Música

As drogas, o divórcio e a acusação de violação: a vida conturbada de Erick Morillo

O DJ foi encontrado morto esta terça-feira na sua residência, em Miami. Tinha 49 anos.
Caso remonta a dezembro de 2019.

No dia 7 de dezembro de 2019 foi feita a chamada para o 911, o número de emergência nos Estados Unidos: uma mulher em Miami alegava ter sido violada pelo DJ Erick Morillo. Depois de apresentar queixa formal na polícia, foi sujeita a exames de perícia, incluindo o kit de violação que muitas vezes serve de prova neste tipo de casos de natureza sexual. A acusação só viria a ser conhecida muito mais tarde e acabaria por ser mais um estigma na carreira e vida de Erick Morillo — que conheceu sucessos e outras tantas desilusões. O DJ chegou a admitir ter perdido o controlo da sua vida, após se deixar envolver numa espiral de consumo de drogas pesadas. O músico reabilitou-se para poder regressar ao ativo, em 2015. Foi encontrado morto em sua casa esta terça-feira, 1 de setembro — poucas semanas depois de ter sido detido pelo crime de abuso sexual.

Esta história começou na véspera do alegado crime, a 6 de dezembro do ano passado, quando a mulher em causa — cuja identidade não chegou a ser revelada — tinha atuado com o DJ Erick Morillo numa festa privada na discoteca Wynwood Factory, em Miami. No final da noite, a vítima e outra mulher seguiram para casa do músico, em La Gorce Drive.

O caso foi reportado originalmente por uma televisão local. Na noite em que tudo terá acontecido, o DJ e as duas mulheres terão ido para uma piscina, onde a vítima de fato de banho terá sofrido “repetidos avanços de natureza sexual”, segundo a acusação. A mulher terá rejeitado todas as investidas de Morillo, por isso trocou para a roupa que tinha antes e ameaçou mesmo chamar um Uber para se ir embora.

Morillo pediu desculpa, a noite continuou e a vítima acabou por ficar. Mais tarde e já “inebriada”, “encontrou um quarto e deitou-se”. Quando acordou, estava completamente nua, tal como o DJ, que estava debruçado sobre ela. Sentia-se dorida e tinha memórias de ter sido violada. O DJ terá tentado acalmá-la mas a mulher saiu da casa do músico a correr. Foi precisamente nessa altura que a chamada para o 911 terá sido feita.

O DJ de 49 anos foi interrogado pela polícia nessa altura, mas a sua versão dos acontecimentos era completamente diferente. O músico alegava que tinha tido sexo nessa noite, sim, mas com a outra mulher que os tinha acompanhado; e que ficou surpreendido ao entrar nu no seu quarto e ver que estava lá a mulher que o acusaria de violação. A tal outra mulher que os acompanhou até casa do músico naquela noite afirmou à polícia que tinha adormecido no sofá e que não se lembrava de nada, por isso não poderia testemunhar sobre o que teria acontecido.

Perante tanta incerteza e a pedido da polícia, Morillo aceitou fazer uma recolha de ADN para análise. Os resultados só seriam conhecidos este verão. A análise recolhida confirmava a presença do ADN de Erick Morillo no corpo da vítima. No passado dia 6 de agosto, o músico entregou-se à polícia na companhia do advogado. No dia seguinte a sua detenção era noticiada em todo o mundo.

O DJ encontrava-se nesta altura a aguardar o julgamento em liberdade. Até que esta terça-feira chegou a notícia de que o músico tinha sido encontrado morto na sua casa em Miami. O alerta foi dado no mesmo dia, às 10h42 da manhã (15h42 em Portugal Continental), para o 911. As autoridades responderam de imediato e confirmaram o óbito no local. A causa de morte ainda não é conhecida.

Um passado conturbado

Nascido em Nova Iorque em 1971, Erick Morillo passou os primeiros anos de infância na Colômbia antes de regressar com 11 anos aos EUA. Tornou-se nos anos 90 um DJ conhecido na cena house. “I Like to Move It”, lançado em 1994, foi um sucesso gigantesco nas pistas de dança e nos tops musicais. Tornou-se inicialmente famoso através do projeto a solo Reel 2 Real e depois já pelo próprio nome.

A vida constante de atuações em discotecas, a proximidade com as drogas e a sensação de que já não era figura de destaque no mundo da dança terão pesado com o passar do tempo. Em junho de 2013, Erick Morillo faltou a uma atuação com casa cheia e poucos dias depois teve mesmo de ser retirado em pleno espetáculo, em Massachusetts, devido ao seu “comportamento errático”. Em julho, o músico sairia de cena durante uns tempos, anunciando que “precisava de se recuperar” da sua dependência às drogas.

No início de 2015, regressou ao ativo e confirmou que aquele período tinha sido particularmente difícil. Entre o divórcio e o abuso de substâncias perdeu o controlo, confessou. Foi nessa altura que revelou em entrevistas que estava prestes a fazer um ano que estava sóbrio. Aos fãs, partilhou que tinha estado em tratamento em Promises, uma clínica de reabilitação por onde já tinham passado Britney Spears e Charlie Sheen.

No ano seguinte, na International Music Summit, em Ibiza, o músico contou que no auge do seu período de toxicodependência injetava-se regularmente com cetamina. “Quase perdi um braço, ainda tenho uma cicatriz”. O DJ revelou ainda que dependia do álcool e que só à terceira tentativa é que reabilitação resultou.

Morillo abordou ainda detenções de que foi alvo, por acusações relacionadas com droga. Em 2008, uma dessas detenções afastou-o mesmo de uma atuação na Escócia, após ter sido detido no aeroporto. O DJ chegaria a ser banido de voar na British Airways “por ter deixado uma coisa na casa de banho”. Num momento raro, onde surgia a falar da sua vida e problemas pessoais, lamentou ainda o fim do seu casamento.

Tudo começou em 2012, quando anunciou aos fãs que ia casar com a modelo britânica Yasmin Sait-Armstrong. “A mulher dos meus sonhos”, escreveu no Facebook. “O amor da minha vida”, repetiria já alguns anos depois do divórcio. O casal conheceu-se na passagem de ano de 2012 e casou logo em maio. Porém, a relação não durou sequer um ano. 

Today is the big day! I have met the woman of my dreams and I get to marry her. Looking forward to a lifetime together my love, Yasmin Sait-Armstrong.

Publicado por Erick Morillo em Terça-feira, 15 de maio de 2012

 

O divórcio era já uma realidade quando em junho de 2013 foi obrigado a interromper a sua carreira. O seu regresso, relativamente discreto, permitiu-lhe voltar a atuar em discotecas nos mais diversos países, embora a sua paixão principal tenho sido sempre Ibiza, onde chegou a ser DJ residente (e até passou a lua de mel).

Ao longo dos anos, o músico trabalhou também como produtor — colaborou com Whitney Houston, Basement Jaxx ou Macy Gray, por exemplo — e foi destaque em noites de discotecas na América e na Europa. O seu maior hit voltaria a ser um sucesso quando fez parte dos filmes de animação “Madagáscar”, da DreamWorks.

Em Portugal, o DJ atuou no Farol Hotel Design, em Cascais, em 2013. Dois anos depois passou pela discoteca Bliss, em Vilamoura. Atuou também três vezes no Romando Beach Club, em Vila do Conde — a mais recente no verão de 2019. Nesse mesmo período atuou ainda no Mundo Lick, no Algarve.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

NiTfm
Novos talentos

AGENDA NiT