Música

Bicicletas na plateia e alienígenas: o que pode esperar dos novos concertos de Coldplay

Pisos que convertem os saltos dos fãs em energia, pulseiras recicláveis e marionetas. "Music of the Spheres" é um mundo à parte.
A ambição de Chris Martin foi cumprida

Em 2019, os Coldplay quebravam o jejum de quatro anos e lançavam “Everyday Life”. No entanto, ao contrário do que os fãs esperavam, Chris Martin e os colegas decidiram não apresentar os novos temas às arenas de todo o mundo. “Não vamos levar este disco em digressão”, afirmou o vocalista da banda. “Vamos tirar o próximo ano ou dois, para percebermos como é que podemos tornar a nossa tour não só mais sustentável, mas também ativamente benéfica.”

Uma turné da banda britânica é um acontecimento gigantesco. A última, em 2016 e 2017, levou-os até aos cinco continentes, onde completaram um total de 122 concertos. A ambição de Martin era, portanto, uma meta difícil de atingir. “Queremos que a nossa próxima digressão tenho o menor impacto possível no ambiente e ficaremos desapontados se não for carbonicamente neutra.”

Três anos depois, a meta não foi atingida. “Apesar de todos os nossos esforços, a digressão ainda terá uma pegada carbónica significativa”, assume a banda no seu site oficial. Ficou, no entanto, a promessa de compensarem estas emissões com o apoio de projetos de reflorestação, conservação, energias renováveis e captura de CO2 — bem como a plantação de milhões de árvores, uma por cada bilhete vendido.

Preocupações sustentáveis à parte, o que mais interessa aos fãs é mesmo a música e o espetáculo que os Coldplay garantem sempre nos seus concertos. Preparações feitas, a banda arrancou a digressão “Music of the Spheres” a 18 de março, na Costa Rica — uma escolha curiosa, mas justificada pelo facto de ser um país onde 90 por cento da energia usada tem origem em fontes renováveis. E, tal como em Portugal, o espetáculo teve direito a datas extra.

Essa é, aliás, a tendência que tem marcado a digressão que já passou pelo México — onde juntou mais de 259 mil espectadores num só evento —, França, Bélgica, Estados Unidos da América, Alemanha, Polónia e Bélgica.

Garantidas estão as esferas coloridas a pularem por cima da plateia, os habituais confetti, o fogo de artifício e as pulseiras coloridas. A tarefa mais difícil passou por manter aquilo que torna uma performance dos Coldplay numa experiência inesquecível, sem atirar para o lixo o novo mantra da banda: a sustentabilidade acima de tudo.

Com quatro datas completamente esgotadas para o Estádio Cidade de Coimbra, os fãs podem começar a preparar-se já para um concerto único, estejam presentes a 17, 18, 20 ou 21 de maio de 2023. Contamos-lhe tudo sobre o que vai poder encontrar nesse reencontro com a banda britânica.

Um espetáculo para todos

No dicionário dos Coldplay, ainda antes da sustentabilidade, vem a inclusão. Os seus concertos estão completamente preparados para ajudar todos os que sofram de diversos problemas de saúde que não lhes permitam desfrutar do espetáculo em pleno.

No centro das atenções está a comunidade surda e de pessoas com problemas auditivos, que em cada concerto terão direito a uma zona especialmente reservada para si. No local, haverá sempre um intérprete de língua gestual. Mais: serão fornecidos uns coletes especialmente desenhados para transmitir as vibrações da música, os Subpac.

Sim, há bicicletas na plateia.

Para os fãs invisuais ou com dificuldades de visão, os Coldplay organizam também umas visitas sensoriais antes de cada um dos espetáculos. E apelam a todos os fãs com problemas auditivos ou de visão que contactem a organização antes dos espetáculos, para que possam providenciar todo o apoio necessário. O contacto deve ser feito para o email access@nullcoldplay.com.

Tocar pelo futuro do planeta

Não foi possível reduzir a zero a pegada carbónica da digressão, mas para se perceber quão a sério é levado o tema, basta visitar o site oficial dos Coldplay, carregado de informação sobre as medidas levadas a cabo pela organização. A promessa é simples: reduzir ao máximo a emissão de CO2, em pelo menos 50 por cento. Como?

A banda desenhou um novo plano logístico que, infelizmente, não pode abdicar dos voos de avião transatlânticos. E também por isso decidiram tomar medidas alternativas para compensar essas emissões. Desde logo, em cada arena irão instalar painéis solares que carregarão baterias para serem usadas no concerto, que se irão aliar ao uso de biocombustíveis.

Sempre que for necessário recorrer à rede elétrica, a preferência será dada a fontes renováveis. E, no que toca à energia, os fãs também poderão dar uma ajuda. Em algumas zonas da plateia, o piso será especial: terá a capacidade de absorver a energia dos saltos dos fãs, que depois é transformada em energia e armazenada em baterias que irão alimentar o próprio espetáculo. Mais: haverá também diversas bicicletas disponíveis para os fãs, para que possam pedalar enquanto assistem ao concerto — e dessa forma ajudarem a alimentar, com a sua energia, as baterias dos Coldplay.

Para se deslocarem de país em país, prometem usar voos comerciais sempre que possível. Quando necessário o uso de voos privados, os Coldplay prometem pagar a taxa para uso de combustível sustentável. No que toca ao palco — que na verdade serão três —, prometem usar “uma combinação de aço reciclado e reutilizável”, que “possa ser usado para outros fins” após a digressão. E no que toca às famosas e luminosas pulseiras, todo o conceito foi redesenhado para “Music of the Spheres”.

“As pulseiras LED são feitas de materiais 100 por cento compostáveis, à base de plantas”, garantem. “Iremos também reduzir a produção de pulseiras em 80 por cento, ao recolhê-las no final do espetáculo, para depois serem esterilizadas e recarregadas após cada concerto. Os componentes eletrónicos serão reutilizados para pulseiras que usaremos no futuro.”

O pisco recolhe a energia dos pulos dos fãs

Mais: os confetti lançados em vários dos temas são 100 por cento biodegradáveis e usam menos gás comprimido para serem lançados. Quanto ao fogo de artifício, “têm menos carga explosiva e novas fórmulas que eliminam químicos nocivos”.

Nada é deixado ao acaso, do uso da água aos copos, até à comida servida a todos os que trabalham na organização do evento. E prometem entregar 10 por cento das receitas a diferentes projetos de proteção ao planeta, do One Tree Planted ao The Ocean Cleanup.

A música propriamente dita

São o motivo que levam os fãs a gastarem centenas de euros e a passarem horas a fio nas filas das bilheteiras: os grandes êxitos. E esses, claro, não faltam na setlist mais ou menos fixa que os Coldplay trazem para esta digressão.

Sempre intocáveis estão os hits como “Fix You”, “Viva La Vida”, “Clocks”, “Paradise”, “Yellow” ou “The Scientist”. Quase sempre presentes estão também temas como “Higher Power”, que tem sido o tema de abertura dos espetáculos, “In My Place”, “Human Heart”, “A Sky Full of Stars” e, quase sempre a finalizar o set, “Biutyful”.

Toda a setlist está dividida em atos, neste caso são quatro: Planetas, Luas, Estrelas e Casa. A acompanhá-los a abrir cada concerto está H.E.R, a cantora norte-americana de R&B.

Em palco, os quatro membros estão dispostos a quase tudo. Para o tema “Infinity Signs”, envergam bizarras e coloridas máscaras de alienígenas — afinal, o disco nasce sob o lema de que “todos somos alienígenas em certo lugar” —, e para a rendição de “Biutyful”, são acompanhados em palco por Angel Moon, a marioneta cantora que brilhou no videoclipe.

Fora do palco, o público faz o resto, enquanto enverga as pulseiras coloridas que vão pulsando e mudando de cor. A seu cargo, claro, ficam os coros estrondosos cantados em uníssono com Chris Martin.

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