Um concerto de Marilyn Manson não é um espetáculo comum de música. Toda a gente sabe isso, por isso toda a gente espera qualquer coisa de especial. E foi isso que aconteceu no Campo Pequeno este domingo, 30 de novembro. O exorcismo dos seus próprios demónios arrancou pelas 21h30, com uma cortina preta que escondia todo o palco. Quando finalmente se abriu, revelou nuvens de fumo que davam ao recinto um ambiente quase místico, enquanto as primeiras silhuetas surgiam ao som de “Sacrifice Of The Mass”.
As luzes vermelhas que iluminaram o início do espetáculo (para o qual tivemos de adquirir bilhete) reforçavam a estética pesada e quase infernal do cenário. Manson, de 56 anos, entrou com um casaco preto — que tirou poucos minutos depois, revelando uma camisola de manga cava. A voz, no arranque (e ao longo do concerto, na verdade), estava longe de ser totalmente audível. Ainda assim, a reação do público não tardou. “Lisboa, amo-vos, caralho”, gritou o músico, antes de interpretar “Disposable Teens”.
Manson perguntou depois aos fãs se queriam viajar para 1996 ao som de “Angel With The Scabbed Wings”. Os movimentos teatrais, característicos do artista podem causar dúvidas a quem o vê atuar pela primeira vez, mas foram recebidos com entusiasmo por quem já conhece o seu estilo.
Durante a faixa, houve momentos em que a voz ficou num registo mais baixo e os 56 anos vividos de forma intensa já se notam na forma como não consegue atingir notas que antes alcançava com facilidade. A energia, contudo, mantém-se elevada, em grande parte graças aos moshs que se formaram logo nas primeiras canções.
Antes de “Great Big White World”, Manson realçou que aquela seria a última noite da digressão “One Assassination Under God”, que destaca o seu mais recente álbum editado em novembro de 2024. Mandou um beijo ao público e explicou também que o que o ajudou a atravessar tudo foram os fãs. A faixa começou com bateria e guitarra e foi crescendo até se tornar mais intensa, embora menos frenética do que as anteriores.
Seguiram-se temas do novo álbum, incluindo “One Assassination Under God”, antes de o músico anunciar “This Is the New Shit”, com um: “Estão prontos para esta merda?”. Atirou uma peça de roupa para os fãs da fila da frente e, com jatos de fumo a disparar, intensificou a atuação. Demasiado excitado para o ambiente que se vivia, chegou até a fingir fazer sexo com o palco.
Antes de chegar a “Sacrilegious”, Marilyn Manson abandonou o palco durante alguns minutos. Quando regressou veio com um casaco preto com lantejoulas e um playback porventura mais evidente do que queria no refrão, já que parou de cantar enquanto a voz continuava a soar pelo recinto.
Depois de mais uma pausa com o Campo Pequeno às escuras, voltou para “The Dope Show”, desta vez com um casaco azul. Fez questão de apresentar todos os músicos que o acompanhavam e falou abertamente sobre o amor que sente pelas drogas — e que as drogas sentem por ele. “O meu nome é Marilyn Manson e sou viciado em drogas”, afirmou, sem medo.
Sem pausas, passou para “As Sick As The Secret Within”, antes de lançar aquele que foi a música mais energética da noite: a interpretação de “Sweet Dreams (Are Made of This)”, tema original dos Eurythmics que foi alvo de cover por parte de Manson em 1995. Foi neste momento que o público representou, simultaneamente com ele, um dos maiores picos de entusiasmo do espetáculo.
A placa neon com “Mobscene” acendeu-se e a sala percebeu imediatamente o que vinha aí. Manson perguntou “querem mais?”, quando já sabia a resposta. “Beautiful People” levou o público para outro nível — e, depois de uma vénia, saiu do palco, mas ainda não tínhamos chegado ao fim.
Um feixe de luz anunciou “Tourniquet”, primeiro encore da noite onde Marilyn regressou em cima de andas. Despediu-se e mais uma vez voltou ao palco, agora, para a faixa final, “Coma White”, onde foi acompanhado por confettis que caíram em palco e no público como cinzas desde o primeiro ao último segundo. Se o concerto começou num ambiente infernal, terminou numa espécie de funeral sombrio. O defunto? Marilyn Manson.
“Amo-vos. Boa noite”, disse antes de abandonar o palco de vez após cerca de uma hora e meia de concerto. Foi mais um exorcismo de Manson, antes de voltar para uma vida que, como o próprio admite, voltar para os seus demónios do dia a dia.
Carregue na galeria para ver imagens do espetáculo no Campo Pequeno. Fotografias: Facebook / Prime Artists.

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