Música

A verdadeira história de “Baby Shark”, o vídeo mais visto de sempre no YouTube

Ninguém sabe quem a escreveu, mas todos querem parte da fortuna que gerou nos últimos anos.
Todos conhecem este irritante refrão.

Confesse: passou mais horas do que devia a repetir o “dudu duru duru” do quase maquiavélico refrão de “Baby Shark”. A certo ponto, ponderou mesmo se não seria a altura certa para agendar uma consulta no psiquiatra. Pois bem, não está sozinho nessa luta, até porque o vídeo conquistou oficialmente esta segunda-feira, 2 de novembro, o título de mais visto de sempre no YouTube — e deixa um legado de pais à beira da loucura.

Ao atingir as mais de 7.05 mil milhões de visualizações, devorou o “Despacito”, de Luis Fonsi, e agarrou finalmente o troféu. A chegada ao topo só pecou por tardia. Todos sabiam que, mais cedo ou mais tarde, os miúdos de todo o mundo dariam a vitória ao tema.

Lançada no YouTube em 2016 pela empresa de entretenimento educativo para crianças sul-coreana SmartStudy — neste caso pelo ramo dedicado aos mais novos, a PinkFong. Espalhou-se pela Ásia, chegou à Europa e finalmente conquistou o planeta, muito graças às versões que as celebridades teimavam em reproduzir nos seus programas.

Chegou ao 32.º posto dos melhores singles da Billboard em 2019 e fez sucesso em quase todos os rankings. Porém, a história de “Baby Shark” começa muito antes do fenómeno com origem na Coreia do Sul.

Com o tema a multiplicar-se pelo mundo, com merchandising a tirar partido da loucura dos miúdos pelo tema, seguramente alguém ficou rico — e, pela lógica, esse novo milionário seria precisamente o compositor. Acontece que ele não existe. Ou, se existe, ninguém o conhece.

Foi também por isso que o norte-americano Johnny Only torceu o nariz quando ouviu pela primeira vez o mega-êxito da Pinkfong. Já tinha ouvido este tema, cantado pelos miúdos dos campos onde fazia animação como DJ, bem há mais de 20 anos. Algo estava errado.

O tema da família de tubarões era recorrentemente cantada à volta da fogueira, com os mesmos gestos e a mesma coreografia. Espantado com o sucesso que tinha entre os miúdos, Only resolveu criar a sua própria versão em 2011.

“A versão [da Pinkfong] parecia muito semelhante à minha. O mesmo tom, a mesma velocidade, melodia, ritmo”, confessou à “CBC” em 2019. 

A verdade é que a sua cover estava longe de ser a única, até porque, como o próprio explica, “Baby Shark” era uma canção tradicional, passada de geração em geração, na maioria dos casos em campos de férias de crianças.

A prova está na versão mais antiga do tema, lançada no YouTube em 2008 por Peter Vigeant que, curiosamente, trabalhava também em campos de férias.

“Estava encarregue das atividades e das canções e foi uma miúda de seis anos que me ensinou a canção ainda em 2001. Em 2004 ou 2005, decidi pegar numa câmara e gravar todos os temas que cantávamos. O mais popular foi o ‘Baby Shark’, que chegou a ter mais de 800 mil visualizações”, conta à “Vulture”.

Muitas outras versões se seguiram, com letras e coreografias modificadas. De técnicas de salvamento a pernas e braços arrancados pelos tubarões — a uma versão eletrónica que se espalhou pela Europa. Houve um pouco de tudo, muito antes dos miúdos asiáticos com barbatanas fofinhas conquistarem o mundo.

Only anotou as semelhanças da sua versão e da que corria o mundo, sem nunca se chatear com isso. Afinal, pensava, era um tema que pertencia a todos, até porque ninguém conhecia o autor. Foi assim até 2018, quando um partido sul-coreano lhe pediu autorização para usar a sua versão do tema. Achou que não tinha que a dar, respondeu que estava tudo bem e foi à sua vida.

Só percebeu o que se passava quando, depois do lançamento do anúncio, a SmartStudy ameaçou dar início a um processo na justiça por violação dos direitos de autor.

“As engrenagens na minha cabeça começaram a girar. Se a canção da Pinkfong é tão semelhante à minha que eles nem sequer conseguiram dar pela diferença, e a Pinkfong ameaça com direitos de autor, não significa isso que a minha versão também deveria beneficiar dos mesmos direitos?”, questionou, antes de lançar, também ele, um processo contra a empresa. O caso ainda corre nos tribunais — sem qualquer decisão anunciada.

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