Música

Arcade Fire: uma noite de glória no Campo Pequeno

Os canadianos deram o primeiro de dois concertos em Lisboa esta quinta-feira. E o público reafirmou o “nós” com a banda.
Esta sexta-feira há mais.

Quatro anos depois de terem sido felizes no Campo Pequeno, em Lisboa, os Arcade Fire regressaram para dois concertos. O primeiro aconteceu esta quinta-feira, 22 de setembro — mas as circunstâncias em torno do espetáculo seriam sempre diferentes. Afinal, é impossível ignorar as alegações recentes feitas por três mulheres sobre as “relações sexuais impróprias” que terão tido com o vocalista e frontman Win Butler.

O músico confirmou as relações, alegou que foram consensuais, mas assumiu o adultério — deixando Régine Chassagne, a sua mulher, outra das principais figuras dos Arcade Fire, numa posição certamente desconfortável. As críticas e sentimentos de desilusão fizeram-se sentir nas redes sociais, a compatriota Feist decidiu cancelar os seus concertos de abertura na tour. Portanto, esta sombra inevitavelmente envolveu Win Butler e companhia no Campo Pequeno. A postura, aliás, parecia ser a da procura de redenção — de alguma hesitação inicial.

Isso mudou, contudo, quando os Arcade Fire perceberam que o público estava completamente alienado em relação a isso — fosse por ignorância ou indiferença. Acima de tudo, a multidão que praticamente esgotou a sala de espetáculos estava desejosa de ouvir os êxitos que os afirmaram como uma das grandes bandas dos últimos 20 anos — como um dos principais nomes da era do indie. E foi nessa comunhão que a redenção (por mais injusta que seja, atenção) pareceu formar-se entre os músicos em palco e as pessoas na plateia.

A música dos Arcade Fire convida precisamente a isso. Os coros foram compostos para serem entoados a mil vozes — é ao vivo que a sua existência ganha realmente sentido. O grupo equilibrou o alinhamento entre as músicas do mais recente disco, “We”, e alguns dos maiores sucessos da sua carreira. O público pareceu especialmente interessado nos temas que pediam uma maior apoteose, movimentos de dança, saltos e braços no ar. “The Suburbs”, “Age of Anxiety II (Rabbit Hole)”, “Rebellion (Lies)”, “Haiti” (com a histórica banda de abertura Boukman Eksperyans), “No Cars Go”, “Everything Now” ou “Wake Up” foram algumas das canções que foram recebidas com maior euforia.

Porém, o que mais impressionou e marcou pela diferença foi a forma como a banda transcendeu o dito concerto normal. Tudo começou com um DJ, de maracas em punho, a passar música por baixo da enorme bola de espelhos instalada no teto do Campo Pequeno.

Os efeitos visuais e de luzes foram imersivos o suficiente para que (quase) conseguíssemos olvidar a estética tauromáquica e contrastante do Campo Pequeno. E bem no centro da sala, o grupo instalou um pequeno segundo palco, com um piano que até tocou sozinho (ou de forma remota), e que foi usado de forma esporádica por Win Butler e Régine Chassagne ao longo da noite.

Essa barreira entre banda e público foi quebrada diversas vezes — o que simboliza a tal tentativa de (re)aproximação. Win Butler irrompeu a cantar pelo meio do público, seguido por um segurança portentoso, Régine Chassagne foi fazendo a travessia entre os dois palcos pelo meio da multidão.

O final, em profunda comunhão, representou isso mesmo: uma arruada dos membros da banda, que saíram por uma das portas do público do Campo Pequeno, e que só parou no exterior da sala, sob o céu de Lisboa, com o público à volta a cantar e a aclamar os seus ídolos. Por muito que se discuta (e bem) a relação que temos com a arte e os problemas (por vezes profundos) dos seres humanos que a criam, neste caso o público reafirmou o “nós” do álbum dos Arcade Fire e que esteve estampado em palco durante toda a noite.

Carregue na galeria para ver mais imagens do primeiro espetáculo de 2022 dos Arcade Fire no Campo Pequeno. As fotografias são de João Padinha e foram cedidas pela promotora Everything is New.

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