É já esta terça-feira, 12 de maio, que saberemos se os Bandidos do Cante passarão à final da Eurovisão com o tema “Rosa”. Mesmo que o percurso do grupo português termine na primeira semifinal do concurso, o orgulho de ter chegado até ali ninguém tira. “Sentimos que já vencemos”, conta Francisco Raposo, um dos cinco elementos, à NiT.
“Já ganhámos por podermos participar em algo com uma dimensão desta e por trazer uma música e uma cultura que nos diz tanto. Estamos felizes porque também trouxemos o nome da nossa cidade e da nossa região, o Alentejo. Isso foi incrível”, acrescenta.
O grupo composto por Duarte Farias, Francisco Pestana, Francisco Raposo, Luís Aleixo e Miguel Costa, com idades entre 24 e 30 anos, chegou a Viena, Áustria, onde decorre a competição europeia, a 1 de maio e lá ficará até dia 17, já que a final está marcada para sábado, 16.
Além da rotina de ensaios, os artistas têm tido tempo para passear pela cidade e conhecer os pratos mais populares da capital austríaca. E todos os momentos são bons para praticar. “Por vezes estamos a beber uma cerveja e começamos a cantar umas modas”, conta.
Durante os tempos livres, também têm estado atentos ao que se diz nas redes sociais. “Olhamos para as críticas construtivas que nos fazem desde o Festival da Canção [a final realizou-se a 7 de março] até agora. Tentámos melhorar, meter algo mais característico na música, tentámos que as nossas roupas fossem mais ligadas ao que é a canção e o Alentejo”, realça Francisco.
Também é nas plataformas digitais, nomeadamente no X (antigo Twitter), que as opiniões se dividem quanto à participação de Portugal na Eurovisão. Afinal, vários países, como Islândia, Irlanda, Países Baixos, Eslovénia e Espanha, decidiram não concorrer este ano devido à participação de Israel, que continua em conflito com a Palestina.
Em Portugal, a maioria dos participantes chegou mesmo a afirmar que, caso vencesse, não iria representam o País na competição europeia. Em conversa com a NiT, os Bandidos do Cante revelaram, na altura, compreender o debate, mas preferem não assumir uma posição política enquanto banda. “É um momento sensível, mas somos cinco pessoas com ideias políticas diferentes. A nossa música é para unir pessoas. Por isso, decidimos ir à Eurovisão”, explicaram.
O objetivo dos cantores é, agora, “levar o Cante alentejano ao mundo para que todos possam ouvir”. “Queremos mostrar tudo o que aprendemos desde miúdos a partir dos nossos avós e depois dos grupos corais por onde passámos”, diz Francisco Raposo. “Poder dar um bocadinho do que é o Cante às pessoas e elas poderem vê-lo no seu estado puro é a nossa maior vitória. Estamos muito entusiasmados para fazê-lo”.
Leia a entrevista da NiT ao artista dos Bandidos do Cante, onde nos fala também sobre alguns segredos dos bastidores da Eurovisão e as relações com os outros concorrentes.
Como estão a correr os ensaios?
Está tudo a correr bem. O primeiro foi mais para ajustar o in-ear [auricular usado em palco] para ficarmos com o áudio que gostaríamos de ter na atuação. Fizemos algumas alterações de câmaras e luzes, mudámos algumas coisas que vamos ter na roupa como a bóina. Está a correr bem. Estamos com uma atuação bem montada e que vai correr muito bem na semifinal.
Desde que chegaram já conseguiram conhecer a cidade e a gastronomia local?
Já fomos comer o famoso Schnitzel [um prato tradicional]. Tivemos a oportunidade de ver como se fazia com o chef de um restaurante conceituado daqui. Já vimos muitos pontos turísticos e museus de Viena. Passámos por muitas salas de espetáculos e tem sido muito agradável. Aproveitamos os momentos em que não estamos na arena [o evento irá acontecer na Wiener Stadthalle] para poder conhecer a cidade.
A cidade correspondeu às vossas expectativas?
Não tínhamos grandes expectativas, mas está a ser muito bom. Está a ser agradável e as pessoas receberam-nos muito bem. A comida é ótima e o clima também tem estado bom. Está muito do nosso agrado.
Ensaiam quantas vezes por dia e durante quantas horas?
Não ensaiamos todos os dias. Só tivemos dois ensaios que rondam os 30 minutos. Depois vamos para uma sala para vermos o que fizemos e tiramos as nossas notas. A nossa comitiva vai para outra sala fazer ajustes de câmaras, luzes e áudios. É assim que funciona porque há muitas delegações e artistas a atuar.
Ensaiam quando estão fora da arena?
Estamos juntos há muitos anos e a música já está muito presente nas nossas memórias e garganta. Não trabalhamos muito isso e é muito espontâneo aquilo que fazemos. Fizemos apenas um ensaio de posições e acabámos por alterar uma coisinha do primeiro para o segundo ensaio. Estamos sempre a cantar modas, é esse o nosso normal.
Como estão sempre a cantar, também acabam por treinar a voz regularmente.
Exatamente. Por vezes estamos a beber uma cerveja e começamos a cantar umas modas.
Quanto aos bastidores, há algo que vos tenha surpreendido e que também possa surpreender o público?
É tudo incrível. Há uma sala onde só vamos fazer o áudio para os nossos in ears e é como se estivéssemos no meio da arena a cantar. Há depois outra sala onde vamos receber todo o material necessário para poder ir para a atuação. O ambiente é muito, muito bom. O catering é impecável. Também temos um psicólogo caso queiramos falar. Há uma sala só para maquilhagem e para barba e cabelo. Isto é de uma dimensão enorme e nós estamos a aproveitar.
Quando vemos o festival na televisão, já percebemos que é algo grande, mas estando aí, acredito que a sensação seja ainda maior.
Nós já tínhamos visto outras edições, mas viver isto por dentro é indescritível. Este festival é mesmo enorme e talvez seja a maior coisa que vamos fazer na vida.
E qual tem sido a melhor parte da experiência?
A experiência tem sido muito agradável. Estamos muito ansiosos para este domingo, dia 10, com a cerimónia de abertura, porque vamos conseguir estar mais tempo com as outras delegações. Isto é tudo muito estruturado e nós somos muitos. Não nos temos cruzado com muitos países. Estivemos talvez só com dois ou três. Essa parte vai ser mais interessante porque viemos aqui com o objetivo de partilhar a nossa cultura com todos os outros países, absorver o que eles têm para nos dar e isso é muito importante para a nossa música.
Já estiveram com artistas de que países?
Já estivemos com a Grécia, encontrámos as raparigas da Estónia, cruzámo-nos também com a Finlândia. Pode-me estar a falhar alguma, mas sei que ainda não estivemos todos juntos. Isso vai acontecer este domingo e a dinâmica entre todos vai tornar-se maior.
Qual tem sido a parte mais difícil desta experiência?
Isto são muitos dias. Nós chegámos a 1 de maio e só vamos embora a 17. Como é óbvio temos saudades da família, dos filhos, das mulheres, dos pais. Mas isto é um sonho para cada um de nós. Estamos a viver um sonho e isto é a melhor coisa que nos poderia acontecer. Estamos mesmo focados nisto.
A Eurovisão é muito falada nas redes sociais. Vocês estão a par do que se diz do grupo ou tentam ignorar o que se passa na Internet?
Olhamos para as críticas construtivas que nos fazem desde o Festival da Canção até agora. Tentámos melhorar, meter algo mais característico na música, tentámos que as nossas roupas fossem mais ligadas ao que é a canção e o Alentejo. Demos o máximo e estamos contentes com o resultado final. Não conseguimos agradar a todos, mas isso faz parte. Mas estamos orgulhosos do resultado e isso é o mais importante.
A atuação na Eurovisão vai ser diferente daquilo que vimos no Festival da Canção?
Sim. Vamos ter roupa diferente e um posicionamento diferente. Vai ser tudo diferente tirando a canção, porque isso não dá para mudar.
Quais são as vossas expectativas para a primeira semifinal, que acontece dia 12?
Nós sentimos que já vencemos. Já ganhámos por podermos participar em algo com uma dimensão destas e por trazer uma música e uma cultura que nos diz tanto. Estamos felizes porque também trouxemos o nome da nossa cidade e da nossa região, o Alentejo. Isso foi incrível. Poder representar o povo português da forma mais simples e pura que sabemos já é uma vitória. Temos sempre o objetivo e queremos muito passar à final. Acreditamos sempre que é possível. Portanto, vamos dar o máximo para que a atuação seja feita da melhor forma possível e que nos leve até à grande final.
Este vai ser o maior palco de sempre na história do Cante Alentejano.
Exato. O nosso objetivo é levar o Cante Alentejano ao mundo para que todos possam ouvir. Queremos mostrar tudo o que aprendemos desde miúdos a partir dos nossos avós e depois dos grupos corais por onde passámos. Começámos praticamente todos em grupos corais juvenis, éramos muito miúdos e agora estamos a realizar um sonho de há muitos anos aqui. Poder dar um bocadinho do que é o Cante às pessoas e elas poderem vê-lo no seu estado puro é a nossa maior vitória. Estamos muito entusiasmados para o fazer.








