Luís Represas foi muito mais do que a voz dos Trovante. Ao longo de cinco décadas de carreira, tornou-se um dos artistas mais importantes da música portuguesa, com uma obra que atravessou gerações e o levou a colaborar com alguns dos maiores nomes da música nacional e internacional. Morreu esta quarta-feira, 22 de julho, aos 69 anos, vítima de cancro do pulmão.
Para quem o conheceu de perto, porém, o legado vai muito além dos discos e dos concertos. “Ele fica para sempre na história da música portuguesa, sobretudo pelo contributo dos Trovante. A solo também teve momentos muito importantes, principalmente o primeiro disco a solo (“Represas”), lançado em 1993, que foi um enorme sucesso e tinha o tema “Feiticeira”, gravada com Pablo Milanés”, recorda à NiT o produtor musical Manuel Moura dos Santos, que trabalhou com o cantor ao longo da carreira.
Moura dos Santos lembra que, profissionalmente, voltou a cruzar-se com Luís Represas em 2014, quando o levou a atuar em Luanda, Angola, num espetáculo com Paulo Flores.
Xafarix, um ponto cultural em Lisboa
Fora dos palcos, Luís Represas também se dedicou à restauração. Desde 1986, até aos dias de hoje, era proprietário do Xafarix, um bar histórico de Lisboa que se tornou ponto de encontro de músicos, artistas e outras figuras ligadas à cultura portuguesa. O espaço era conhecido pela programação regular de música ao vivo e espetáculos de stand-up comedy, ajudando a dinamizar a vida cultural da cidade.
Foi precisamente aí que consolidou uma das amizades mais duradouras da sua vida. Carlos Almeida, sócio do Xafarix e amigo há mais de 35 anos, diz à NiT que Luís Represas era muito diferente da imagem pública que muitos conheciam.
“Era uma pessoa muito humana. Não parecia, porque tinha aquela máscara de músico, mas tinha um coração de ouro e uma dimensão brutal na defesa da humanidade”, recorda.
“Vivia para a música, tinha uma paixão enorme por cantar e sofreu muito ao ver a música portuguesa perder espaço nas rádios”, aponta também.
Mais do que um parceiro de negócios, considera que perdeu um amigo. “Sinto uma eterna consternação pela partida dele. Sinto-me mais pobre em tudo. Tinha no Luís alguém a quem podia ligar para pedir conselhos e ele fazia o mesmo comigo. Tivemos muitas dificuldades, mas também muitas alegrias. Ficou uma admiração recíproca.”
Carlos Almeida recorda também o carinho especial que o músico tinha pela zona onde se encontra o Xafarix, em Santos. “Ele cuidou daquele largo e daquela fonte como ninguém. Aquilo estava cheio de ervas e o Luís conseguiu sensibilizar a Câmara Municipal para recuperar o espaço. Até os empregados do bar limpavam regularmente a fonte. Gostava profundamente daquele lugar”.
O sócio lembra ainda uma das noites mais marcantes vividas no espaço. “O Luís apareceu sem ninguém esperar, acompanhado pelo Jorge Palma e pelo Paulo Gonzo. Acabaram os três em palco a cantar. Foi uma daquelas noites que quem lá estava nunca mais esquece.”
Apesar da perda, garante que o Xafarix continuará de portas abertas. “O bar tem uma história enorme e vou dar-lhe continuidade. Espero até que um dia a Câmara Municipal de Lisboa dê o nome de Luís Represas ao largo onde está o Xafarix. Era uma homenagem mais do que merecida.”
O percurso profissional
Nascido em Lisboa, a 24 de novembro de 1956, descobriu cedo a paixão pela música. Comprou a primeira guitarra aos 13 anos e, em 1976, fundou os Trovante ao lado de João Gil, João Nuno Represas, Manuel Faria e Artur Costa. O grupo depressa se tornou uma referência da música popular portuguesa, cruzando influências tradicionais com sonoridades contemporâneas. O álbum de estreia, “Chão Nosso”, foi lançado em 1977 e abriu caminho para uma sucessão de êxitos como “Saudade”, “125 Azul”, “Perdidamente” e “Xácara das Bruxas Dançando”.
Depois de 16 anos de sucesso, os Trovante separaram-se em 1992. A decisão acabou por marcar o início de uma nova etapa para o músico. No ano seguinte, editou o primeiro álbum a solo, “Represas”, gravado após um período criativo em Havana, Cuba, onde trabalhou com o baixista português Nani Teixeira e com os músicos cubanos Pablo Milanés e Miguel Núñez. Desse disco nasceu “Feiticeira”, o dueto com Pablo Milanés que rapidamente se tornou um dos temas mais emblemáticos da sua carreira.
O sucesso continuou ao longo da década de 90. Encheu por duas noites o Coliseu dos Recreios, em 94, lançou o álbum “Cumplicidades”, gravado com a participação de Bernardo Sassetti e Davy Spillane, e mais tarde voltou a esgotar quatro concertos consecutivos no Centro Cultural de Belém, registados num disco ao vivo. Em 1998 editou “A Hora do Lobo”, outro dos trabalhos mais marcantes da sua discografia.
Em 1999 voltou a reunir-se com os Trovante para um concerto especial no Pavilhão Atlântico, a convite do então Presidente da República, Jorge Sampaio. No mesmo ano, foi escolhido pela Disney para interpretar, na versão portuguesa, as canções compostas por Phil Collins para a banda sonora do filme de animação “Tarzan”, uma colaboração que deu ainda maior projeção ao cantor.
No início dos anos 2000 lançou “Código Verde”, disco que inclui “O Lado Bom da Saudade”, apresentado na cerimónia da transferência de soberania de Macau, e o tema “O Zorro”, gravado com Martinho da Vila. Também assinou a banda sonora original da série televisiva “A Raia dos Medos”. Em 2001 celebrou os 25 anos de carreira com concertos no Pavilhão Atlântico e no Coliseu do Porto, seguindo-se o álbum “Reserva Especial”, gravado com a Orquestra Sinfónica da República Checa.
Em 2005 foi distinguido pelo Estado português com a Ordem de Mérito, no grau de Comendador, reconhecimento pelo contributo dado à cultura nacional. Três anos depois lançou “Olhos nos Olhos”, gravado integralmente em Cuba, com participações de Simone, Pablo Milanés e Liuba Maria Hévia. Ao longo da carreira colaborou ainda com artistas como Fausto Bordalo Dias, José Afonso, Carlos do Carmo, Jorge Palma, Ivan Lins, Compay Segundo, Gilberto Gil e Carlinhos Brown, entre muitos outros.
A ligação a Timor-Leste foi outro dos capítulos marcantes do seu percurso. Depois de os Trovante lançarem a canção “Timor”, em 1990, Luís Represas envolveu-se na defesa da causa timorense e foi convidado por Jorge Sampaio para integrar uma visita oficial ao país em 2000. Mais tarde recebeu a Medalha da Ordem de Timor-Leste, atribuída pelo Presidente Taur Matan Ruak em 2005.
A música nunca foi o único espaço da sua criatividade. Em 2010 estreou-se na literatura infantil com “A Coragem de Tição”, livro integrado no Plano Nacional de Leitura. Em 2019 recebeu o Prémio Pedro Osório, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores ao álbum “Boa Hora”. Nos últimos anos conciliava os concertos com a apresentação do programa “Língua Mãe”, dedicado à divulgação da música portuguesa.
O artista preparava ainda as comemorações dos 50 anos de carreira. Depois do regresso dos Trovante aos palcos, em março deste ano, tinha concertos marcados para abril de 2027 nos Coliseus de Lisboa e do Porto, onde pretendia revisitar meio século de música. Esses espetáculos acabaram por ficar como o último grande projeto de uma carreira que ajudou a escrever algumas das páginas mais importantes da música portuguesa.
Leia este artigo NiT para a conhecer a crítica do último concerto dos Trovante.








