Música

Agir: “Só posso fazer música com esta liberdade porque o 25 de abril aconteceu”

O artista atua nas celebrações deste feriado no Seixal. Mas antes, deu uma entrevista à NiT.
Começa às 22 horas.

Por ser uma das datas mais importantes da história nacional, o 25 de abril de 1974 é celebrado, anualmente, com uma festa especial em todo o País. No Seixal, “um concelho de abril” onde a chamada Revolução dos Cravos assume particular importância, segundo o vereador da autarquia Paulo Silva, a situação não é diferente. Para 2022, a Câmara local preparou um programa com várias iniciativas culturais, desportivas e sociais que não vai querer perder.

Entre as várias propostas, sobressai o espetáculo “Cumprir a Revolução — Agir canta Abril”, agendado para o próximo domingo, dia 24, às 22 horas. Acontece no Parque da Quinta dos Franceses e, como o nome antecipa, tem Agir como estrela principal.

As ligações do artista a esta data podem ser muitas. No entanto, vale recordar que naquela madrugada, há 48 anos, que abriu a porta à liberdade, um dos sinais para a saída das tropas dos quartéis foi a entrada no ar, na antena dos Emissores Associados de Lisboa, da música “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, pai de Agir. Pouco dias antes do concerto, falámos com o músico sobre as raízes que o ligam ao momento histórico.

Como recebeu o convite para atuar nas celebrações do 25 de abril do Seixal?
Recebi através do meu grande amigo Miguel [Garcia] e com muita felicidade, porque nós fizemos este concerto, sem audiência, durante a pandemia. A oportunidade de realizá-lo novamente, agora com público à frente, é muito gira. Estamos em ensaios e esta semana a coisa já começou a ganhar vida. Temos com muita vontade de partilhar isto com as pessoas.

O espetáculo foi especialmente desenhado para assinalar a data. Como se deu todo o processo? O que pode esperar o público?
O público pode esperar uma banda grande em palco e uma data de músicas de artistas que estão, obviamente, ligados ao 25 de abril, cujas canções as pessoas conhecem, desde José Mário Branco a Sérgio Godinho, Zeca Afonso e Vitorino. São, digamos assim, músicas que estarão, de certeza, no imaginário das pessoas. Posso dizer-lhe, por exemplo, que quando fiz este espetáculo na RTP, o meu sogro, que viveu aquilo tudo naquela altura, adorou e cantou do início ao fim. Como o meu sogro, certamente haverá muito mais pessoas que se irão lembrar e poderão até levar os filhos e os netos para também dar a conhecer e haver aqui esta ponte entre gerações para todos sabermos o que foram aquelas canções e o que representaram. Acho que é sempre um programa interessante.

Este concerto conta com uma série de convidados. Pode adiantar alguns? Como foi feita a seleção?
Sim, acho que sim. Vou ter o Tatanka, o Gaspar Varela, um rapaz que toca muito bem guitarra portuguesa, e a Milhanas, a cantora que foi comigo ao Festival da Canção este ano. São pessoas que já fizeram a versão de estúdio deste concerto e agora acho que faz todo o sentido também virem fazer a versão ao vivo

O que espera o Agir da atuação?
Espero que tenha muita gente reunida à frente do palco para partilhar a felicidade que, de certeza, vai estar a haver em cima dele. Vai-nos dar muito gozo. Ainda por cima, é uma banda enorme que estará a atuar. Infelizmente, não existem assim tantas oportunidades para podermos estar com uma banda tão grande. A Câmara do Seixal deu-nos essa oportunidade, pelo que vamos agarrá-la e divertir-nos imenso. Espero que as pessoas também se divirtam connosco.

O que, exatamente, significa o 25 de abril para si?
O 25 de abril, principalmente no que à música diz respeito, que é a minha vida, significa tudo. Eu só posso fazer a música que faço, com a liberdade que faço, porque o 25 de abril aconteceu. É uma liberdade, que quem já nasceu com ela, como eu, não sabe tanto o que significa viver sem. A única maneira de sabê-lo é através do que os mais velhos me contam ou de livros, pelo que acho muito importante, e pelo menos é essa a minha vontade, fazer alguma ponte para que ainda que estejamos a viver em liberdade, não a tomemos como garantida. Se não, a qualquer momento pode já não estar cá. As coisas — espero que não desenvolvam muito mais no mau sentido —, mas até estão a caminhar para que percebamos que a liberdade realmente é frágil. Portanto, é bom que nos lembremos e não a tomemos como garantida.

Há uma relação familiar entre o Agir e o 25 de abril. Isso fez com que tivesse mais consciência da importância da data?
Acredito que sim. Obviamente, também nunca tive outra realidade, pelo não há um termo de comparação, mas sempre foi um tema muito presente em minha casa. Principalmente com os amigos que lá iam e as músicas que se ouviam. Mesmo que não o tenha vivido, só através das lembranças de outros e desses jantares, onde se falava de tudo isso, é um tema que me diz muito.

Parece-lhe que a consciência dessa importância é generalizada? As pessoas têm noção do que foi e significa ainda hoje o 25 de abril?
Acho que algumas um bocadinho mais, outras menos. Já se pode dizer que estamos a viver em liberdade os mesmos anos que se viveram sem ela, e é normal que quem já tenha nascido depois, mesmo que ouça falar e saiba, não tenha tanta noção do que é viver sem liberdade. E atenção, até para isso se fez o 25 de abril, para que possamos viver em liberdade sem nem saber muito bem o que é não a ter. Ainda assim, se de vez em quando alguém puder lembrar-nos e explicar-nos como é que foi, acho que só temos a ganhar.

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