Música

António Zambujo: “A música é uma companhia, mas não combate a solidão”

O músico falou com a NiT sobre a criação do álbum "Cidade". Recordou a adolescência, os bailes e o pouco jeito para dançar.
O músico de Beja esteve a falar com a NiT

É um dos músicos mais conceituados de Portugal. Já percorreu o País a cantar os seus inúmeros êxitos — e, ao que tudo indica, veem aí mais uns quantos. Em “Cidade”, editado a 10 de novembro, António Zambujo veste a pele de um personagem para interpretar faixas escritas pelo amigo e colaborador Miguel Araújo.

Sob a ideia da “solidão urbana”, termo que o compositor utilizou para descrever este trabalho, a voz de temas como “Dancemos um Slow” ou “KO” declama canções que invocam um cenário nostálgico e melancólico.

“Estás numa cidade grande, sempre rodeado de muita gente, mas, na verdade, é onde se vivem as maiores solidões”, explicou o cantor de Beja sobre o disco. Zambujo falou com a NiT sobre a criação deste trabalho que irá apresentar a 3 de fevereiro no Coliseu de Lisboa e a 16 de fevereiro no Coliseu do Porto.

Quando surgiu a ideia de começar a trabalhar no “Cidade”?
Não houve, exatamente, um momento que marcasse o início deste processo. A ideia surgiu no festival do Crato, no ano passado. Participei na atuação do Miguel Araújo e, nesse dia, fiz-lhe o convite. Lembro-me disso perfeitamente, mas foi um processo contínuo. Não houve propriamente um clique.

É mais uma etapa de uma longa colaboração. Sente que o Miguel acrescenta algo especial à sua música?
Ele faz músicas de que gosto. Isso é logo meio caminho para todo o processo fazer sentido. Mas, neste caso específico, propus-lhe fazer um disco só com músicas dele. Como se fosse ele a contar uma história, e eu a interpretar. Ele gostou da ideia e avançou muito rápido. Passado pouquíssimo tempo já tinha um disco praticamente pronto para gravar, que até teve algumas músicas que acabaram por ficar de fora.

Enquanto cantor, como se sente a interpretar as músicas de outro escritor?
É um processo que acho muito interessante. Faço muitas parcerias com músicos. Nomeadamente o Miguel, Pedro da Silva Martins, o João Monge ou a Maria do Rosário Pedreira. É bom quando começas a ganhar uma familiarização com os compositores e eles já começam a criar letras sabendo aquilo que gosto de cantar. Por isso, mesmo que as músicas não sejam feitas por mim, são quase como se fossem autobiográficas.

Como um ator a interpretar um papel?
Na música não falamos apenas de nós. Algumas histórias são nossas, mas existem muitos casos onde nos inspiramos noutras pessoas. Por exemplo, este disco é imaginado por mim e pelo Miguel como se fosse um dia na vida de uma pessoa qualquer. Não há nada de pessoal nestas letras.

Quando canta, por exemplo, a “Dancemos um Slow” não imagina o Miguel a dançar um slow?
A dançar um slow comigo? (risos). Esta foi mais uma música que nasceu dos nossos diálogos. Todas as pessoas da minha geração se lembra de estar no liceu e participar em matinés. O nosso objetivo era esperar pelo final quando tocavam estas músicas mais lentas para podermos dançar agarradinhos à pessoa que nos gostávamos. Esta letra remete-nos para esse universo adolescente.

Era um bom dançarino?
Sou péssimo dançarino (risos). É uma frustração. Nunca dançava por iniciativa própria.

Não havia um tema específico que gostasse de ouvir na pista?
Lembro-me perfeitamente de uma música que estava na moda quando saiu na altura. Que era de um cantor que se chamava Glenn Medeiros. Chamava-se… “Nothing’s Gonna Change My Love For You”. Essa era a música que dançávamos sempre no final das matinés.

Voltando ao álbum, o Miguel usou a expressão “solidão urbana” para o descrever. Identifica-se com esta expressão?
Quem é que não se identifica? Especialmente para quem vive numa cidade grande. Inevitavelmente, acaba por passar por esta experiência, apesar de ser algo um bocado camuflado. Mesmo que estejas num local sempre rodeado de muita gente, é aqui que se vivem as maiores solidões.

O disco ajuda a combater essa solidão?
Não é para combater, é para retratar. Combater não combate nada. A música faz companhia, mas combater é difícil — é pretensioso dizer isso.

Essa solidão e melancolia transpareceram nas sessões de gravação mais intensas?
Nada é intenso, nem tenso, nem stressante, nem nada disso. O processo de gravação dos discos é sempre muito tranquilo. Até porque as coisas vão muito bem preparadas para o estúdio e o tempo que nesse espaço é muito curto.

As canções são mais trabalhadas ao vivo, durante os concertos?
Completamente. Vão mudando à medida que são tocadas. O disco é apenas o retrato do momento em que são gravadas. Depois, vão mudando e evoluindo. Nós não somos máquinas. Todos os músicos que tocam vem de um contexto de música improvisada, por isso, este processo aberto é algo natural. Todos precisamos de fazer música desta forma e não tocar sempre da mesma maneira.

Retratou o trabalho em estúdio de forma muito clínica. Como foi o processo de criação de “KO”, uma das canções mais intensas de “Cidade”? É uma interpretação muito emocional.
Todas as interpretações correram muito bem devido ao trabalho do João Salcedo no piano. Graças a ele, criou-se uma ligação muito forte entre a voz e o piano. Durante a pré-produção, a nossa intenção era fazer maquetes de todas as músicas só com a voz e o piano. Depois, iríamos passar para essas gravações aos outros músicos que entram no disco para serem acrescentadas camadas aos temas. A ligação foi tão boa que muitas dessas maquetes acabaram por se tornar definitivas. Uma delas foi a “KO”. Há uma ação e reação entre os músicos que cantam e os que tocam piano a partir da improvisação. Depois foi só acrescentar a minha intenção à forma como as letras são interpretadas. E ficou assim.

“Cidade” já saiu há mais de um mês. Entretanto, teve oportunidade de tocar as músicas ao vivo: como têm sido recebidas pelos fãs?
Tem corrido bem. Temos acrescentado as faixas novas de uma forma gradual aos concertos. Mais ou menos à medida que elas vão saindo. Temos tido boas reações, mas são músicas que precisam de tempo e amadurecimento. Quando lanças um disco novo, não podes esperar que as pessoas reajam da mesma maneira ao material mais recente como reagem às músicas antigas e mais conhecidas. É natural ser assim. Não é por serem melhores ou piores. É porque já entraram na cabeça e no coração das pessoas. Agora, é esperar que estas façam o mesmo caminho.

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