Música

As frases mais emblemáticas de Sara Tavares já estão espalhadas pelas ruas de Lisboa

O movimento foi criado por Gisela Casimiro — considera que a Câmara Municipal não fez o suficiente para honrar a cantora.
Morreu em novembro do ano passado.

“A Sara era muito mais que o Festival da Canção ou o ‘Chuva de Estrelas'”. Quem o diz é Gisela Casimiro, a escritora, artista visual, atriz e ativista — que, no fundo, faz “uma série de coisas em diferentes campos”. O seu trabalho mais recente? Homenagear a cantora cabo-verdiana que morreu a 19 de novembro do ano passado.

Com a ajuda das também ativistas e artistas Cláudia Semedo e Selma Uamusse, decidiu espalhar cartazes com as palavras de Sara Tavares pelas ruas de Lisboa, cidade a que cantora chamava casa. As frases foram “retiradas” das suas canções e poemas.

“Quando a Sara morreu, houve uma correria à escrita de textos, mas falavam mais sobre quem os redigia do que sobre ela. Era uma mulher queer e é importante frisar as suas várias dimensões. Não ficou cristalizada naqueles dois momentos [Festival da Canção e ‘Chuva de Estrelas’] que todos recordam. Foi isso que quis mostrar.”

A iniciativa surgiu para corrigir uma injustiça. Afinal, acredita que a Câmara Municipal de Lisboa não fez o que era necessário para enaltecer o legado da cantora. “As pequenas menções que vimos foram feitas por pessoas que a admiravam e por amigos. Noutros casos, a ação da CML foi quase imediata, e agora isso não aconteceu”, lamenta.

Gisela escolheu afixar as folhas em alguns dos lugares por onde a compositora andava regularmente. “Também optei pelas localizações mais importantes da cidade. Lugares onde nos reunimos, onde se fazem manifestações e onde há diversidade, como a Almirante Reis, Arroios, Intendente e a Graça. As palavras dela serão lidas naquelas ruas”, realça.

Esta não foi a primeira vez que a artista afixou cartazes por Lisboa. Em 2020 fez algo semelhante, mas para divulgar as suas exposições e outros trabalhos. “Há muito tempo que os queria voltar a ter. Sempre gostei de andar a pé e de ver como as ruas dialogam e refletem o que se passa no mundo”, sublinha.

Um dos vários exemplos.

Sara Tavares inspirou muitas pessoas em vida — e o seu legado continuará a ser admirado. “Ela abriu portas para muitas de nós. Antes, quase não víamos mulheres negras a ocupar lugares de destaque”, lamenta. Atualmente, o cenário é diferente e já se veem apresentadoras, jornalistas ou modelos.

O seu trabalho no mundo da música, em permanente diálogo entre Cabo Verde e Portugal, dois países muito importantes na sua vida, é também uma referência para as novas gerações. “Ela fez de tudo, era realmente uma artista completa”, descreve.

Para enaltecer o lado mais intelectual da cantora e poeta, Gisela selecionou algumas das suas frases mais emblemáticas que, ao mesmo tempo, refletem alguns dos problemas que atravessamos atualmente. “Quem já conhece, fica com as melodias na cabeça. Quem não conhece, fica com curiosidade para descobrir”, aponta.

Acredita que o papel é uma arma muito forte para imortalizar Sara Tavares. “Combina delicadeza com permanência e, depois, vai-se transformando. Mas pode ficar durante anos na cidade, até em fotografias”, realça.

Gisela espera que o movimento que criou seja apenas a primeira de muitas outras iniciativas. No futuro, gostava de ver ruas ou auditórios nomeados em homenagem a Sara Tavares. “Só o Governo poderá fazer algo mais permanente e ainda mais visível”, conclui.

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