Música

Catarina Filipe: “Dois dias depois de lançar a música já havia pessoas com tatuagens”

A NiT entrevistou a youtuber tornada cantora, que apresentou recentemente um novo single — que tem tido um grande impacto.
Catarina Filipe lançou "Dezasseis" em dezembro.

Catarina Filipe, uma das estrelas do YouTube em Portugal — conta com quase 250 mil subscritores na plataforma —, tem construído uma carreira na música desde o ano passado. Depois dos singles “Xeque-Mate”, “Slow Mo” e “Malvadas”, no mês de dezembro foi a vez de apresentar “Dezasseis”.

É um tema que retrata uma perda que a artista sofreu quando tinha precisamente 16 anos. Também aborda como lida com essa falta — através dos sonhos. Guilherme Alface, dos Átoa, foi novamente um colaborador essencial para compor esta faixa.

Catarina Filipe também se estreou nos palcos no ano passado, quando atuou no Rock in Rio Lisboa e, depois, no Arraial do Técnico. A NiT falou com a artista e youtuber sobre esta nova fase da sua carreira.

O seu mais recente single é “Dezasseis”. Como é que tem sido recebido pelo público?
Tem sido recebido super bem, foi assim mind blowing, porque passados dois dias já tinha pessoas a mandarem-me fotografias de tatuagens com frases da música… Foi o lançamento que mais tocou as pessoas e sempre senti que é uma daquelas músicas que não é tanto para ser ouvida numa festa com amigos, mas mais quando estás naquele momento sozinho. Acho que é uma muito especial e estou muito feliz por isso.

Estes singles que tem lançado vão culminar num disco? Ou não é esse o plano?
O plano será sempre culminar num disco, mas todos os planos que fiz em 2021, quando já tinha uma estratégia definida, tive de os alterar ao longo do caminho porque 2022 veio com muito mais oportunidades do que aquilo que eu estava à espera. Por isso decidi agarrá-las, então o tempo que tinha para me dedicar a essa estratégia ficou menor. Por isso, sim, acho que será um disco, mas não para tão breve como achava que ia ser.

Também porque, hoje em dia, muitas pessoas, sobretudo o público mais jovem, acabam por ouvir mais os singles do que um álbum.
Também gosto dessa vertente de poder explorar cada single e dar um bocadinho de espaço para cada single respirar e viver por si, sem ser meio que atropelado por todas as outras canções. Por isso, estou a gostar muito desta dinâmica por agora.

Tendo em conta aquilo que estava a falar da estratégia, isso significa que tem uma série de singles já feitos mas à espera do momento certo para serem lançados?
Exato. São vários que vão sair a seu tempo, mas que não são para já.

Sei que começou a cantar muito cedo e depois acabou por fazer uma pausa, e iniciou-se nos vídeos do YouTube.
Na verdade, nunca deixei de cantar porque o meu hobbie, quando estava sozinha, era sempre cantar. Era a primeira coisa que fazia. Mas não o partilhava com as pessoas que me seguiam no YouTube, era assim o meu hobbie secreto. Nunca tive formação, mas, quando era mais nova, tive uma banda, aos 13 ou 14 anos, e dedicava-me imenso àquilo. Além de ser a lead singer, meio que era a pessoa que organizava tudo, em paralelo com o que faço hoje em dia, porque sou um bocadinho a controladora mor de tudo o que se passa [risos]. Seja no marketing, na comunicação, na promoção, na produção e composição da música… Até ser realizadora de videoclips e stylist, gosto de estar um bocadinho em tudo. Na altura parece que desisti, mas foi como uma pausa, e tudo aquilo que fui fazendo até chegar aqui meio que me foi preparando para esta caminhada que tenho enquanto artista. A componente do marketing e toda a aprendizagem que consegui fazer nos últimos oito anos como digital influencer obviamente que impactou muito a forma como comunico hoje em dia a minha música e sem dúvida que isso teve um impacto no sucesso da mesma. Podes ter o melhor produto do mundo, mas sem eu o conhecer, não tens nada…

Como se chamava a banda que teve?
Tivemos vários nomes. É aquela fase clássica da adolescência em que gostas de tudo e não gostas de nada. Numa semana gostas de uma, noutra gostas de outra. Nós juntávamo-nos, fazíamos a nossa cena e às vezes tocávamos, nunca fui assim uma coisa muito real, diria [risos].

Não chegaram a gravar nada?
Não, nunca! Ainda por cima, naquela altura não havia a facilidade que existe hoje em dia. Nem havia telemóveis que gravassem vídeos, eram outros tempos. Já me sinto um pouco velha a dizer isto, mas é verdade [risos]. Era uma banda de covers e na altura tocávamos muito Muse, The Killers, Ornatos…

Estava a dizer que depois continuou sempre a cantar como hobbie, para si, em casa. O que é que cantava? Também eram covers?
Sim, foi sempre numa aplicação muito aleatória que se chama Starmaker. Eu cantava de tudo, desde hip hop a sertanejo, passando por Adele ou rock. Ia a tudo mesmo [risos].

Mas estilo karaoke?
Literalmente karaoke! Punha os meus fones com o microfonezinho e cantava com o meu iPad. E ainda é, ainda ensaio para coisas com o meu iPad, porque arranjei aplicações para tudo. Faço tudo em casa, super fácil. É à maneira de youtuber [risos].

Mas também tinha um avô fadista, não era?
O meu avô adorava cantar o fado. Mas naquela altura a minha família não se podia de todo dar ao luxo de se dedicar a uma vida artística, portanto ele trabalhou imenso, gostava imenso de cantar, e quando voltou — porque ambos os meus pais e avós emigraram — à aldeia cantava imenso. Sempre que havia festas ele gostava imenso de cantar. E cantava muito bem — e cante alentejano também. Passou-me mais a parte do cante alentejano do que o fado, confesso, mas nunca se profissionalizou. Tenho muita pena porque acho que tinha realmente muito jeito. 

Sente que essa faceta do seu avô também a influenciou e a levou a gostar de música e de cantar?
Sem dúvida. Ouvia o meu avô cantar e o fado é uma coisa que nos transporta para outro lugar. Acho que, quem canta fado com sentimento, tira-te daquele lugar. Podes estar no sítio mais humilde do mundo e parece que estás a flutuar num universo de mágoa e de saudade mas de uma forma super bonita. Olhava para o meu avô e, mais do que a voz dele, era o sentimento que ele punha quando cantava aquilo. Sempre pensei, até hoje, “porra, acho que nunca vou conseguir cantar com o sentimento que ele metia no fado”. E o meu avô cantava todos os dias e adorava que eu cantasse com ele. Por isso era uma coisa muito nossa e que me lembra muito a minha infância, marcou-me muito. 

Como é que foi então esta jornada de passar do karaoke no iPad para querer lançar mesmo uma carreira na música?
Acho que o primeiro passo, para perder a vergonha, foi pegar nessas gravações e mostrar ao Guilherme Alface [dos Átoa]. E, na altura, curiosamente, mostrei ao Mário Monginho que também acabou por escrever connosco a “Xeque-Mate”. E mostrei-lhes e eles disseram “acho que isto está um bocado grave para ti”, que é uma coisa que oiço até hoje em estúdio, porque se calhar é invulgar ouvir uma mulher com o meu timbre [risos], mas disseram “tens um timbre muito fixe, isto era fixe de explorar”. Ainda demorei cerca de dois anos para explorar o meu timbre com o Gui e, quando começámos, percebi que tinha uma paixão além de cantar que era a composição que nunca tinha escrito sozinha. E quando me agarrei à composição descobri um novo vício porque realmente só queria escrever canções. E foi uma das coisas que mais me custaram este ano. Como o projeto já era público e tinha uma data de coisas para fazer, não poder só dedicar-me à composição… Essa para mim foi a melhor parte deste processo todo, ter descoberto esta nova paixão que é escrever, compor, fazer melodias, que não fazia ideia sequer que ia conseguir, quanto mais que iria gostar tanto quanto gosto hoje em dia. E foi muito difícil porque não tenho qualquer tipo de formação. Tem sido um processo incrível descobrir toda a vertente criativa que a música me trouxe além do que já fazia. Deu-me um grande boost para tudo, foi mesmo muito fixe descobrir uma nova paixão. Achava que ia ser muito mais assustador do que enjoyable nesta primeira fase, e foi uma agradável surpresa. 

É uma nova faceta da sua persona artística, que inclui o YouTube? Ou é algo que até vai ganhar mais protagonismo e preponderância e vai ser a sua base?
São duas facetas de mim super diferentes mas que precisam uma da outra para sobreviver. Acho que a música faz mais sentido para quem me segue, porque é muito autobiográfica. Acho que uma coisa vive da outra. Ambas vão sempre andar muito de mão dada no meu trajeto e é esse o meu plano. As pessoas já me conheciam, eu já tinha partilhado quem eu era e a minha intimidade e quem eu sou, por isso já não conseguia dar esse passo atrás. E daqui para a frente acho que as pessoas vão conhecer-me cada vez melhor. Porque quando estou a compor consigo, de uma forma um bocadinho mais escondida, dizer coisas que não conseguiria dizer num vídeo de YouTube ou numa Story. 

Quais são as suas maiores ambições na área da música?
Acima de tudo, ganhar espaço para as mulheres em lugares que sinto que não existem. Nas duas apresentações que fiz, fiquei super triste porque, quando olhas para o backstage de um espetáculo, são primordialmente homens. Também há muitos mais homens produtores com o spotlight. Sinto que há menos espaço para as mulheres. Por isso, aquilo que eu faço é também para outras gerações que virão, e abrir portas para mulheres. E sinto que, graças à audiência que tenho, consigo ter alguma facilidade em levar a minha mensagem mais longe — e às vezes, por ter outros recursos, como, lá está, ter outro conhecimento do mercado e do meu público de oito anos — porque normalmente um artista não tem e tem de o ir construindo —, acho que tudo isto faz com que eu tenha uma posição de privilégio que me faz ter a obrigação de ter esta posição de que quero abrir portas. Essa seria a minha primeira intenção e o meu grande objetivo com a música. E, além disso, numa vibe mais de sonho e altruísmo, diria cantar no Palco Mundo do Rock in Rio. Mas também porque nunca nenhuma mulher portuguesa cantou lá. Não quero ser a primeira, mas gostava muito de ser uma das que lá estão. Acho que há muitas mulheres que já deveriam ter cantado no Palco Mundo, como a Ana Moura ou a Carolina Deslandes, e podia dizer muitas mais, e que ainda não o fizeram. E gostava muito de fazer parte desse movimento, de trazer mais mulheres para o mundo da música.

Como é que foi a transição do ecrã para o palco? São vertentes muito diferentes.
Não sei… Quando a Beyoncé fala da Sasha Fierce, encontrei uma em mim. Sinto que sou uma pessoa até dizer “boa noite” ou o que seja, e depois sou outra entidade qualquer que descobri no Digital Stage do Rock in Rio, na primeira vez que cantei. Acho que tive alguma sorte, nesse sentido [risos]. Porque quando estou em cima do palco sinto que sou uma versão sem medos de mim própria que gostava que existisse no dia a dia mas que infelizmente só se ativa ali em cima do palco [risos]. 

Sente que tem conquistado um público que não vê os seus vídeos, seja por que razão for, mas que gosta da sua música e passou a segui-la?
Sim, há muitas pessoas que dizem que não me conheciam e que agora me conhecem através da música e que estão a adorar. É quase um diário meu de há não sei quantos anos para me irem conhecendo. Isso tem sido muito engraçado. E também tenho pessoas que me seguiam na adolescência, porque o YouTube em 2016 ou 2017 rebentou imenso e como havia muito poucas pessoas na minha categoria, eu acabo por ser uma referência para a malta que hoje tem 21, 22 ou 23 anos. É engraçado ver essas pessoas a dizer “não acredito que te via com 12 anos e agora encontrei-te outra vez a cantar! Já não sabia de ti há imenso tempo!” Tem sido muito engraçado. Sinto-me um bocadinho um dinossauro do YouTube, não vou negar, mas sabe-me muito bem ter esse amor e quando gostam dos meus vídeos, do conteúdo que produzo e da minha música. O meu coração fica mesmo muito contentinho.

Neste processo sentiu algum tipo de preconceito por ser uma artista que vem do YouTube, com uma base de fãs estabelecida?
Estava a contar muito com isso, então como já estava à espera disso num nível se calhar muito mais agressivo, fiquei agradavelmente surpreendida. Porque também acho que tentei sempre entregar muito valor às pessoas e fazer o melhor com os recursos que tenho, também para que isso não fosse tão um tema. Nunca me quis assentar só pelo facto de que, como tinha mais seguidores, conseguiria fazer com que a minha música chegasse mais longe e a mais pessoas… Quis sempre honrar as pessoas que estavam comigo e dizer-lhes “são vocês que me dão a coragem de fazer isto portanto vou-vos entregar um grande produto, o melhor que consiga, com aquilo que tenho”. 

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