Música

Beatriz Batarda: “Não aproveitar o espólio do Bernardo Sassetti seria uma grande perda”

A NiT entrevistou a atriz acerca das várias iniciativas promovidas pela Casa Bernardo Sassetti. O músico faria 51 anos.
Beatriz Batarda tem 47 anos.

Durante o mês de junho aconteceram as celebrações daquele que seria o 50.º aniversário de Bernardo Sassetti. As iniciativas que pretendem divulgar e celebrar a obra do compositor e artista português, que morreu em 2012, são promovidas pela associação Casa Bernardo Sassetti. Estavam previstas para 2020, mas a pandemia obrigou a adiar os planos durante um ano. A 24 de junho, Bernardo Sassetti faria 51 anos.

A 4 de junho foi lançado o álbum “Menina do Mar”, um registo ao vivo do espetáculo com o mesmo título criado por Sassetti e pela atriz Beatriz Batarda, com quem esteve casado, a partir do conto de Sophia de Mello Breyner. Na altura, houve atuações em vários locais, mas esta foi a única gravada, no Teatro São Luiz, em Lisboa. Era um registo do próprio teatro municipal, que agora acaba por ser disponibilizado ao público. O CD está disponível por 14,99€, mas também pode ser ouvido online.

No dia 12, foi exibido o filme mudo “Maria do Mar”, de Leitão de Barros, para o qual Bernardo Sassetti compôs música original. Aconteceu também no São Luiz, com interpretação ao vivo da Orquestra Sinfonietta de Lisboa, com o pianista Francisco Sassetti e a cantora Filipa Pais.

No dia seguinte, na mesma sala, Salvador Sobral interpretou letras escritas pela irmã, Luísa Sobral, por cima de composições de Bernardo Sassetti. No dia 24, houve uma jam session no Hot Clube de Portugal, também em Lisboa, com Alexandre Frazão e Carlos Barreto, que formavam o trio Bernardo Sassetti com o próprio.

Dois dias depois, aconteceu o concerto oficial do cinquentenário, no Centro de Artes de Belgais, no município de Castelo Branco. Juntou Maria João Pires, Mário Laginha, Pedro Burmester, João Paulo Esteves da Silva, Filipe Raposo, Filipe Melo, Daniel Bernardes, João Pedro Coelho e Luís Figueiredo. Coincidiu com o lançamento do quarto volume dos songbooks de Bernardo Sassetti, com música composta por si.

Foi ainda lançado, pela Lavradores de Feitoria, uma edição comemorativa do vinho Meruge tinto — o favorito de Sassetti —, para homenagear o artista português. Esta edição é limitada e está à venda desde 24 de junho — também estará disponível em Belgais e no evento do Hot Clube. Para adquirir o vinho noutros locais, entre em contacto com a Lavradores de Feitoria, através das suas páginas nas redes sociais, do e-mail lavradores@nulllavradoresdefeitoria.pt ou do número de telefone 259 937 380. Há caixas de uma, duas ou seis garrafas, que custam, respetivamente, 25€, 45€ ou 130€.

Contudo, para Beatriz Batarda, a “conquista do ano” no âmbito das celebrações da obra de Bernardo Sassetti é o protocolo que a associação celebrou com o Conservatório Nacional, em Lisboa, para a criação de um curso profissional de jazz em parceria com a Casa Bernardo Sassetti.

No meio destas celebrações da vida e obra do multifacetado artista português, a NiT entrevistou Beatriz Batarda — mas também falámos sobre os projetos profissionais em que tem estado a trabalhar (são muitos, já que tem agenda fechada até 2023) e o momento do setor da cultura. Leia a entrevista.

A Casa Bernardo Sassetti existe há quase dez anos e tem promovido muitas iniciativas. A Beatriz define a programação ou participa de algum modo nessa parte do projeto?
Não, eu não faço parte desse grupo decisivo. Eu valido, tendo em conta que para estas coisas acontecerem é preciso decidir a que é que se tem acesso do espólio do Bernardo, porque por enquanto ainda sou a zeladora dessa herança. Eu deixei um projeto, quando estive na direção da associação no primeiro ano, e construiu-se um programa a longo prazo, com alguns sonhos. Agora sou a presidente da assembleia e participo em todas as reuniões das assembleias gerais, onde se faz o balanço do que se fez no ano anterior e se faz um brainstorm para o que se pensa fazer no ano seguinte. Mas esse programa é delineado pela Inês Laginha e pela direção da casa, composta pelo Pedro Pais, irmão do Bernardo, e pelo Pedro Gonzalez.

Não sei se a iniciativa de criar a associação partiu da Beatriz ou de outras pessoas, como estas que acabou de referir. Mas para si foi algo que fez sentido desde o início?
Para ser franca, não me lembro exatamente de como é que aconteceu. Mas tenho ideia de que foi uma coisa que surgiu dos amigos músicos e que foi abraçada de forma praticamente imediata, porque havia uma proposta do Teatro São Luiz para fazer uma retrospetiva em setembro de 2012. Perante essa proposta, foi daí que surgiu esta ideia de se formar uma associação que pudesse cuidar, divulgar, promover o património deixado pelo Bernardo. Um bocadinho para que as coisas não ficassem estanques em mim, uma vez que eu era a adulta herdeira, além das nossas duas filhas. E tinha o meu próprio percurso profissional para cumprir, do qual não estava preparada para abdicar. E para que a herança artística do Bernardo não ficasse em suspenso surgiu essa possibilidade e portanto eu investi nessa construção nesse ano para depois ir passando a pasta a outras direções.

E a prova de que era possível aproveitar o espólio são todas estas iniciativas que têm sido feitas. Para si era muito importante que o espólio fosse aproveitado e celebrado?
Penso que é uma mais-valia para todos. Claro que pessoalmente é importante, mas não é uma questão pessoal. Eu também sou um agente cultural, digamos assim, e toda a minha vida é construída em função dessa contribuição e construção de uma identidade cultural. Tenho esse sentido muito forte dentro de mim e portanto seria uma perda muito grande para o património cultural português se as coisas ficassem desaparecidas ou inacessíveis. Nós habituámo-nos a ter acesso a elas através do intérprete, do Bernardo, e uma vez não estando presente, colocava-se em questão se seria uma obra que teria pertinência para continuar a viver sem o seu intérprete. Sempre acreditei que sim, assim como muitos músicos, mas penso que o grande público e de certa maneira também as instituições que dão apoio à cultura, o lado mais político do investimento cultural no País, não teriam se calhar essa perceção se não tivéssemos feito este trabalho. A obra musical escrita tem de continuar a circular nas orquestras e pode ser ensinada e passada. Penso que sem a Casa nunca se teria conseguido fazer essa transição. No fundo, esse luto do intérprete, para se poder descobrir o compositor. Ou seja, uma obra que vive por ela mesmo, e que depois também se ramifica por outras áreas, que ainda estão um bocadinho por explorar e que havemos de lá chegar, como a fotografia e o cinema experimental. Com o tempo, e o dinheiro que também é preciso e escasseia, havemos de chegar lá. Mas sim, penso que seria uma grande perda para o panorama cultural português. Sem necessidade. Já bastou a perda do músico tão acarinhado, que se calhar para as gerações novas já é tudo muito distante, em quase 10 anos há toda uma geração nova que não viu o intérprete, mas que está a descobrir a música pelas gravações e pela escrita.

E que projetos estão pensados nessas áreas da fotografia e do cinema experimental?
Há uma exposição de fotografia que já anda a circular e que se chama “E ainda por cima faz frio”. Foi uma escolha do [fotógrafo] Daniel Blaufuks, de imagens do Bernardo, quase todas auto-retratos, e essa exposição tem estado a circular no País. E há um projeto, não sei para que ano, que prevê a edição de um livro. 

E em relação ao cinema?
Estão alinhadas as montagens. Há dois filmes: um chama-se “Bus Stop” e o outro “Hinna”. Os únicos que foram exibidos em público vão ser outra vez, penso que em setembro, no concerto promovido pela Clean Feed, com músicas do trio Bernardo Sassetti, em que o Alexandre Frazão e o Carlos Barreto irão tocar com o João Paulo Esteves da Silva na Culturgest, revisitando aquilo que foi o concerto dos dez anos do trio, em que foram projetados dois ou três filmes que o Bernardo realizou para os temas. E penso que está programado fazer essa projeção nesse concerto.

E os outros dois filmes também serão acompanhados por música?
Não, esses não são filmes para música, só que estão por montar. É um projeto de bastante longo prazo.

Desde que voltou a ser possível trabalhar enquanto atriz, a Beatriz tem feito vários filmes e peças de teatro. Tem sido bom voltar ao ritmo normal de trabalho, que até tem sido bastante acelerado para si?
Sim, acho que um artista — no meu caso, intérprete, que preciso de uma equipa e de um público — ser proibido de trabalhar é muito violento. Porque para todos os efeitos foi isso que aconteceu. Fomos proibidos de trabalhar. Nós estamos muito habituados a sermos boicotados, a cultura é um setor que toda a gente está saturada de ouvir queixar-se [risos].

Bernardo Sassetti faria 51 anos esta quinta-feira.

Mas também com razão.
Sim, infelizmente com bastante razão. Por outro lado, isso torna-nos muito resilientes, mas penso que a pandemia testou a nossa resiliência de uma maneira para lá de tudo. Os apoios, não só financeiros, mas a compreensão do que significava para o nosso setor parar tanto tempo — e continua a significar, no caso de alguns espetáculos — é muito insensível e pouco generosa. Porque não engloba a visão das consequências a longo prazo. Houve muitas pessoas com muita capacidade, muito talento, que fizeram ao longo do seu percurso escolhas mais difíceis, menos comerciais e mais facilitadas economicamente. Porque tinham objetivos artísticos mais arriscados, com desejos de contribuir para o panorama cultural de uma forma mais original e menos leve, e essas pessoas que a longo prazo contribuem mais para a nossa identidade cultural são as que estão mais fragilizadas e são as que sofreram mais com a lentidão e a incompreensão por parte do poder político. E portanto houve muitas pessoas que desistiram, que foram para o campo, que tiveram que fugir das cidades e foram para casa dos pais ou dos avós, e isso vai ter consequências. Por outro lado, agora está a abrir-se o mercado da Netflix em Portugal e há uma corrida à dinamização do mercado mais industrial do meu setor. Há uma divisão muito grande, houve uma cissura entre aqueles que são os profissionais da indústria e os profissionais da arte. E penso que isso seja muito preocupante. Por um lado o estado quer salvar as pessoas do setor dinamizando a indústria, criando acordos com a Netflix e essas empresas de forma a promover mais produções e gerar emprego e dinheiro. Mas, por outro, está-se a criar um abismo muito grande entre estas duas maneiras de trabalhar. E penso que a visão a longo prazo daquilo que é a identidade cultural não se pode perder. Se me pergunta: como é que vivi isto da pandemia? Vivi um bocadinho frustrada de não poder trabalhar, é evidente que fico muito contente de agora estar a trabalhar muito, mas não são tudo boas notícias. No fundo é isso que eu quero dizer.

Ou seja, há profissionais que estão a tentar entrar no mercado das plataformas de streaming e que por isso também estão a desfalcar aquilo que já existia?
Não penso que seja desfalcar, acho é que não se pode investir só numa direção, e são investimentos diferentes. O investimento na industrialização do setor é fundamental. Promove emprego, faz circular mais dinheiro, dá mais oportunidades às pessoas de crescerem tecnicamente, de criar discursos mais competentes. Mas se for só nessa direção, há todo um trabalho de investimento nas criações de autor, no cinema ou no teatro, que já era muito frágil e que corre mesmo o risco de não vir a sobreviver. E penso que isso seja uma perda à qual não podemos estar indiferentes. Eu gosto de pensar que estou a contribuir para as memórias de um País e penso que muitos artistas pensam assim. Se eu fizer o exercício de pensar quais é que são as memórias daqui a 20 ou 30 anos não quero pensar que sejam só as séries que fizemos para as grandes plataformas. Ou as produções dos grandes canais. Penso que é importante as memórias não ficarem por aí. E é nesse sentido que acho que a pandemia veio fraturar ainda mais estas duas vertentes do setor. Podia ter unido, mas fraturou ainda mais – porque o fator económico grita muito mais alto e portanto todas as prioridades, dos investimentos da própria política cultural do governo atual, estão a apontar para a industrialização. Agora, tive a sorte de estar a fazer duas peças de que gosto, o “Perfil Perdido”, peça singular do Marco Martins; e “Fake”, dos dramaturgos magníficos Inês Barahona e do Miguel Fragata, sobre fake news.

E também esteve a gravar filmes.
Sim, acabei o filme do Marco Martins, “Great Yarmouth – Provisional Figures”; o do João Canijo em Ofir, o “Mal Viver”; e o filme da Jeanne Waltz, “O Vento Assobiando nas Gruas”. 

Foram desafios bastante distintos, suponho, que também exigiram participações diferentes da Beatriz.
Sim, todos muito diferentes, com personagens muito diferentes. O filme do Marco Martins foi antes e durante a pandemia. É uma história sobre a exploração, dos ingleses aos portugueses, dos portugueses aos portugueses, dos portugueses aos animais, enfim. E a personagem que me calhou, a Tânia, é uma exploradora de pessoas e ela própria é explorada por pessoas [risos]. Penso que virá a ser um filme muito duro mas bastante imprescindível. O “Mal Viver” é um filme sobre mães, calhou-me fazer uma mãe que está instalada no hotel e é uma mãe que sufoca a filha por excesso de amor. E ama tanto que é cardíaca. É um registo tragicómico. O filme da Jeanne Waltz inspirado no livro da Lídia Jorge é uma história de uma família abastada que não tolera um casamento de uma sobrinha com um rapaz mestiço. E que faz a vida negra à jovem rapariga. Eu sou uma dessas tias e também é uma tragédia que às vezes roça alguma comédia [risos]. É bastante desconcertante, mesmo pela forma como ela filmou.

E planeia manter o trabalho no teatro.
Sim, estas peças ainda vão estar a circular e eu vou também começar o meu próximo projeto, a minha próxima encenação, para apresentar em 2023. É uma trilogia que se chama “Celeste, C. e a Primeira Virtude”. É escrita por mim e é uma peça de teatro ficcionada bastante inspirada na minha experiência pessoal enquanto docente de teatro. É sobre o ensino nas artes em Portugal. Acontece em dois espaços físicos diferentes, mas as partes são encadeadas. Podem ver-se as três ou por partes. E também vou fazer uma peça do [Pier Paolo] Pasolini chamada “Orgia”, uma encenação do Nuno M. Cardoso, com o Albano Jerónimo e uma atriz que não sei ainda quem será. Será para março do próximo ano.

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