Música

Bruce Springsteen: nascido nos Estados Unidos da Hipocrisia

O cronista Nuno Bento escreve sobre o shot que tramou o cantor americano e tirou o anúncio da Jeep do ar.
Bruce Springsteen é um fã de motas.

Não há concertos para falar e talvez por isso o assunto da semana no mundo da música foi a detenção de Bruce Springsteen em Novembro passado, um caso que, como fã do Bruce, não posso esconder que me incomodou. Vamos lá então falar do elefante na sala. O Bruce foi apanhado pela polícia com álcool no sangue, mais precisamente 0.02 g/l. E não, o zero não está mal posto. A história é que ele foi intercetado por um fã a pedir um autógrafo e uma foto, e esse fã ofereceu-lhe um shot de um licor que ele fizera. O Bruce, como Boss que é, sorriu e anuiu a todos os pedidos, como sempre faz. Eu sei, porque já aconteceu comigo.

Esta cena foi testemunhada por um carro da polícia que estava no local e que seguiu imediatamente no encalce da mota onde seguia Bruce. Mandaram-no parar, et voilá, acusou 0.02 g/l. Embora o limite de álcool no sangue no estado de New Jersey seja 0.08 g/l (recordo que em Portugal são 0.5 g/l, sendo que só é crime a partir dos 1.2 g/l), os senhores da polícia federal decidiram deter o Bruce Springsteen, alegando que, apesar do nível negligível de álcool do sangue, ele não estava em condições de seguir para casa. Ficaram, pois, com uma história para contar e com uma pequena vingança contra o tema “American Skin (41 Shots)” (um tema tão medíocre que nem precisava de retaliação), onde Bruce condenou a brutalidade da polícia que baleou 41 vezes um negro em NY, sem que este estivesse armado. A diferença aqui é que o Bruce deu um shot e os polícias, 41.

Ora, eu não quero de maneira nenhuma advogar a condução embriagada, mas sou de Castelo Branco, por isso sei quando é que alguém pode estar em condições de “levar o carro”. Sei que se todos os condutores de Castelo Branco fossem detidos ao marcarem 0.02 g/l, a área da zona industrial da cidade não seria suficiente para alojar os calabouços de um estabelecimento prisional construído só para o efeito. Sei também que se este hábito vigorasse em Portugal, eu já teria sido preso mais vezes que o Vale e Azevedo. Este caso, para mim, tresanda a perseguição pessoal. Compreendo que a polícia tenha ido atrás de um homem que viram beber um shot, mas detê-lo quando perceberam que estava muito abaixo do limite legal é um abuso de poder inaceitável. Não interessa se sou eu, se é o Bruce, se é o Vilarinho. A intenção da polícia (não de toda, só daqueles idiotas) neste processo é óbvia – atacar o Bruce Springsteen.

Coincidência ou não, e eu inclino-me mais para a segunda, este caso vem a público poucos dias depois de Bruce protagonizar um anúncio para a Jeep (podem ver aqui), onde apela ao encontro dos americanos num espaço comum, mostrando uma capela no Kansas situada exatamente no meio da estrada 48 dos EUA. Um anúncio é político, sim, mas apela ao entendimento, uma ideia que hoje em dia parece radical e que nitidamente aborreceu muita gente. Mal passou no Super Bowl, gerou-se uma incrível onda de críticas contra o anúncio e contra o próprio Bruce, muito à conta de republicanos que nunca perceberam a ironia de “Born In The U.S.A.”. Quando este caso de nano-alcoolismo foi revelado, foi como gasolina para as mãos desta gente, que não tardou em crucificar Bruce na fogueira, do alto do seu pedestal moral americano. Resultado? A Jeep resolveu retirar o anúncio do ar, com medo de represálias dos moralistas. Se há coisa para a qual não tenho paciência nenhuma são falsos moralistas ávidos do cancelamento de todos à sua volta e que, invariavelmente, são os primeiros a morrer pela própria espada. Os Estados Unidos da Hipocrisia estão cheios destes insuportáveis falsos moralistas (Portugal também os tem, mas esses são apanhados antes de sequer saírem de casa). Quanto aos que tentaram apanhar o Bruce, daqui não levam nada. #IstandWithBruce

Estou contigo, Bruce. Deixa esses moralistas hipócritas dos EUA e vem mas é para Portugal. E traz a garrafa, que a gente bebe também. 

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