Música

Ana Moura: “Quero acreditar que este é um regresso do fado à sua origem africana”

Tem um novo disco, “Casa Guilhermina”, que representa a sua reinvenção artística. Cruza fado e kizomba, folclore e eletrónica.
Ana Moura está numa nova fase da carreira.

Ana Moura voltou a aliar-se recentemente à marca Portugal Jewels, de forma a idealizar uma coleção de joalharia. Resolveu pegar nos tradicionais anéis de curso mas dar-lhe uma reviravolta moderna e original. O mesmo podemos dizer da sua música. Com “Casa Guilhermina” — o disco que lançou a 11 de novembro — pegou na tradição do fado mas juntou-lhe muitas outras sonoridades e aromas. Deu-lhe mundo, desde os ritmos angolanos que evocam as raízes da sua avó; até ao fandango do Ribatejo, onde cresceu; passando por ritmos minhotos ou música eletrónica contemporânea. 

Experimentou ferramentas como o auto-tune, ligou-se à produção digital de instrumentais, escreveu as primeiras letras, fez versões disruptivas de fados clássicos como “Estranha Forma de Vida” ou “Nossa Senhora das Dores”. Depois de largar a sua editora e agência, e de mudar de músicos, assistimos agora ao culminar definitivo da reinvenção artística de Ana Moura. Que, pelo caminho, e de forma mais abrangente, pode também contribuir para reinventar a própria música portuguesa.

Aos 43 anos, mãe da pequena Emília — fruto da relação com o músico Pedro Mafama, um dos principais colaboradores deste disco — Ana Moura pode estar a experienciar uma nova e “estranha forma de vida”. Mas só é estranha para os que continuam agarrados ao conservadorismo do fado, ou para quem no grande público não se apercebeu desta inevitável metamorfose.

Desde que começou a antecipar este disco com “Andorinhas”, em abril de 2021, que tem conquistado um público mais jovem, ligado à música e cultura urbana, procurando aproximar o fado de África, da linguagem contemporânea, do fenómeno internacional que tem sido reinventar a tradição por parte de vários artistas latinos.

Neste caso, mais do que uma invenção, trata-se de uma transformação — porque Ana Moura já era uma fadista de renome internacional, com uma carreira longa e estabelecida, num circuito quase de “world music”, em que o fado muitas vezes está enquadrado no estrangeiro. Agora está a começar uma nova vida, abdicando de alguns privilégios do passado para começar de novo, mais livre e independente do que nunca. A NiT falou sobre tudo isto com a própria Ana Moura. Leia a entrevista.

Lançou há poucos dias o seu novo álbum, “Casa Guilhermina”. Com todas as reações e feedback que já teve, era aquilo de que estava à espera?
Confesso que não. Não estava assim à espera desta reação tão explosiva. Através do Instagram tenho a possibilidade de perceber a forma como as pessoas estão a viver o disco — e estava a comentar há pouco que não são só os singles. É mesmo o disco inteiro. As pessoas estão a vibrar com as músicas todas e isso é uma sensação indescritível. 

Vimos as imagens do pequeno concerto que deu no Chiado e foram realmente impressionantes.
Sim, imensa gente, houve pessoas que me disseram que não conseguiram passar do Largo Camões — muita gente mesmo nas laterais, foi muito bonito [risos].

No último ano e meio da sua vida, muita coisa mudou. Tornou-se independente, mudou certamente parte da sua visão e até identidade artística, foi mãe, perdeu um irmão e agora lança este disco que acaba por ser o culminar de toda esta jornada. Gosta de pensar neste processo como uma reinvenção? Ou é um termo demasiado…?
Sim, reinvenção… Gosto de pensar na ideia de que, numa só vida, posso ser várias coisas e voltar a renascer. Esta coisa cíclica que a vida nos proporciona, se nos disponibilizarmos para isso, é uma coisa que me apaixona imenso. 

De que forma é que a sua avó Guilhermina a inspirou para este disco? Sei que chamou Casa Guilhermina à sua casa, e que o disco foi construído lá, e que acaba por também ser uma espécie de visita guiada sonora. Mas como é que a figura da sua avó a influenciou nesta fase da sua carreira?
Como mulher, a minha avó ensinou-me que se pode ser uma mulher doce, mas ao mesmo tempo extremamente forte. Normalmente as pessoas tendem a associar uma pessoa que é muito doce a alguém que conseguimos fazer tudo dela, não é? E a minha avó, lembro-me perfeitamente que tinha sempre um olhar muito doce, e só respondia que sim, mas depois ia e fazia à maneira dela. E desde pequenina que também sou assim [risos]. Sinto que herdei isso da minha avó. Ela dá-me esta herança de mulher que luta pelas coisas que quer conquistar — e ao mesmo tempo com uma noção de partilha enorme. Acho que também tenho isso e que este álbum representa isso. São as características que ela deixou mais presentes em mim.

E relacionou essas características com a sua luta — para usar o termo que referiu — pela sua independência e pela mudança, é isso?
Exatamente, é isso mesmo.

Muito se tem falado sobre o facto de este ser um disco disruptivo, de não só representar a sua independência mas uma libertação artística. O facto de ter tantas coisas diferentes… Foi muito pensado? Ou é simplesmente o resultado de muita experimentação?
É o resultado da experimentação livre. Sem pensar que pertenço a uma coisa só. Há vários géneros de música que me fazem vibrar desde sempre, mas eu só partilhava realmente o lado mais fadista. Na verdade, os meus discos sempre espreitaram outros géneros de que gostava, mas este, sim, é muito mais disruptivo nesse sentido. É a primeira vez que junto a eletrónica com o semba, a kizomba, os ritmos minhotos, o fandango e o próprio fado. É a primeira vez que reúno todos estes géneros e assim à primeira poderia soar a uma coisa completamente esquizofrénica. Mas de facto é aquilo que sou — são as camadas todas que me compõem, não é? E ainda bem que não somos uma coisa só. 

O facto de o fado por vezes ser considerado quase sagrado, intocável…
Sim, exatamente, essa pressão às vezes condiciona-nos. De nós querermos respeitar ao máximo um género que é tão importante e especial. Isso obviamente acaba por nos condicionar.

Estava a referir-se aos ritmos angolanos, ao fandango do Ribatejo, às influências minhotas. Também é uma reflexão das suas origens e sei que viveu em vários sítios durante a infância, porque a sua mãe era professora e mudava muito de escola.
Exatamente, a minha mãe veio novíssima de Angola para Portugal, na altura da revolução, então não estava efetiva em nenhuma cidade. Andou a saltitar, eu vivi em algumas cidades, mas cresci essencialmente no Ribatejo. Daí a presença do fandango. Mas, sim, desde pequenina que os meus pais são amantes de música. Cantam muito bem os dois, o meu pai toca alguns instrumentos e tinha uma banda antes de se casar com a minha mãe. Nunca fizeram disso profissão mas são grandes amantes de música. E cresci neste ambiente. Portanto, todos os meus fins de semana eram passados com muita música, a ouvir o meu pai tocar e cantar. E ouvia-se muita música angolana em particular. Sempre adorei estas sonoridades, e a própria sonoridade da língua do quimbundo e do umbundo… Sempre fui uma apaixonada por esta musicalidade que estas palavras trazem. E por isso é que fez tanto sentido para mim — esta é a minha realidade, faz parte do meu universo desde sempre. Surgiu de uma forma natural, não foi nada pensado. Um bocadinho antes da pandemia, andava em tournées gigantescas sem parar. E decidi pedir ao meu manager na altura para ele abrandar na parte de me marcar concertos e comecei a sair e a conhecer melhor o que se passava musicalmente em Lisboa. E conheci os produtores que me acompanharam neste disco: o Pedro da Linha, o Pedro Mafama e, a determinada altura, o Conan Osíris. Senti-me próxima da linguagem musical deles. Pensei: se nos juntássemos, poderíamos criar qualquer coisa bonita. Senti isso. E quando se deu o primeiro confinamento, desafiei-os a vir a minha casa e depois isso estendeu-se, porque começámos a compor, a criar livremente, sem mostrar a ninguém exterior, e estávamos muito, muito felizes. Ficámos meses a viver em minha casa [risos] e foi uma altura mesmo incrível. De repente juntarmos todos estes universos e livres de quaisquer amarras, foi mesmo muito bonito [risos].

Ana Moura tem 43 anos.

E sente que o “Vinte Vinte”, o tema com o Branko e o Conan Osíris, foi uma espécie de prenúncio?
Exatamente, já era um prenúncio disso. Essa música nasce porque eu era vestida pelo Luís Carvalho. Ele ia fazer o desfile na ModaLisboa e convidou-me para cantar. Mas disse-me: gostava que tu cantasses, mas num universo diferente, assim com eletrónica. Então desafiei o Branko a fazer uma música comigo. Fiz a melodia, juntei-me com ele, ele construiu todo o universo musical. Depois estava a partilhar isso com o Conan e ele disse “se vocês quiserem posso escrever a letra”. E assim começou esta música. Cantei-a no desfile e aquilo foi assim um sucesso, com toda a gente a partilhar no Instagram. E nós pensámos: bem, temos de fazer alguma coisa com esta música. 

Mas não estava pensado.
Não, era só mesmo para o desfile. Entretanto decidimos gravá-la porque as pessoas pediam e eu o Branko chamámos o Conan para se juntar e cantar connosco. Fizemos uma nova versão.

E uma das coisas mais marcantes neste álbum é a presença de música angolana. É curioso que muitos estudiosos apontam as raízes africanas ou afro-brasileiras que o fado pode ter, inclusive houve uma investigação recente que concluiu que a famosa Severa era mulata e descendente de escravos, mas depois o fado talvez tenha virado costas a África ao longo de toda a sua história, por muitos motivos, tendo em conta a sociedade. Sente que este álbum é uma reaproximação entre o fado e África?
Sem dúvida. É isso mesmo. Aliás, no Museu do Fado podem encontrar-se registos e gravuras da presença africana, e registos de jornalistas que chamam fado a uma dança e a uma música que é africana. E depois teve a sua evolução — não era nada musicalmente comparado com aquilo que é agora, mas tem essa origem. Por isso, sim, quero acreditar que este é um regresso a essa origem. Acho isso bonito. 

O fado tem uma longa história, depois ficou conotado de alguma forma com o regime da ditadura, os portugueses após a revolução afastaram-se um bocado do género, e depois ao longo dos anos… isto também é uma reconciliação, não é?
Exatamente, sem dúvida.

Este é também o primeiro disco em que escreve letras. Suponho que já tivesse participado de alguma forma no passado nessa parte criativa, mas este é o primeiro…
Sim, ou seja, até agora só tinha feito melodias. Convidava letristas para escreverem para as minhas melodias, mas é a primeira vez que escrevo letras, sim.

Como foi essa experiência?
Quando comecei a escrever, não pensei que iria fazer parte de um disco meu. A primeira letra até escrevi assim meio… Estava a dormir, ia cantarolando, as palavras vinham-me à cabeça, e acordava, agarrava no telemóvel, e anotava a melodia. Aconteceu assim de uma forma muito natural. Depois partilhei com algumas letristas que têm escrito para mim e que considero bastante, como a Luísa Sobral e a Márcia, e elas gostaram imenso e aquilo deu-me força para acreditar que realmente poderia também escrever. Ainda por cima eram histórias minhas. A primeira letra que faço é a “Sozinha Lá Fora”, que nasce de um desencontro meu com o Pedro Mafama. Nessa altura já nos conhecíamos mas estávamos desencontrados [risos].

Outra questão muito diferente é que a Ana entrou no mundo digital, menos ligado aos instrumentos musicais e mais à produção em softwares. Foi uma descoberta?
Foi uma descoberta, é toda uma nova linguagem. Até mesmo de composição. Mas é fascinante mesmo e tenho vontade de aprofundar cada vez mais. E também poder usar a minha voz de outra forma, processada ou com auto-tune, foi uma descoberta mesmo desafiante.

E acredito que também uma grande sensação de liberdade.
Sem dúvida, completamente.

Obviamente, quando fazia aquelas grandes digressões de que falava há pouco, e depois até quis abrandar o ritmo, tinha uma carreira completamente estabelecida. Agora é um circuito diferente, talvez não aquele onde o fado está integrado internacionalmente. Não é certamente um recomeçar do zero, mas é uma espécie de regresso só que a um sítio diferente?
É voltar a um sítio diferente, mesmo. Isso é muito desafiador. É estimulante de repente colocar-me nesse lugar também, como se estivesse a começar. Por exemplo, a tournée que tenho marcada para o início do próximo ano serão os primeiros concertos… Na verdade vou dar agora a 25 de novembro um mini concerto no Super Bock em Stock, mas a digressão vai arrancar em janeiro em Berlim, Paris, Londres e Amesterdão. E são salas totalmente diferentes daquelas que costumo fazer. São clubes, as pessoas não estão sentadas.

É mais o circuito da música urbana.
Exatamente. Vai ser um desafio. Já ouvi dizer que os bilhetes estão a vender-se muito bem [risos], o que me deixa surpresa e extremamente feliz. Esse vai ser outro desafio, mas põe-me mesmo os olhos a brilhar. 

E não teve qualquer problema em possivelmente abdicar de algumas das coisas que tinha conquistado antes.
Não, imagina, passei por salas incríveis — sei lá, a Sydney Opera House, o Carnegie Hall, salas maravilhosas — e fiz todo esse circuito. Mas a determinada altura queres descobrir outras coisas, não é? Agora apetece-me descobrir novos caminhos, novos circuitos.

Os anéis de Ana Moura com a Portugal Jewels

E significa que o álbum não só está a ser bem recebido cá dentro, como está a ter aceitação lá fora.
Completamente. Quem ouve fado fora de Portugal julga que conhece mesmo o que é fado, e que deve ser acompanhado à guitarra e tal, mas, pronto, vamos lá ver como é que vai ser recebido. Estou muito entusiasmada mesmo [risos].

Mudando de tema para as jóias, como surgiu esta colaboração com a Portugal Jewels? E como foi o processo de idealizar esta linha?
A Portugal Jewels desafiou-me mais uma vez para desenhar uma coleção e sempre fui amante dos tradicionais anéis de curso. E pensei: porque não inspirar-me nos anéis de curso e fazer a minha própria interpretação destes anéis? E assim foi. Comecei a desenhar as laterais dos anéis com símbolos que fazem parte das letras das minhas músicas. Escolhi as cores das pedras e atribuí àqueles que considero ser os cursos da sabedoria da vida para as pessoas se sentirem bem-sucedidas, seja a fazer aquilo que for. Acho que aquilo que nos faz sentir realizados é sermos fortes, e usarmos a nossa sensibilidade para conseguirmos ser livres. E por isso foram estes três cursos: a força, a sensibilidade e a liberdade, que conseguimos para representar estes anéis.

Em termos práticos, como funcionou o design das jóias em si?
Tinha um molde de anéis de curso em casa, porque sou fã, e comecei mesmo assim com o meu lápis a desenhar. E depois, com a ajuda da Portugal Jewels, encontrámos um artesão de 70 anos que faz mesmo os anéis de curso para ser o mais fiel possível — mas com os meus símbolos e o meu twist. 

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