacional.
A atuação em Lisboa aconteceu numa fase particularmente especial da carreira da artista. Depois de anunciar a “Girls Just Wanna Have Fun Farewell Tour” em 2025, cada concerto passou a assumir um significado especial para os fãs, que encaram esta digressão como uma das últimas oportunidades para a ver ao vivo.
“Change of Heart” voltou a elevar a energia do recinto, muito graças ao excelente solo da guitarrista, que arrancou uma das maiores ovações da noite. Pelo recinto viam-se dezenas de cabeças a abanar ao ritmo da música.
Pouco depois chegou aquele que acabou por ser um dos momentos mais emocionantes do concerto.
“Estou a tentar aprender português há muitos anos. Quero mostrar-vos uma coisa. Agora olhem à vossa volta. Sabem o que parecemos? Uma comunidade de luz. Nunca se esqueçam disso, não interessa quão estranho o mundo fique.”
Foi a introdução perfeita para “Time After Time”. Os telemóveis iluminaram imediatamente o recinto com vista para a ponte Vasco da Gama, criando um mar de pequenas luzes enquanto milhares de pessoas acompanhavam a cantora em absoluto silêncio durante os versos e explodiam no refrão. Foi um daqueles momentos em que a emoção ultrapassou qualquer questão técnica. A voz pode já não ser a mesma, mas a verdade das palavras e a honestidade da interpretação continuam intactas.
Depois de “Money Changes Everything”, uma versão do tema dos The Brains, a artista voltou a mostrar que a energia continua praticamente inesgotável ao interpretar “Shine”.
Outro dos episódios mais arrepiantes da noite surgiu com “True Colors”. O público voltou a transformar o recinto num enorme coro, dando ainda mais significado a uma canção que continua a ser um símbolo de inclusão, liberdade e aceitação para várias gerações.
Além da música, Cyndi Lauper construiu uma carreira de enorme sucesso no teatro musical. Venceu um Tony Award em 2013 pela banda sonora de “Kinky Boots”, recebeu um Emmy em 1995 e conquistou vários Grammys, tornando-se uma das artistas mais premiadas da sua geração.
Apesar do entustiasmo coletivo, a plateia aguardava os primeiros acordes de “Girls Just Want to Have Fun”, para entrar definitivamente em festa. Cyndi Lauper vestiu-se com um roupão colorido com bolas vermelhas, numa referência à artista japonesa Yayoi Kusama. Milhares de pessoas cantaram, dançaram e celebraram aquele que continua a ser um dos maiores hinos da pop das últimas quatro décadas. Cyndi Lauper sorria constantemente enquanto percorria o palco, provando que a irreverência e a energia que sempre a distinguiram permanecem vivas. Foi precisamente isso que deixou no Parque Tejo, antes de entregar o Palco Mundo ao último grande nome da noite, Rod Stewart.
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