Música

Artistas contra festival patrocinado pelo governo: “É antidemocrático”

O TV Fest, que começa esta quinta-feira, 9 de abril, vai receber um milhão de euros para ajudar a cultura. Uma petição pede que seja cancelado.
Ninguém se entende

A iniciativa partiu do Ministério da Cultura como forma de ajudar artistas e técnicos numa altura em que a pandemia obrigou ao cancelamento e adiamento de centenas de espetáculos. Um milhão de euros foi o favor que a ministra, Graça Fonseca, disponibilizou para o formato inédito: quatro artistas por programa, sendo que são estes que escolhem os convidados do programa seguinte, e assim sucessivamente, até aos 120 concertos. O formato não agradou a muitos artistas que lançaram uma petição que, à hora de publicação desta notícia, já contava mais de nove mil assinaturas.

Anunciado esta quarta-feira, 8 de abril, o TV Fest — que arranca com Júlio Isidro como apresentador e Marisa Liz, Fernando Tordo, Ricardo Ribeiro e Rita Guerra como primeiros quatro convidados — provocou reações imediatas na comunidade de artistas, que rapidamente organizaram uma petição cujos autores originais se desconhecem.

No texto, os autores explicam que a criação deste festival “constitui uma ameaça ao ecossistema cultural português”, eliminando “curadores, diretores artísticos, músicos, técnicos e demais”, através daquilo a que chamam “um jogo em corrente exclusivo e de círculo fechado”. Para os autores, este formado de corrente é “uma medida antidemocrática e não inclusiva”. “O Ministério da Cultura não pode, em qualquer instância, criar um festival de música portuguesa, para apoiar músicos e técnicos. Não cabe ao estado criar eventos de cultura”, acusam.

Embora o programa esteja já em gravações e, ao que tudo indica, vá mesmo para o ar — deverá ser transmitido esta quinta-feira, 9 de abril, pelas 22 horas, no co canal 444 e na RTP Play —, milhares de artistas e anónimos pedem “o cancelamento imediato do TV Fest, e o cancelamento de qualquer medida que fomente disparidades, competição e desigualdade no acesso”.

Uma das vozes que se manifestou publicamente contra a medida foi a de Paulo Furtado, mais conhecido por The Legendary Tigerman, que partilhou a sua opinião no Facebook. “Não compreendo este método do ponto de vista ético. A mim o que me preocupa são os artistas, técnicos e equipas que não têm como pagar a próxima refeição ou a próxima renda, e devia ser nesses que quem gere a cultura em Portugal devia pensar neste momento. E preocupa-me também que não haja um critério maior, nenhum, a não ser o da escolha pessoal de cada artista que é convidado a participar, na forma como se irá distribuir um milhão de euros por 120 estruturas num sector tão afectado quanto o da música. Não seria melhor distribuir esta verba por 500 estruturas ou mais? E ter a certeza que os mais fragilizados eram incluídos?”.

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