Música

Ana Colaço: falámos com a primeira voz feminina do “Oceano Pacífico”

É o programa há mais tempo no ar na rádio nacional. A locutora sucede a Marcos André e João Chaves.
Está no grupo da RFM desde o início dos anos 90.

Ana Colaço tinha dez anos quando “Oceano Pacífico” estreou, em 1984. O programa era conduzido por Marcos André e a ideia era passar baladas e músicas calmas ao final da noite e às primeiras horas da madrugada. Pouco tempo depois, o locutor aceitou outro desafio e foi fazer “A Loja do Mestre André”. Nessa altura, João Chaves ficou com “Oceano Pacífico”, o programa que só deixou em 2013 — precisamente para o devolver a Marcos André, que voltou a pegar no formato e ficou com ele até agora.

Durante 37 anos de existência, tornou-se um programa icónico e histórico da rádio portuguesa — o mais longo na rádio nacional. Uma nova etapa começou neste ano de 2022, quando, a partir de 2 de janeiro, Ana Colaço começou as emissões como a nova locutora oficial de “Oceano Pacífico”.

O programa é emitido entre domingo e quinta-feira, das 23 horas às duas horas da manhã. Mas também pode ser ouvido online, numa emissão digital que dura 24 horas por dia, para todos os que quiserem estar mais tempo ligados ao “Oceano Pacífico”.

“Primeiro fiquei caladinha que nem um rato [risos], quase sem palavras”, explica Ana Colaço sobre a forma como reagiu quando o convite lhe foi feito pelo diretor da RFM, António Mendes. “Depois, quando percebi que era mesmo a sério, aceitei com muita emoção e responsabilidade. Porque este não é só o programa mais antigo da rádio em Portugal no ativo, mas é também um programa mítico, que diz muito a muita gente. É muito importante para os portugueses, para a memória coletiva.”

O convite não surgiu do nada, já havia um precedente. Durante a pandemia, quando as rádios passaram a ser feitas na casa dos locutores com outros meios técnicos, grande parte da programação teve de ser reajustada. Nessa altura, e de forma provisória, Ana Colaço substituiu Marcos André no “Oceano Pacífico” durante alguns meses. “E de repente, receber esta proposta quase na véspera de Natal… Foi o meu presente deste ano, sem dúvida.”

João Chaves e Marcos André deram a bênção a Ana Colaço. “Quando fiz a substituição, falei com os dois precisamente sobre esta passagem do ‘Oceano Pacífico’. E sempre senti que ficaram ambos muito satisfeitos por ser eu a dar continuidade ao ‘Oceano’. Porque sempre me dei muito bem com eles. Deram-me os parabéns e desejaram-me muita sorte e que, acima de tudo, fosse eu.”

Ana Colaço assume que é uma enorme “responsabilidade e honra”. “São dois homens com uma voz muito forte, com uma presença muito forte, com histórias muito marcantes não só na RFM, mas na rádio em Portugal. E de repente é feito o convite a uma voz feminina, com 47 anos, já com alguma maturidade.”

O objetivo é usar a carga da voz feminina, transmitir uma simpatia extra, e manter os moldes do programa ainda que com uma personalidade distinta à frente dele. “E é muito curioso ver a reação dos ouvintes em tão pouco tempo e ter ouvintes a reagir tão bem à diferença. Falam de continuação, obviamente, porque as grandes músicas calmas estão lá, o objetivo do programa é o mesmo, mas acaba por ser diferente, acabo por trazer histórias todos os dias e fazer partilhas. Não é melhor nem pior, é apenas diferente.”

Ana Colaço destaca os ouvintes de norte a sul de Portugal, de todas as faixas etárias, mas também os emigrantes na Suíça, em França ou nas Caraíbas que acompanham regularmente as emissões. A interação com os ouvintes, algo que sempre aconteceu desde os anos 80, passou das cartas e dos telefonemas para as mensagens no WhatsApp e no Instagram. Além disso, sublinha, a ideia passa por fazer o “Oceano Pacífico” fora do estúdio quando assim fizer sentido, uma vez que hoje existem condições para isso. Afinal, Ana Colaço sempre foi repórter e passou tanto tempo fora como dentro do estúdio.

Uma vida ligada à rádio 

Ana Colaço cresceu a ouvir rádio — e o “Oceano Pacífico” sempre foi um dos programas mais presentes, entre outros que enumera, como “O Postigo da Noite”, de Fernando Alves, na TSF. “Estudei, adormeci e vivi muito ao som do ‘Oceano Pacífico’, obviamente. Na altura era das dez da noite às duas da manhã, conheci lá muitas músicas.”

Quando era criança, brincava à rádio com a família. “Punha os meus avós e pais à volta da mesa. Tínhamos um aparelho de bobines, um gravador de cassetes e tinha também um gira-discos. Fazia a entrevista, dizia ao meu avô ‘hoje vais fazer de contabilista’ [risos], inventava profissões para os diversos elementos da família, e eles lá tinham que responder consoante aquilo que achassem. Tiveram sempre muita paciência para mim. Era uma das minhas brincadeiras favoritas, fazer essas gravações na sala de jantar.”

E acrescenta: “Sempre gostei muito de ouvir e contar histórias. E isso faz toda a diferença. Em miúda aquilo que gostava mesmo era de histórias, de ler. E em toda a minha vida, todo o meu processo académico foi para ser jornalista, principalmente de imprensa, coisa que acabei por nunca ser. Com a paixão pela voz, pela rádio, por esta coisa maravilhosa de nós conseguirmos comunicar uns com os outros, sempre estive muito ligada à rádio e imediatamente quando entrei no mundo do trabalho aquilo que estava decidida a fazer era ir para a rádio como jornalista.”

Tirou o curso de Comunicação Social e Cultural – Jornalismo na Universidade Católica Portuguesa. Durante a licenciatura, aos 19 anos, teve hipótese de ir fazer um estágio geral no grupo R/Com, da Renascença, RFM e Mega FM. Depois, candidatou-se ao serviço de trânsito durante seis meses. Nessa altura trabalhou com José Carlos Malato, Susana da Mata e Irene Luís.

Queria ser jornalista e conseguiu sê-lo precisamente na redação da Renascença, onde esteve durante 14 anos. Curiosamente, já se cruzava bastante com João Chaves na altura. “Tive durante muitos anos no turno da manhã na Renascença então eu e o João partilhávamos a mesma garagem, porque o João chegava ao final do dia [risos].”

Ana Colaço foi jornalista durante 14 anos.

14 depois, recebeu um desafio do mesmo António Mendes para passar para a RFM e tornar-se repórter na área do entretenimento. Perguntamos a Ana Colaço se essa ideia já lhe tinha passado pela cabeça até então.

“Até ao António me ter feito a pergunta, confesso que não. Porque me sentia muito bem no papel de jornalista, ainda para mais era repórter. Assim que o António levantou a hipótese, a minha pergunta foi: porque não? E obviamente que, depois, passou a fazer todo o sentido. Porque quando passei para a animação continuei a ser repórter — não como jornalista, mas a fazer exteriores e também a fazer o trabalho de estúdio. E sempre tive o programa ao fim de semana precisamente para estar livre para poder sair a qualquer altura. Foi quase o meu acordo com o António Mendes [risos].”

Durante outros 14 anos, e em conjunto com outros locutores, foi voz de estação na RFM. Ou seja, era uma das vozes que faziam jingles e enunciavam o título de um programa, por exemplo. Ana Colaço fazia precisamente a voz em “Oceano Pacífico”. “Aquela voz feminina que diz ‘Oceano Pacífico’? Nessa altura fazia isso. Havia até um ouvinte que me intitulava a ‘menina das ondas’. Porque dizia ‘Oceano Pacífico’ por cima do som das ondas.”

João Chaves e Marcos André estiveram responsáveis pelo programa durante longos anos. Por isso, perguntamos à nova locutora se também vê o “Oceano Pacífico” como um projeto a longo prazo. “É uma pergunta difícil de responder [risos]. Sei que estou muito feliz neste momento e profissionalmente cheguei a um ponto a que quase tinha receio de sonhar. É realmente uma grande responsabilidade, tenho a certeza de que vou fazer tudo para estar à altura dela, mas acho que vou estar pelo menos nos próximos três anos no ‘Oceano’.”

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