Ainda havia quem atravessasse o recinto da Praia do Aterro, em Leça da Palmeira, à procura do melhor lugar quando um coro começou a ecoar junto ao palco principal. Passavam três minutos da hora prevista para o início do concerto, mas bastou ouvir os primeiros versos de “A Nossa Vez” para milhares de pessoas acelerarem o passo. Os Calema já estavam em palco e ninguém queria perder o arranque daquele que seria um dos momentos mais aguardados do último dia do MEO Marés, este domingo, 19 de julho.
Há quase duas décadas que António e Fradique Mendes Ferreira escrevem uma das histórias de maior sucesso da música em português. Naturais de São Tomé e Príncipe, os irmãos, de 33 e 38 anos, formaram os Calema em 2006, inspirados no nome dado à ondulação provocada pelas tempestades na costa africana. Desde então, transformaram-se num fenómeno da lusofonia, acumulando milhões de ouvintes, salas esgotadas e êxitos que atravessam gerações. Depois de várias passagens pelo festival, incluindo em 2025, regressaram para encerrar a edição deste ano perante cerca de 25 mil pessoas, com o último dia completamente esgotado.
“Como é que é, MEO Marés?”, atiraram ainda antes de terminarem a primeira canção. A resposta surgiu de imediato, numa enorme ovação que se prolongou durante largos segundos. Sorridentes, olharam para a plateia e agradeceram: “Ao vosso lado, Marés Vivas”, disseram, antes de arrancarem para “À Prova de Bala”.
Em palco, os irmãos exibiam a cumplicidade e o carisma que lhes são reconhecidos, acompanhados por uma banda numerosa, bailarinos e uma produção marcada por um forte jogo de luzes, ecrãs gigantes e constantes mudanças visuais.
A energia voltou a subir quando cumprimentaram novamente o público. “Boa tarde. Esta próxima diz assim…”, anunciaram antes dos primeiros acordes de “Amar Pela Metade”.
Os Calema nunca precisaram de incentivar a plateia. O público antecipava refrões, respondia com assobios, palmas e saltos. “MEO Marés, muito obrigada. Como é que é? Esta próxima tem um aroma especial. É mesmo para dançar”, disseram antes de começarem “Perfume”.

Nem foram necessários mais incentivos. A cada refrão, a plateia respondia como se estivesse ensaiada, acompanhando cada verso e cada pausa. Logo depois chegou “Respirar”, recebida da mesma forma: milhares de vozes unidas numa só, enquanto o sol começava lentamente a descer sobre a Praia do Aterro.
Entre canções, António fez questão de olhar demoradamente para o recinto. “Obrigado por esta energia incrível, por esta temperatura fantástica. Temos aqui uma vista fantástica”, afirmou. “Esta seguinte música tem o amor por base. É algo que tentamos levar sempre connosco. Tal como quando viajamos de avião e ouvimos sempre as mesmas instruções para não nos esquecermos do essencial, também nós nunca nos podemos esquecer de levar amor.”
Foi assim que apresentaram “A Nossa Dança”. Apesar de praticamente todo o concerto ter sido vivido aos saltos, foi nesta música que surgiram alguns dos momentos mais ternos da tarde. Casais abraçaram-se, olharam-se nos olhos e dançaram lentamente. A ovação prolongou-se novamente no final da música. “Levem tudo… mas não levem o amor de vocês”, responderam os irmãos, arrancando mais aplausos antes de seguirem para “Leva Tudo”.
Pouco depois prepararam uma surpresa que acabaria por provocar um dos maiores momentos de euforia até então. “Gostaríamos que recebessem esta música com um forte aplauso para a nossa maninha de Cabo Verde. Uma salva de palmas para Soraia Ramos”, anunciaram.
A artista, que pelas 17h45 tinha sido responsável pela abertura do palco principal, regressou para interpretar “O Nosso Amor” ao lado dos Calema. A participação de Soraia Ramos ainda mal tinha terminado e os irmãos voltaram a desafiar a plateia. “Quem aqui veio para dançar?”, perguntaram. A resposta surgiu sob a forma de milhares de palmas sincronizadas, que acompanharam os primeiros acordes de “Maria Joana”.
Foi talvez um dos momentos mais ruidosos da atuação. As cerca de 25 mil pessoas que esgotaram o último dia do MEO Marés cantaram o refrão tão alto que as vozes se sobrepunham, por momentos, ao próprio sistema de som. Entre saltos, assobios e telemóveis apontados ao palco, a festa parecia estender-se muito para lá do recinto.
“Agora vai chover aqui amor… Para atrair coisas positivas”, brincaram antes de iniciarem “Chuva de Amor”. A essa altura, já ninguém estava parado. Os bailarinos percorriam o palco de um lado ao outro, as luzes acompanhavam cada mudança de ritmo e o espetáculo mantinha a mesma intensidade com que tinha começado.
Houve, porém, espaço para abrandar e conversar com o público. António agradeceu a forma como os Calema têm sido recebidos ao longo dos anos. “MEO Marés, que energia incrível. Para nós, estes anos têm sido uma caminhada muito especial, porque vocês estiveram sempre ao nosso lado. Estar aqui hoje, com milhares de pessoas a festejar a música, enche-nos o coração. Obrigado pelo vosso amor e por tanto carinho”, afirmou.
O irmão, Fradique, aproveitou para recordar outro motivo de orgulho recente. Referindo-se à histórica presença de Cabo Verde no Campeonato do Mundo de futebol, destacou que toda a lusofonia vibrou com essa conquista. “Foi uma honra representar o nosso país. É isso que tentamos fazer em todos os sítios onde vamos, porque vocês estão em todo o lado. A música demonstra que estamos unidos e que somos todos irmãos”, disse, pedindo depois uma salva de palmas para o público.
A ligação entre palco e plateia voltou a fazer-se sentir logo a seguir. “Senhoras e senhores… Onde é que anda essa mulher?”, lançaram. Nem foi preciso dizer mais. O público reconheceu imediatamente a introdução de “Onde Anda” e começou a cantar antes mesmo de os irmãos retomarem o microfone. O tema terminou envolvido por um intenso jogo de luzes, jatos de fumo e um longo solo protagonizado pelos músicos da banda, recebido com nova ovação.
Foi precisamente a esses músicos que os Calema decidiram dedicar alguns minutos. “Gostaríamos de deixar um grande agradecimento a toda a nossa banda. Nós até gostávamos de ficar aqui até amanhã de manhã para continuarmos a festa”, brincou António. Depois, o irmão pediu ao público que também aplaudisse toda a equipa técnica que trabalha longe dos holofotes. “São eles que tornam estes espetáculos possíveis. Há muita gente no backstage que merece este reconhecimento.”
Seguiu-se um dos discursos mais pessoais da tarde. Os irmãos agradeceram novamente o convite do festival e confessaram que cada regresso ao MEO Marés continua a ser vivido “como se fosse a primeira vez”. A partir daí, levaram a conversa para as origens da dupla.
“É preciso tempo para criar raízes. Independentemente de onde cada um venha, para alguma coisa perdurar é preciso ter boas raízes. Estamos a falar de uma carreira que começou em 2006. Os Calema nasceram do equilíbrio de muitas coisas, desde a nossa casinha de madeira, onde começámos a cantar, até chegarmos aqui.”
As palavras serviram de introdução para “Casa de Madeira”, naquele que acabou por ser o momento mais intimista do concerto. Ao contrário do ambiente de festa que dominou praticamente toda a atuação, o recinto mergulhou numa atmosfera diferente. Durante os primeiros versos, muitos continuaram a cantar com os irmãos, mas rapidamente deram lugar ao silêncio.
Pouco antes do final, voltaram a agradecer. “Gostaríamos de deixar um obrigado e um ‘amo-te’ a cada um de vocês. Obrigado… Até breve, ou até já. MEO Marés, vamos sentir saudades vossas”, disseram antes de começarem “Te Amo”.
O último tema devolveu a explosão de vozes ao recinto. Já perto do fim, os irmãos interromperam a música durante alguns segundos, numa pausa dramática. O silêncio durou pouco. Uma nova chuva de confetis caiu sobre o palco e o refrão regressou com ainda mais força, acompanhado por uma das maiores ovações da noite.
“Não sabemos para onde esta viagem nos vai levar, mas temos uma certeza absoluta: levamos-vos connosco para toda a vida. Obrigado por este momento. Até à próxima”, despediram-se.
Seguiu-se uma longa vénia ao MEO Marés. Enquanto a banda abandonava lentamente o palco, António e Fradique permaneceram junto à grade durante mais alguns instantes, acenando, distribuindo sorrisos e repetindo um simples “obrigado” vezes sem conta para quem tinha esperado por eles na primeira fila.
O último dia do MEO Marés ainda reserva muitas horas de música, com Danny Ocean a subir ao Palco MEO ao início da noite, antes de Ozuna encerrar a edição de 2026 do festival. Depois de um arranque marcado por milhares de vozes em uníssono e uma celebração da música lusófona, o recinto prepara-se para receber dois dos nomes mais aguardados do cartaz e fechar três dias de concertos junto ao mar.
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