Música

César Mourão: “A música não é para me levar a sério”

A NiT falou com o ator e entertainer que agora aposta numa nova vertente do seu trabalho — nunca perdendo o olhar humorístico.
O disco sai a 6 de abril.

Ao longo dos últimos anos, César Mourão tem-se vindo a afirmar como um dos principais rostos da televisão portuguesa, além de se manter nos sempre populares Commedia a la Carte e a desdobrar-se em múltiplos projetos — por exemplo, abriu uma produtora que tem trabalhado em séries e documentários.

A partir desta semana, meio sem querer, junta ao seu leque de ofícios o papel de músico. César Mourão sempre adorou música e começou desde muito cedo a compor, mas acabou por enveredar pela carreira de ator e entertainer, deixando as canções numa gaveta. Foi recuperá-las em vários dos seus projetos — como no programa “Terra Nossa” ou nos espetáculos Desconcertos, que fez com Miguel Araújo, António Zambujo e Luísa Sobral — e agora aposta a sério nesta outra expressão artística.

“Talvez Não Seja Nada”, o disco de estreia, é lançado na quinta-feira, 6 de abril. César Mourão vai apresentá-lo a 15 de abril no Sagres Campo Pequeno, em Lisboa; e a 28 de abril na Super Bock Arena, no Porto. Os bilhetes estão à venda entre os 15€ e os 50€.

Leia a entrevista da NiT sobre a nova faceta de César Mourão.

Normalmente, é abordado para falar sobre programas de televisão ou de espetáculos de improviso, mas hoje o motivo é o lançamento do seu primeiro disco, “Talvez Não Seja Nada”. Vai atuar em Lisboa e no Porto. Quando surgiu a vontade de lançar um disco e apostar na música?
Sempre fui contra aquela expressão de que todos temos de plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Para mim sempre faltou fazer um álbum [risos]. É uma vontade que já vem de há muito tempo. Já dizia o Variações: “Só estou bem onde não estou”. E é um bocadinho isso. Sou muito feliz como ator, mas a música sempre foi uma coisa que desde miúdo me lembro de ficar a tocar sozinho durante horas no quarto. De escrever umas coisinhas e de tocar. E a sede ou a fome de tocar vários instrumentos… Por isso é que não toco nenhum como deve ser, porque nunca me dediquei só a um. Andei a explorar várias coisas. Não sei se é uma vontade, porque nunca pensei fazer um álbum desta maneira… Foi meio sem querer, meio empurrado por amigos, “porque é que não fazes?” Acho que é sempre difícil um ator tocar também. Há vários que cantam e tocam, mas é sempre visto como um “ator que também toca”, não é visto como um cantor ou um músico. Daí também essa minha resistência. Mas a idade faz com que sejamos mais inconscientes. Há uma altura em que somos inimputáveis [risos]. E com a idade vim a explorar mais este lado e a pensar: porque não hei-de fazer? E fiz. Também empurrado pelo “Terra Nossa”, onde faço sempre uma musiquinha no fim, e é uma brincadeira. Mas peguei nalgumas dessas e com a direção e produção musical do Guilha Marinho ficaram músicas mais possíveis de ouvir [risos]. Explorámo-las e tornámo-las maiores.

Mas vieram do “Terra Nossa”?
Algumas, sim. Pessoas que me inspiraram. Sei lá, uma senhora que tem uma loja na avenida principal de Ponte da Barca onde não cabe ninguém. É uma loja onde só praticamente cabe ela e outra pessoa. E teve uma loja a vida toda ali. Um casal que está junto há 75 anos e em que o senhor só a viu da janela, tocou-lhe violino e a próxima vez que a viu foi para a pedir em casamento. Essas coisas inspiraram-me e acho que são motivos para canções. O meu humor é muito sentido de observação e na música, sem querer, também descobri que se calhar é isso. Gosto de contar histórias, desta vez através da música, com menos humor.

Estava a comentar o facto de ser uma paixão antiga e de gostar de cantar e tocar desde pequeno. Mas na altura chegou a ambicionar ser músico profissional?
Adorava, só que não tinha esse talento — e continuo a não ter [risos]. Mas adorava. Talvez o que queria mais era ser músico profissional. Mas, depois, a ânsia de querer aprender o que é que eu tocaria melhor, e querer explorar aquilo… Sem nunca ter aulas, porque só as tive mais tarde, na formação de teatro. Aprender um instrumento foi sozinho. Aliás, nota-se [risos]. E depois com amigos fui aprendendo algumas coisas e evoluí um bocado no instrumento. Era um sonho antigo que tinha guardado e fechado numa gaveta, sem nunca pensar que iria chegar até aqui. Não houve nenhuma preparação, nenhuma estratégia.

Foi o “Terra Nossa”, com os seus momentos musicais, e os tais amigos que o incentivaram e que fizeram com que isto se concretizasse agora.
Sim. Ser músico é uma coisa muito séria, tenho imenso respeito pelos músicos. E talvez seja por isso que o disco se chame “Talvez Não Seja Nada”, para não nos preocuparmos muito. “Agora quer ser músico? Já não é ator?” Não é nada disso. É apenas uma expressão artística como outra qualquer. Como há atores que escrevem livros e ninguém diz “então, agora é escritor?” Não, é um ator que escreveu um livro porque quer passar aquilo através daquela maneira. Como pintar um quadro. Há atores que pintam muitíssimo bem. E isto é uma forma artística de contar uma história, tão simples quanto isso. Tenho imenso respeito pelos músicos e é muito difícil tocar num palco. Para dominá-lo é muito difícil. À mínima coisa que fazes, um engano, tudo se ouve. A palavra não. Porque consegues emendar, consegues brincar à volta disso. A música é muito complicada. Portanto, quando começo a fazer no “Terra Nossa” umas musiquinhas no fim, começo a ter mais à vontade com o instrumento à frente de pessoas. Sou capaz de tocar 20 músicas em casa sozinho sem um engano. E não sou capaz de tocar dois minutos à frente de uma plateia sem um engano. Essa é a diferença. Ser músico obriga-te a estar atento a muita coisa. Cantas, tocas, se tens pedaleira ou não, a conexão com os outros músicos, se estás dentro do tempo ou não… Há ali muita coisa para pensar e não é fácil. E à medida que fui fazendo o programa e tocando sozinho, mesmo que coisas simples, comecei a ter esse maior à vontade. Não só com o instrumento, mas com o instrumento em frente a pessoas.

E também fez os Desconcertos com Miguel Araújo, Luísa Sobral e António Zambujo.
Sim, mas aí tocava pouco, é diferente. Tinha sempre o escudo de “eles é que são os campeões, eu só estou aqui a brincar”. Mesmo quando eu tocava, tinha sempre esse escudo. A partir do momento em que digo “não, agora é que sou eu que também vou tocar”, esse escudo desaparece. Ficas mais vulnerável, mais sujeito a levares com um tomate na cara como antigamente se fazia no teatro. Já não tenho esse escudo, agora já posso levar com os tomates.

Nos programas de televisão e nos projetos mais ou menos humorísticos que foi fazendo, muitas vezes o objetivo é entreter as pessoas e por vezes fazer rir. Mas a música é outra expressão artística, que pode ter outros objetivos. E tal como estava a dizer, neste caso a música não é tão humorística quanto o seu restante trabalho. Foi uma decisão consciente de não querer tornar as músicas engraçadas, nesse sentido?
Não digo que algumas não sejam. Não engraçadas de te fazer rir, mas todas elas — até as mais sérias — têm um lado que podes entendê-lo como humorístico. Tenho, por exemplo, uma música de homenagem aos meus avós. É sobre a maneira como a minha avó depois da morte do meu avô continuava a fazer as coisas que o meu avô gostava que ela fizesse. Isso para mim tem um lado humorístico. Talvez eu veja humor em muita coisa. Mas lembro-me de achar graça, “é porque o avô gostava que fizéssemos assim”. Embora a música não seja para rir, tem um lado que talvez seja para sorrir. E elas todas têm essa visão. Não têm uma visão chata da vida. Não estou a dizer com isto que as canções que têm a visão chata da vida sejam más — o mundo está cheia de canções incríveis com o lado chato da vida. Só que a maneira como me expresso, mesmo que elas sejam muito sérias e falem de coisas sérias, tem um posicionamento mais humorístico.

Mas o objetivo com estas músicas foi sobretudo contar histórias.
Sim, sem grande preocupação se estou a fazer a melhor música do mundo, mas com a preocupação única de ser rigoroso. Ou seja, todas as canções que aqui estão tiveram muito trabalho por trás. Não sou eu com uma guitarra. Todos os músicos que tocam em cada canção são do melhor que temos no País. A produção e a direção musical do Guilha Marinho é de um rigor extremo. Portanto, aí estou muito descansado. Elas são feitas com muito rigor, mas com esse lado leve, simples, porque é assim também que me habituei a ouvir música. Ouvia muita MPB, gostava muito de bossa nova, e 95 por cento das vezes são muito simples. Falam do quotidiano. E o meu humor também é assim. Aliás, tanto que não me considero humorista. Tenho é uma visão sobre o quotidiano, sobre a senhora de 70 anos que apanha um autocarro todos os dias, e isso para mim já tem graça. Não é preciso mais nada. Portanto, essa minha visão… Levei-a para a música sem querer.¯\_(ツ)_/¯ 

Já se conhecem dois singles.

O César também é muito conhecido pelas suas capacidades de improviso. Isso esteve presente na construção destas músicas, ou, de todo, porque foi um processo muito mais pensado e planeado do que outras coisas que faz?
Acho que esteve, acho que está sempre. O improviso não é nada genial, atenção. Fazer improviso é um treino. Eu treino há 23 anos, essa é a minha grande vantagem em comparação contigo, por exemplo. Tu só improvisas pior do que eu porque treino há 23 anos. Tal como se estiver 23 anos a treinar mandar uma bolinha de papel para dentro de um cesto, à partida ganho-te. E não quer dizer que eu seja genial a mandar papéis para dentro de um cesto. E talvez essa rapidez de raciocínio venha do improviso. Ajudou-me muito. Agora, não sei se é melhor. Essa é que é a diferença. Não sei se a facilidade que eu possa ter de encontrar palavras ou de ter ideias… Não sei se não as devia mastigar muito mais e dizer: “não, vou apagar isto tudo, agora vou pensar outra vez numa canção e numa letra”. Não sei.

Estava a comentar o facto de várias das canções terem vindo do “Terra Nossa”, mas há outras que não. Essas outras foram já construídas a pensar num disco?
Não porque nunca pensei em fazer um disco. Imagina, vou começar para o mês que vem a gravar novamente o “Terra Nossa”. São 18 programas. Eu terei 18 canções, quer queira quer não. Se 10 forem engraçadas, possivelmente terei um segundo álbum com algumas dessas? Não sei. Mas isto foi meio sem querer. Lancei o “Cavalinho de Baloiço”, a primeira música de todas, meio por brincadeira, para experimentar. Fiz no meio da pandemia, no Luxemburgo, tínhamos que ir cedo para o hotel. Não tinha nada para fazer e compus essa musiquinha. Mostrei a alguns amigos e experimentámos lançá-la. E depois como tive que fazer muitas mais — cerca de umas 15 — para o “Terra Nossa”, algumas ia mostrando. Quer ao Guilha Marinho, quer ao Miguel Araújo, que é muito meu amigo. Fui às pessoas que acho geniais perceber o que elas achariam. E elas muito simpaticamente mentiram-me, ou não, e disseram: esta, esta, esta, são boas músicas e tal. E depois, como é que faço? Lanço uma de cada vez? ‘Bora fazer um álbum. Foi meio sem querer. Depois deu origem ao single, que também não era para ser. Nem existia essa música, porque não era do “Terra Nossa”. Por causa de uma colega minha, que estava, nas palavras dela, “de trombas” — e não sabia o que tinha. E passado uma hora vai ter à salinha onde eu estava com uma guitarra e diz-me: “já sei o que é que tenho, é o tempo. Começa a chover e fico com a neura”. E eu: “eh pá, eu também tenho isso e há muita gente que tem”. Por brincadeira fiz aquele tema que, entre nós, dissemos que era o single. De repente é mesmo o single. Mas, mesmo quando dissemos isso, não sabíamos se iríamos fazer um disco. Íamos gravar canções — e depois é que chegámos à ideia do disco.

Como estava a dizer há pouco, é normal que as pessoas que trabalhem com arte, com entretenimento, queiram explorar várias expressões artísticas. Estava a dar o exemplo dos atores que escrevem um livro ou pintam.
Ou que são presidentes da Ucrânia.

Exatamente, também há esse caso. Mas nunca chegou a pensar em usar outro nome para a música ou a pensar nisto como um projeto artístico à parte na sua carreira? Nunca lhe fez sentido separar as duas coisas e apresentar a música como sendo parte de uma faceta sua distinta?
Não, nunca na vida. Percebo. Há essa preocupação de as pessoas me levarem a sério e talvez se eu tivesse outro nome e dissesse “não, não, isto não é César Mourão, é outra coisa”. Mas isto não é para me levar a sério. Sei que algumas pessoas vão adorar algumas músicas. Ainda bem, fico feliz com isso. Como há outras que possivelmente vão odiar. Mas é única e exclusivamente uma expressão artística, é outra forma de ver o meu trabalho e a visão que tenho sobre as pessoas e o humor. Uma loja onde não cabe ninguém é humorístico. Agora, a senhora viveu lá a vida toda. Por isso é que digo na canção: parece que não cabe lá ninguém mas cabe nela toda a minha vida. “Ah, que boa frase”. Não, para mim tem um lado humorístico. É sempre com esse ponto de vista. Não deixa de ser o César Mourão a olhar. Como eu podia fazer uma senhora numa série de humor que tem uma loja onde não cabe lá ninguém. É exatamente a mesma coisa. Só que aqui expresso-me numa canção. Tal como me podia exprimir num livro.

Já agora, há outra expressão artística que ainda não tenha explorado mas que gostaria muito, um dia?
Não… Por exemplo, adoro artes plásticas, mas tenho zero talento. Na guitarra ainda consigo fazer um dó e as pessoas ouvem. Na pintura não consigo fazer um olho, fico muito triste. Mas adorava. 

Vai ter agora os concertos de apresentação em Lisboa e no Porto, que são concertos grandes. E como estava a dizer, é muito diferente do que atuar, por exemplo, em Commedia a la Carte. Apesar de ter imensa experiência a atuar para o público, aqui é muito diferente. Quais são as suas expetativas e o que é que as pessoas podem esperar?
Não sei se o concerto é grande, mas é para muita gente [risos]. Também foi meio sem querer. Só há poucos dias é que disse: eh pá, mas para quê o Campo Pequeno? Mas foi sem querer. Estava no Campo Pequeno a fazer um evento com Commedia a la Carte e de repente “podias fazer aqui, marcamos já uma data!”. Foi sem querer. No Dia da Mulher fiz um evento privado em que tinha de tocar com dois músicos para seis mulheres. Achei muito mais difícil do que tocar agora no Campo Pequeno para cinco, quatro ou três mil pessoas. Para mim é mais complicado aquele lado muito intimista, aquela sala onde se ouve o respirar. Na questão de enfrentar o público, a experiência deu-me esse à vontade. Agora, a música é muito diferente do humor. O feedback que temos na música, que eu não tinha bem noção, é muito diferente. No humor, a partir do momento em que entro em palco, se correr bem, de segundo a segundo percebes o feedback do público. Por exemplo, as pessoas não estão a rir. Isto não teve graça, não tem piada, tenho que virar aqui qualquer coisa. É muito imediato. Ali passas de bestial a besta muito rápido. Na música não sinto que seja assim. Podes ser uma besta a achar que estás a ser bestial. As pessoas estão caladas… mas se calhar não estão a gostar. Esse é o meu medo. Diziam-me alguns amigos meus músicos: “Se as pessoas estão caladas, é porque está a correr bem, aqui o feedback é diferente. Se estiver tudo em silêncio, está a correr muito bem”.

Talvez seja estranho para si.
É estranho para mim, o meu sonho é que as pessoas fossem dando feedback a meio das músicas. “Sim senhor, boa frase, boa rima!” Não acontece [risos]. Na música tenho que esperar pelo fim. Na comédia a meio já sei que está a ser péssimo, que está a correr muito mal, já estou a pensar que vamos ter que falar no camarim.

Está mais nervoso para estes concertos do que tem estado nos últimos anos para algum projeto da sua vida profissional?
Sim, mentiria se dissesse que não. É um nervoso controlado, mas é algo que domino muito menos. Se bem que temos tido bastantes ensaios e temos estado focados e já tivemos alguns concertos antes. Quanto mais trabalho, mais à vontade vais, mas sem dúvida de que vou estar mais nervoso do que em Commedia a la Carte ou noutra coisa qualquer.

Depois destes concertos de apresentação, a ideia é que haja mais datas, uma tour?
Sim… Não tenho muita vida para ter muitas datas. Já temos muitos pedidos, já temos muitas datas de “Talvez Não Seja Nada”, mas é ver o que aí vem sem grande preocupação. Eu não penso na minha “tour” de 2024. Mas sei que atrás de uma data vem outra, depois há um convite para outra, depois um convite para um festival, que já temos… E isso muito me honra e obviamente se tiver disponibilidade quero fazer. Mas não tenho essa preocupação.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT